Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE
Nokia
Nokia

‘País que demorar no 5G vai perder competitividade’, diz executivo-chefe da Nokia no Brasil

Conhecida pelos celulares ‘indestrutíveis’ dos anos 2000, companhia agora disputa setor de infraestrutura com chinesa Huawei

Entrevista com

Ailton Santos, executivo-chefe da Nokia no País

Circe Bonatelli, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2021 | 10h00

Muito lembrada pelos celulares "tijolões e indestrutíveis" da década de 2000, a finlandesa Nokia, que vendeu sua divisão de smartphones e hoje recebe apenas os royalties pela cessão da marca, está agora concentrada na implementação do 5G ao redor do mundo e, em breve, também no Brasil. O fornecimento de redes e antenas para o 5G é o principal negócio da Nokia. Com 165 contratos já fechados, ela disputa a liderança global do mercado de equipamentos com a sueca Ericsson, que tem 139, e a chinesa Huawei, com 92 – no caso da Huawei, o dado é do fim de 2019, pois a empresa deixou de atualizar o número depois que sofreu restrições em diversos países, como Estados Unidos e Reino Unido.

Em paralelo à corrida com as rivais, a Nokia tem o desafio interno de aumentar a eficiência. Em março, a matriz determinou que suas filiais cortem entre 5 mil e 10 mil postos de trabalho até 2023, visando a uma economia de até 700 milhões de euros. A medida dura foi a forma que a fabricante encontrou para compensar o aumento dos investimentos com pesquisa em infraestrutura digital e tecnologia da informação.

Por aqui, a determinação terá pouco impacto, pois as operações já são enxutas, afirma o executivo-chefe da empresa no Brasil, Ailton Santos. A Nokia tem escritórios em São Paulo, Rio e Curitiba, além de hubs em Sorocaba e Barueri (SP) para produção e distribuição de equipamentos. Ao todo, emprega 3 mil pessoas direta e indiretamente. "A Nokia está se posicionando cada vez mais forte e mais sólida aqui no Brasil", frisou o executivo, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

O executivo projeta um acréscimo de US$ 1,5 trilhão à economia brasileira nos próximos 15 anos a partir da implementação do 5G. Embora ainda não haja uma data para o leilão da nova tecnologia, o País continua dentro de um prazo sadio para ativar o 5G, na sua avaliação. Entretanto, não pode descumprir os prazos previstos pelo edital da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), sob o risco de perder negócios. "Os países que demoram muito a adotar o 5G começam a perder competitividade interna e externa", ressalta.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

A Nokia anunciou em março uma reestruturação global. Quais serão os impactos para o Brasil?

A reestruturação é positiva para a Nokia como um todo, incluindo o Brasil no que diz respeito à estratégia de negócios. Não vejo como uma simples redução de pessoas, mas sim como uma reorganização para sermos mais eficientes e atender melhor tanto os clientes quanto os acionistas. No Brasil, o impacto é mínimo, pois já vínhamos fazendo o trabalho de forma enxuta.

A Nokia tem planos de deixar o Brasil?

Não. Pelo contrário: a Nokia está se posicionando cada vez mais forte e mais sólida aqui no Brasil.

Quantos contratos de 5G a Nokia tem?

Temos por volta de 165 contratos globais. Fornecemos para as maiores operadoras do mundo. Atendemos às quatro maiores nos Estados Unidos, às três maiores da Coreia do Sul e do Japão, acabamos de ganhar um contrato na Suécia. Somos os líderes mundiais em patentes essenciais no 5G, com mais de 3.500 registros.

Há contratos fechados no Brasil?

No Brasil não temos contratos de 5G, até porque ainda não tivemos o leilão. Mas estamos na América Latina, como Antel Uruguay, Star Aruba, CNT Ecuador e Telecom Argentina.

Qual será o ‘efeito 5G’ para a economia?

Em um estudo da Nokia com a Omdia sobre o impacto do 5G no Brasil nos próximos 15 anos, a conclusão é que veremos um ganho de produtividade de US$ 1,5 trilhão. Isso equivale a 1% (de ganho) no PIB brasileiro por ano daqui para frente.

Tem um exemplo de como veremos esse bolo crescer?

Imagine uma fazenda que consegue ter precisão em todas as mediações dos seus insumos e processos. Com 5G, ela será super produtiva no uso de sementes, fertilizantes, água etc. Depois, a produção entrará em veículos para transporte até galpões de armazenamento. Esses ganhos de produtividade vão se somando até o consumo pelas pessoas físicas. O efeito disso sobre toda a cadeia produtiva fará com que países que demorem muito a adotar o 5G comecem a perder competitividade interna e externa. Isso porque o desenvolvimento das aplicações para melhorar a produtividade só será possível a partir da disponibilidade da infraestrutura. Portanto, o tempo é fundamental.

Tendo isso em vista, o senhor diria que o Brasil está atrasado na realização do leilão do 5G?

Não acho que estamos atrasados. Comparativamente com outros países, ainda estamos em um timing bom. Desde que a gente consiga cumprir minimamente os prazos previstos no leilão na implementação da infraestrutura.

Com qual expectativa de prazos vocês trabalham para a realização do leilão do 5G? 

Esses prazos são variáveis que não controlamos. Para não ficarmos parados, estamos desenvolvendo parcerias para testes de uso do 5G. Temos laboratórios em São Paulo e Curitiba, parcerias com universidades, centros de pesquisa e Sebrae, entre outros. Nós estamos formando pessoal e desenvolvendo aplicações. A ideia é ganhar tempo. 

Que tipos de experimentos em 5G a Nokia tem feito?

Fizemos uma demonstração recente para o governo federal e para o Congresso, em Brasília, com foco na telemedicina. Acreditamos que este será um dos primeiros setores a adotar o 5G. Montamos um mini hospital com robôs fazendo entrega de remédios e descarte de lixo tóxico, mostramos a possibilidade de telemetria real de UTI, uso de holograma para cirurgia a distância ou treinamento de estudantes.

O sr. considera acertada a exigência da Anatel de que as redes adotem o 5G no padrão standalone, isto é, uma rede inteiramente de nova geração?

Acho que, independente de regulação, essa é uma questão que faz sentido. Como o standalone oferece menor latência, ela atende um novo segmento de indústrias que não poderiam ser endereçadas de outra forma (pois precisam de respostas rápidas, como carros autônomos ou cirurgias por robôs). Para o consumidor final, não é tão importante, a não ser em casos como o setor de games. Mas, para certos tipos de indústria, é fundamental.

Como o senhor avalia a restrição a fornecedores, como no caso da Huawei nos Estados Unidos? 

Muitos países, ao discutir o 5G, não tocam apenas no contexto dos equipamentos, mas pensam também em mecanismos de accountability (responsabilização). Nós, por exemplo, somos uma empresa listada na bolsa, o que permite responsabilização na questão societária. Temos sede em país democrático, com Poderes livres, que também são instrumentos de responsabilização. Existe todo um contexto para segurança. Isso não é uma narrativa encurtada do tipo: "Essa fabricante nunca teve um caso provado de vulnerabilidade". Mas é preciso lembrar que as organizações cibercriminosas não são barulhentas. Eles entram, obtêm o benefício desejado e saem silenciosamente. Por isso, acho a discussão hoje um pouco limitada e que não leva em consideração um aspecto técnico e econômico.

Parece uma maneira delicada de o senhor defender a Nokia em comparação com a Huawei, que não tem um controlador definido e tem sede na China.

Eu não defendo a Nokia em comparação com as rivais. O que posso dizer é aquilo que nós temos de fato e podemos oferecer. A decisão de cada Estado e a comparação são livres.

Tudo o que sabemos sobre:
NokiaHuaweismartphone5G

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.