ANDRÉ LESSA/AE
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Rentabilidade real da poupança entra no negativo. E-Investidor aponta alternativas

‘País tem reputação muito ruim no meio ambiente’

Para executivo, retórica de Bolsonaro para setor pode levar fundos a reduzir volume de investimentos no Brasil

Entrevista com

Christopher Garman, diretor-geral para as Américas da consultoria Eurasia

Idiana Tomazelli e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - A questão ambiental é o principal risco para o Brasil em 2020, avalia Christopher Garman, diretor-geral para as Américas da Eurasia, uma das principais consultorias políticas do mundo. Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele afirma que a temática tem aparecido de forma recorrente em conversas com fundos de investimentos. Garman diz que iniciativas como o Conselho da Amazônia são insuficientes para melhorar a reputação do Brasil, uma vez que a retórica antiambiental do presidente Jair Bolsonaro é um fator de peso que pode inibir a entrada de novos investidores mais alinhados à preocupação com sustentabilidade. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como estão a imagem e a percepção do Brasil no exterior?

Quando a gente olha a pressão e a preocupação de investidores sobre temas ambientais, (a percepção) é que nos últimos seis, oito meses houve um aumento muito forte, não só para os fundos adequarem sua estratégias de investimento para incorporar riscos climáticos, mas igualmente para que sejam sensíveis à pressão de consumidores e da opinião pública para adotar um perfil de investimento sustentável. Isso é importante para o Brasil, que criou uma reputação muito ruim no meio ambiente com a retórica do presidente, de um lado, e o aumento do desmatamento na Amazônia, do outro.

Como seria essa repercussão econômica? 

Certos fundos de investimento, fundos de pensão, vão sofrer pressões de seus acionistas para não alocar mais recursos em um país que não tem boa reputação e credenciais ambientais. Você também pode ter alguns produtos brasileiros sofrendo boicote de consumidores na Europa e nos EUA. Se você é uma empresa multinacional e quer alocar mais dinheiro em investimentos no País, talvez sofra pressões dos seus acionistas. Já tivemos conversas com vários clientes especificando que isso é uma variável que pode evitar um aumento de exposição no Brasil.

O governo criou o Conselho da Amazônia e nomeou o vice-presidente Hamilton Mourão para comandá-lo. Isso não basta?

O governo está se mexendo e tomando medidas para tentar conter o desmatamento, não só pelo anúncio do conselho liderado pelo vice-presidente, mas também pela Força Nacional Ambiental. Mas o problema é que essas medidas não vão surtir efeito de ganho de credibilidade se o presidente da República continua a dar declarações atacando a mídia internacional, atacando lideranças como a Greta (Thunberg), contra a ‘indústria da multa’ do meio ambiente. Tem várias declarações polêmicas que o presidente faz, e isso gera as manchetes fora do País. As medidas que estão sendo feitas surtem pouco efeito reputacional se não estão acompanhadas de uma retórica consistente de compromisso com a agenda ambiental.

Isso pode provocar saída de investidores? 

Acho que é mais no lado de evitar novos investimentos e fluxos para o País. Mas pode comprometer a posição de alguns fundos, sim.

É possível quantificar quanto de investimento essa retórica do presidente coloca em risco? 

É difícil. A gente não tem esse cálculo. Mas estamos sentindo muito mais preocupação nesse lado. Acho que afeta mais no lado de inibir novos investimentos, menos do que retração de investimentos.

O ministro Paulo Guedes disse em Davos que o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. Houve críticas de que seria uma visão ultrapassada. O sr. concorda?

Foi uma declaração infeliz, e eu até diria que a repercussão da fala foi pior exatamente porque a credibilidade do governo brasileiro nesse tema está em baixa. A maneira como ele se expressou foi infeliz, que foi associada à crença do período militar que não considerava a preocupação com sustentabilidade ao defender o crescimento econômico a todo custo. Eu até acho que não reflete a visão do próprio ministro, mas a repercussão foi muito maior dado a credibilidade do País estar em baixa.

O sucesso da agenda de concessões e privatizações depende de um reposicionamento do Brasil em relação ao tema ambiental? 

Seria difícil chegar a tanto. Se a gente olha os ativos que podem ser colocados à venda, e tem ativos dentro da Petrobrás, do Banco do Brasil, e também toda a agenda de concessões, tem empresas que querem ‘bidar’ (dar lances) nesses ativos que não são tão restritas. Acham que os ativos são valiosos o suficiente para atrair esses investimentos. É muito difícil mensurar o tamanho do custo, não acho que venha a minar essa agenda, mas pode dificultar, sim.

 

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