País também importa quase todo o combustível nuclear

País também importa quase todo o combustível nuclear

Dependência reflete falta de investimento no setor; produção nacional de urânio enriquecido não atende 10% da demanda

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2014 | 02h07

Apesar de dominar todo o ciclo de enriquecimento do urânio, e ser dono de uma das maiores jazidas deste minério em todo o mundo, o Brasil ainda será, por muitos anos, um fiel importador do combustível para nas usinas nucleares instaladas em Angra, no Rio de Janeiro.

A principal causa dessa dependência é, basicamente, a falta de investimento no setor. O conhecimento local existe, mas não há como industrializá-lo para garantir a autossuficiência ao País. Hoje, a produção nacional de urânio enriquecido é marginal e, segundo os especialistas do setor, não chega a atender 10% da demanda das usinas Angra 1 e 2.

Para montar uma estrutura capaz de alimentar essas usinas, seria necessário um aporte de aproximadamente R$ 2 bilhões, estima a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. No ano passado, aponta a INB, o Tesouro destinou apenas R$ 38 milhões para essa tarefa.

Por lei, a INB detém o monopólio de todo o ciclo do urânio no País, da extração mineral até a fabricação do combustível usado na geração nuclear. Por conta disso, não é permitido a outra companhia fazer o enriquecimento no País.

Para alimentar Angra 1 e 2, usinas que têm capacidade conjunta de 1.990 megawatts, são necessárias 380 toneladas de concentrado de urânio por ano. Depois de ser extraído no Brasil, esse material passa por um processo de transformação, que culmina na fase do enriquecimento. Essa etapa tem sido executada em países como França, Holanda e Reino Unido.

Investimento. "Hoje ainda temos uma capacidade muito pequena de enriquecimento. Na realidade, estamos longe de ter capacidade plena de execução dessa etapa no país, por conta das necessidades de investimento", diz o presidente da INB, Aquilino Senra.

Essa dependência do combustível importado, no entanto, tem prazo para acabar. A INB assinou um contrato com a Eletronuclear, no qual se compromete a fornecer 100% do urânio que será usado pela usina de Angra 3, em construção no Rio, até o ano de 2022. "Temos um contrato para cumprir. Sabemos que o País tem muitas outras prioridades de investimento, mas esse acordo terá de ser atendido, em algum momento", afirma Senra.

A usina de Angra 3 está prevista para iniciar suas operações em junho de 2018. A obra, atualmente avaliada em R$ 13,9 bilhões, ampliará a capacidade do parque nuclear de 1.990 MW para 3.395 MW.

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