'País precisa de moratória de cinco anos'

Economista, historiador e filósofo, presidente de honra do Banco Europeu de Investimentos (BEI), Panayotis Genimatas é uma das personalidades políticas e econômicas mais respeitadas da Grécia, tendo sido cogitado para ser presidente do país em junho de 2009, quando recusou-se a disputar o cargo, decepcionado - também - com a classe política.

Entrevista com

ATENAS, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2012 | 03h07

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Há dois anos a Grécia está mergulhada em um esforço internacional para sair da crise. Por que não funciona? Por que as medidas não trazem resultado?

Como historiador e filósofo, teria de refletir se não se trata de uma incapacidade imanente do governo ou da sociedade grega, que nos impede de ir adiante e reformar o Estado, refundando-o. Como banqueiro, acredito que seja na essência um problema do sistema político, que nunca demonstrou capacidade de completar o plano de convergência total, pré-requisito para o ingresso na União Europeia, há 10 anos. Nesse ínterim, tivemos os Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas, que nos custaram caro e foram pagos com a contratação de dívidas. Finalmente, a partir de 2007 houve uma deriva fiscal na Grécia com a conivência da Comissão Europeia, comandada por seu presidente, José Manuel Durão Barroso, e pelo comissário de Finanças, Joaquin Almunia. Deveríamos estar em austeridade entre 2007 e 2009, mas não fizemos nosso trabalho nem fomos exortados a fazê-lo.

No entanto, domingo o Parlamento aprovou o plano de austeridade exigido pela troica. O senhor acredita que ele pode encaminhar a solução?

Não. Desde domingo tornou-se impossível acreditar que qualquer plano de austeridade pode significar uma saída da crise. Vamos gastar muito tempo para recuperar e reconstruir o sistema político, para só então adotarmos planos de austeridade credíveis - e que tenham outra natureza além de cortes.

O sr. é contra o corte de 22% do salário mínimo, por exemplo?

Sou contrário, é claro. A troica faz uma abordagem errada da falta de competitividade da Grécia. O custo do salário mínimo não é nem de longe seu principal fator.

Pelo que vejo, o sr. acha impossível escapar da moratória.

É impossível escapar da moratória. Mas ela precisa ocorrer na UE, com a revisão total dos planos de austeridade, que precisam levar em conta pelo menos três elementos: a inevitabilidade da moratória em si, a manutenção da Grécia na zona do euro e a revisão da austeridade, com ênfase no reestabelecimento das funções do Estado. Caso contrário, nenhum plano será implantado. Precisamos de um grupo de experts que possa encaminhar a reforma das instituições.

Mas é possível declarar moratória e permanecer no euro?

A Grécia deve permanecer. A população acredita nessa ideia. A UE precisa entender isso.

E como será após a moratória?

O ano de 2013 será catastrófico. Teremos 25% mais desemprego, falências em massa, produção industrial em queda livre e reação social imprevisível. Todas as previsões da troica, que estão muito longe do realismo, se mostrarão equivocadas. A situação vai piorar muito e todos os prognósticos serão mais dramáticos na realidade. Para sair disso, precisaremos de uma moratória de cinco anos, com convergência fiscal e reestruturação total. Mais: precisaremos de um novo Estado, um novo país. / A.N.

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