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País precisa distribuir melhor a renda, diz Abílio Diniz

Durante entrevista exclusiva concedida hoje à Rádio Eldorado AM/FM, o empresário Abílio Diniz, diretor-presidente do Grupo Pão de Açúcar, falou sobre a má distribuição de renda no País e sobre os baixos salários. Ele opinou ainda sobre o problema da economia informal e criticou a postura do governo em relação à questão tributária. Diniz disse que a situação político-econômica dos últimos dez anos do País foi muito importante para o desenvolvimento das empresas. Ele não fala à imprensa há cerca de três anos."No início da década de 80 nós vivemos um período de hiperinflação e, a partir de 1994, passamos a viver com uma estabilidade monetária que realmente trouxe um cenário novo para nós brasileiros que já estávamos desacostumados a conviver com a estabilização", analisou. Diniz afirmou, no entanto, que a má distribuição de renda e a alta carga tributária ainda são problemas graves no País que inibem o seu desenvolvimento.Ele disse que o governo obteve êxito com a desvalorização do Real promovida em 1999, já que não houve uma inflação correspondente à desvalorização. Porém, os salários ficaram para trás e perderam poder aquisitivo. "Eu considero que um dos pontos principais nesse País é que os salários precisam subir. Não apenas a massa salarial, mas tem que haver uma distribuição de renda melhor, coisa que não se faz do dia para a noite. Coisa que se faz com calma, com programação, com planejamento. Mas é necessário que os salários aumentem para que nós tenhamos consumo e desenvolvimento no País", defende.Economia informalDiniz ainda comentou a análise dos dados do Censo 2000 feita pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan. O ministro admitiu que a possível explicação para o paradoxo do aumento do consumo, apesar de a renda ter permanecido a mesma, é a economia informal. Para o empresário, o problema do crescimento da economia informal é fruto do sistema tributário brasileiro, que é responsabilidade do governo. Diniz considera que o problema da reforma tributária não é analisado com a profundidade e com a coragem necessárias. "A carga tributária no País, nestes últimos anos, durante o governo do Fernando Henrique Cardoso e durante a gestão do ministro Malan, subiu de 26% a 27% do PIB para 34%. Isto é um absurdo para um País que pretende se desenvolver, um país emergente, como é o caso do Brasil. Isso inibe todo o sistema produtivo, isso distorce as coisas, isso pune pessoas físicas e jurídicas de uma forma muito severa e beneficia quem? Beneficia o pobre, o pequeno trabalhador? Não. Não é a verdade", analisa.Diniz acrescentou que não há como se pensar numa reforma tributária profunda num ano eleitoral, "mas isso devia ser uma plataforma do futuro presidente de realmente encarar esse problema a sério".Ele afirmou que, muitas vezes, o próprio governo é o responsável pela economia informal existente no País na medida em que faz acordos com determinadas empresas e setores por motivos que nem sempre são bem explicados. Para ele, existem várias distorções no setor, como, por exemplo, empresas autorizadas a recolher, por estimativa, na saída, apenas 1% de ICMS, quando o normal seria recolher 18%.Diniz falou que, por conta desse quadro, o Pão de Açúcar tem que enfrentar uma duríssima concorrência de preços no Brasil com grupos desconhecidos, que sequer podem ser chamados de pequenos, mas que se beneficiam da informalidade provocada pelo sistema tributário."Nós não temos o menor problema em competir contra os players globais existentes no Brasil, como o Wal-Mart e o Carrefour. Posso dizer com orgulho e satisfação que nós os batemos ou, na melhor das hipóteses, competimos em condições de igualdade com eles. O problema é com os desconhecidos, que nos oferecem uma concorrência duríssima de preço, difícil de enfrentar, única e exclusivamente porque eles se beneficiam da chamada informalidade causada pelo nosso sistema tributário, que permite uma série de ajustes que eles fazem e que nem nós nem nossos competidores podem fazer", defendeu.Consumo cidadãoO diretor-presidente do Grupo Pão de Açúcar concordou com o fato de que os hábitos dos consumidores mudaram nos últimos tempos. Atualmente, as pessoas manifestam uma simpatia por marcas que investem em cidadania e em responsabilidade social, fator capaz de influenciar na decisão no momento da compra. Abílio destacou que esses hábitos variam de acordo com a renda das pessoas, principalmente as classes média e baixa, que realmente mudam de marca e dão preferência ao preço.Quanto às ?marcas simpáticas?, ele disse que o Pão de Açúcar goza hoje desse conceito junto à população porque o grupo dá uma importância muito grande para o lado social. "Nós começamos a lição dentro de casa. Damos enorme importância aos nossos colegas, às pessoas que trabalham conosco, nos tratamos de maneira igual, enfim, damos muita importância a tudo que possa propiciar uma melhor qualidade de vida. Procuramos, também, levar isso para a sociedade, na medida do possível".Descontrole da violência Diniz aproveitou a entrevista para declarar seu amor por São Paulo, apesar da onda de violência que assola a cidade - ele mesmo já foi vítima de seqüestro. Ele disse, porém, que a falta de segurança que reina na capital paulista causa tristeza não só a ele e à sua família, mas a todas as pessoas que aqui vivem, sejam de classe média ou das camadas sociais mais baixas.Ele comentou o recente seqüestro dos três filhos da mulher de seu irmão, Alcides Diniz, um dos casos mais longos já registrados pela polícia de São Paulo. "As pessoas estão apavoradas. Eu participei atentamente do caso do seqüestro dos meus sobrinhos, que durou 53 dias. No primeiro dia, quando estava com o diretor do DAS, eu ouvi eles falando sobre um seqüestro cujo pagamento de resgate foi fechado em R$ 4 mil! Então, você tem pedidos de milhões de dólares e casos de R$ 4 mil, os casos de seqüestro-relâmpago". O empresário acha que, apesar do quadro, muito pode ser feito para tentar minimizar a situação, nas esferas estadual e federal.Segundo ele, é preciso também que haja uma grande mobilização por parte da população, citando, como exemplo, o caso do Rio de Janeiro, onde a violência era muito maior do que em São Paulo, e hoje é menor. "Eu acho que a sociedade vai se levantar, coisas vão ser feitas, nós vamos tentar diminuir a violência na nossa cidade. Vamos seguir exemplos de outras cidades e até de outros países para tentar dar uma qualidade de vida melhor e de maior tranqüilidade para as pessoas que moram aqui em São Paulo". Eleições e propostasNa última parte de seu depoimento, o empresário Abílio Diniz fez considerações exatamente sobre política e as eleições que vão ocorrer este ano no País. Ele disse que se considera um otimista, pois acredita que o Brasil vai mudar para melhor, mas pede aos presidenciáveis que apresentem claramente aquilo que pretendem fazer."O País tem que ter um crescimento auto-sustentado, e eu acho que nós vamos ter. O que está faltando, talvez porque não tenha começado a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV, é os candidatos colocarem claramente suas idéias, aquilo que pretendem fazer".Na opinião dele, o mundo está cada vez mais globalizado e os presidenciáveis não podem afirmar que não vão dar bola para o mercado. Ele citou o caso da Argentina, que, apesar da crise, continua desesperada atrás do mercado porque precisa de dinheiro para resolver seus problemas."Nós não podemos nos fechar, ficar fora desse contexto. Mas não acredito que, qualquer que seja o candidato que vença a eleição, nós venhamos a ficar fora disso. É preciso que isso seja esclarecido à população porque ficar fora não quer dizer mais dinheiro à população carente, aos mais pobres. Por isso, não acredito que nenhum candidato tenha isso em mente", avaliou.Diniz assinalou que os presidenciáveis devem acima de tudo tranqüilizar a sociedade brasileira até porque, segundo ele, não deve acontecer nenhum grande retrocesso no Brasil e a vida da população deve melhorar.A entrevista concedida hoje pelo empresário Abílio Diniz à Rádio Eldorado AM/FM fechou a primeira semana desta nova fase da emissora, iniciada na segunda-feira com a entrevista do presidente Fernando Henrique Cardoso, no Palácio da Alvorada, em Brasília. Nesta semana, falaram também à rádio a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o ministro da Fazenda, Pedro Malan.

Agencia Estado,

10 de maio de 2002 | 11h30

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