País precisa melhorar estrutura econômica

Concorrentes mundiais saem na frente nos quesitos imposto, educação e comércio

RICARDO LEOPOLDO, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 23h59

Carga tributária menor, abertura comercial mais ampla e eficiência nos gastos públicos em Educação são alguns dos fatores comuns a várias nações com taxas de investimentos bem maiores do que a do Brasil.

O peso dos impostos sobre o Produto Interno Bruto (PIB) na China, por exemplo, foi de 16,1% em 2010 (dado mais recente), enquanto no Brasil alcançou cerca de 34%, destaca o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (Fea-USP), Simão Silber.

Especialistas ponderam, ainda, que um dos elementos essenciais para ampliar a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) é a produtividade, um elemento que está diretamente relacionado com o conhecimento técnico e escolaridade da população.

"O aproveitamento das despesas oficiais com Educação é altamente questionável. O desempenho dos estudantes de Xangai em matemática é o melhor do mundo, enquanto no caso do Brasil é um dos piores", diz Silber.

Na China, a taxa de investimento produtivo em relação ao PIB está ao redor de 40%, enquanto no Brasil caiu de 18,8% para 17,9% do primeiro para o segundo trimestre deste ano. No caso do país asiático, os analistas ressaltam que a população é obrigada a poupar muito mais do que no Brasil, pois lá não há previdência social.

O professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Antonio Correa de Lacerda, destaca que em outros mercados emergentes a relação entre investimento e PIB também é mais elevada do que no Brasil, como na Coreia do Sul, onde supera 30%. O mesmo ocorre na América Latina. No Chile, a taxa de investimento chegou a 23,4% e no México alcançou 21,8% em junho, segundo dados do Barclays.

Há uma boa correlação entre investimentos e avanço do PIB. Em 2011, a China cresceu 9,3%, o Chile avançou 6%, a Coreia do Sul apresentou uma alta do PIB de 3,6%, marcas superiores aos 2,7% do Brasil no período.

Comércio exterior. Outro elemento que colabora para a ampliação dos investimentos é a abertura comercial. No caso do México, há um processo de redução da dependência das exportações para os Estados Unidos, com a ampliação de acordos com países emergentes, especialmente os asiáticos.

"O México adotou uma política de maior integração de sistemas produtivos em nível internacional em diversas áreas, o que repercute, por exemplo, numa magnitude muito maior de exportações de automóveis do que o Brasil", comenta a professora da PUC-RJ, Monica Baumgarten de Bolle. No México, as vendas externas de bens e prestação de serviços atingiram 33,1% do PIB no segundo trimestre, enquanto no Brasil chegaram a 12,3%.

"E isso pode até diminuir, pois o governo está adotando medidas protecionistas, com a alegação de proteger a indústria. Tal postura também tende a reduzir a competição empresarial e a busca de avanços de inovação para que tais companhias reduzam custos, pois passam a ter menor concorrência no mercado doméstico", destaca Monica.

O Chile alcança taxas de investimento e crescimento maiores que a do Brasil por causa de estabilidade de regras para investimentos e política monetária crível conduzida pelo banco central do país, que é independente do governo, ressalta o professor da PUC-RJ e economista-chefe da Opus Gestão de Recursos, José Márcio Camargo.

Ele aponta que o país adotou um amplo programa de privatizações que inclui grande parte do sistema previdenciário e de diversos segmentos produtivos, com exceção do setor de cobre.

"A taxa de poupança é expressiva, o que faz com que uma parte importante dos investimentos seja dedicada a projetos que vão amadurecer muitos anos à frente", comenta. "É verdade que o país é pequeno e pode ser até avaliado como um microcosmo neoliberal. Contudo, essa forma de conduzir a economia foi mantida pelos presidentes nos últimos 20 anos, entre eles, os socialistas."

Confiança. Além desses diferenciais estruturais que outros países oferecem para impulsionar os investimentos, há um tema também muito relevante para a ampliação dos investimentos: é o bom ambiente de negócios, caracterizado especialmente por uma relação harmoniosa entre o governo e o setor privado. Mas não é bem isso que ocorre hoje no Brasil, com diversas medidas de confronto que o Poder Executivo vem assumindo com companhias particulares, especialmente nos setores de energia elétrica, telecomunicações e bancos.

"Numa conjuntura em que o País precisa de recursos volumosos para tocar projetos de infraestrutura, como rodovias e ferrovias, essas disputas emitem sinais que trazem dúvidas a investidores internacionais sobre sé é bom ou não aplicar no Brasil", comenta o diretor de pesquisa da Nomura Secutiries, Tony Volpon.

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