''País precisa jogar globalmente para se defender das importações''

Roland Berger, 72 anos, está em um país diferente a cada semana para acompanhar de perto os trabalhados dos 36 escritórios que ele e os sócios mantêm em 25 países. A Roland Berger é a quarta maior empresa do ramo de consultoria estratégica no mundo. A empresa foi fundada em 1967 quando o empresário, formado em administração de empresas, ficou fascinado pela possibilidade de trabalhar com bancos, montadoras, indústrias químicas, elétricas e outros tantos segmentos e "ajudar a influenciar na economia, nas áreas sociais e no desenvolvimento de novos produtos".

Roland Berger, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Na quarta-feira, num intervalo entre reuniões com executivos em São Paulo, ele falou com o Estado. Seguem trechos da entrevista.

Como o sr. avalia o Brasil hoje?

Eu visito o Brasil desde 1974 e acompanhei as várias mudanças do País, da ditadura para a democracia, da inflação alta para a controlada, da moeda instável para a estável e muitas outras alterações. Esse é o melhor momento do Brasil, com oportunidades de crescimento longo e sustentável.

Qual a importância do Brasil para a sua empresa?

É um país que tem recebido grandes investimentos, que abriga companhias multinacionais e grupos locais importantes como Petrobrás, Vale, Gerdau e Embraer. Vamos usar o Brasil como base de expansão na América do Sul, queremos abrir escritórios na Argentina, Chile, Colômbia e Peru.

Como o sr. vê a indústria automobilística mundial?

É uma indústria em crescimento, impulsionada pelos mercados emergentes. Há alguns anos, o planeta tinha 20% de sua população rica e 80% pobre. Essa grande parcela de pobres está prosperando e precisa de mobilidade, seja por meio de bicicletas, scooters, carros, transporte público. A indústria tem de apresentar soluções para essas pessoas. A indiana Tata, ao lançar um carro de US$ 2,5 mil, visa a uma parte dessas necessidades.

E a brasileira?

Também está em crescimento e produz carros competitivos para o mercado interno e para exportação, embora apenas para alguns mercados parecidos ao brasileiro. O País precisa ganhar das grandes multinacionais do setor o direito de produzir um carro realmente global. Isso é possível, mas depende das condições locais de competitividade. Em comparação a outros mercados em desenvolvimento, o custo de produção no Brasil é muito mais alto.

O que falta ao Brasil para ser competitivo?

Falta uma firme aliança entre fabricantes e governo para projetos de desenvolvimento de novas tecnologias, redução de custos de produção, infraestrutura para o transporte público e privado e renovação da frota. Com medidas efetivas, o País vai ampliar em muito sua classe de consumo e atrairá ainda mais investimentos internacionais que o levarão a enfrentar a concorrência asiática.

Nos últimos meses, as montadoras anunciaram investimentos de cerca de R$ 18 bilhões até 2015. Não é um sinal de confiança no País?

Os investimentos são elevados e têm sido feitos por causa do mercado interno, mas o Brasil precisa pensar além desse prazo. O País precisa jogar globalmente para, ao mesmo tempo, se defender das importações e aumentar suas exportações.

A renovação da frota está na pauta do governo e das montadoras há pelo menos oito anos.

Agora é o momento para agir. O País está experimentando uma nova era e não deve perder essa oportunidade.

Qual sua opinião sobre os carros brasileiros?

São tão bons quanto os de outros países. Falo dos carros mais novos, que são competitivos, mas ainda há muitos modelos antigos que já foram modificados lá fora e aqui seguem sem alterações.

Por que a demora?

O desenvolvimento de um carro custa US$ 650 milhões para a montadora. Ela só o faz se tiver escala. No passado, o mercado brasileiro era pequeno. Agora está crescendo, mas só as vendas internas não dão escala suficiente no longo prazo.

A tecnologia flex , que adota o uso de 100% de etanol nos carros, pode ser exportada?

É uma tecnologia inovadora, que pode ser adotada em outros países, mas que só terá sucesso em ganhos ambientais em regiões com condições de cultivar a cana-de-açúcar. O Brasil, porém, não pode ficar de fora do uso de outras tecnologias, como a dos carros elétricos e a hidrogênio.

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