País pode sair da desaceleração com emprego quase ileso

Fernando Dantas

O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2012 | 03h06

Os dados incompletos da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), divulgados ontem, revelam uma situação no mercado de trabalho menos esplendorosa do que pode parecer à primeira vista. A análise do Itaú-BBA indica que, com ajuste sazonal, a taxa de desemprego nas quatro regiões metropolitanas (as do Rio e de Salvador ficaram de fora, por causa da greve do IBGE) caiu de 5,8% em junho para 5,3% em julho, com ajuste sazonal. É um novo recorde e um nível baixíssimo. Houve sem dúvida uma contribuição da melhora do emprego na indústria, mas essa nova queda do desemprego é reflexo também da menor procura de trabalho, com recuo de 1,2% na população economicamente ativa (PEA) de junho para julho, como nota o relatório do banco.

Já a população ocupada caiu (pelo segundo mês consecutivo), indicando que não foi o aumento do emprego que derrubou a taxa de desemprego. O salário real médio caiu 1% em julho, na comparação dessazonalizada com o mês anterior, em que também houve queda.

Há sinais, portanto, de um início de arrefecimento no aquecido mercado de trabalho brasileiro. Ainda assim, no entanto, não há dúvida de que o desempenho do emprego tem sido excepcional, quando se pensa que a economia está quase estacionada desde o segundo semestre do ano passado. Os números de julho ainda mantêm essa aparente contradição entre atividade e emprego, que vem sendo objeto de intensa análise por muitos economistas brasileiros.

Há uma série de possíveis explicações, que foram elencadas na última 'Carta do Ibre', do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre).

A primeira dela é a defasagem típica ao longo do ciclo econômico. Os efeitos da desaceleração econômica, principalmente quando esta centra-se na indústria, setor minoritário em termos de PIB e de emprego, demoram para atingir o mercado de trabalho como um todo.

Outro fator seria demográfico, com a desaceleração dos novos ingressos no mercado de trabalho possivelmente ligada à mesma tendência na evolução das pessoas em idade de trabalhar. Essa contenção da busca por emprego ajuda a manter o desemprego em nível baixo (aliás, precisamente o ocorrido em julho).

Há a explicação estrutural, relacionada à desindustrialização e ao aumento relativo do setor de serviços. Como a produtividade nas manufaturas é em geral maior do que a dos serviços, e como essa transição deixa capital ocioso na indústria, a atividade econômica pode sofrer. Por outro lado, o setor de serviços emprega mais. Assim, pode haver desaceleração do PIB e mercado de trabalho aquecido. E, finalmente, há a 'retenção' de trabalhadores, com as empresas mantendo mais empregados do que precisam, apostando na retomada da economia.

De qualquer forma, surgiram sinais de reativação da economia, até na indústria. Se forem confirmados, o Brasil terá a sorte de sair de uma considerável desaceleração econômica com o mercado de trabalho praticamente ileso.

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