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Países adotam ''alianças múltiplas''

O jogo diplomático vai impor parcerias, em vez de alinhamentos

Denise Chrispim Marin e Rui Nogueira, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

28 de março de 2009 | 00h00

O encontro dos líderes do G-20, em Londres, não será palco de briga de blocos. Cada país vem traçando, ao longo dos últimos seis meses, alianças múltiplas para melhor servir seus interesses. É por isso que, apesar das juras de amor e promessas de colaboração com os EUA, feitas pelo presidente Lula no encontro com Barack Obama, o governo brasileiro chega à cúpula com múltiplos aliados. G-20: veja o perfil econômico e impacto da crise nos países do grupoExperiente nesse tipo de "baile", o Brasil dançará no ritmo americano, quando se tratar da reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird), mas fará coro com a União Europeia (UE)em favor da regulação global do setor financeiro e poderá se articular com a China para as discussões, no futuro, da criação de uma moeda universal para substituir o padrão dólar.Na diplomacia, esse engajamento parcial de um país com outro, para atender a interesses específicos, costuma receber nomes mais engomados. São as "geometrias variáveis". Como explicou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a dinâmica do G-20 é completamente diferente das negociações comerciais, onde prevalece um jogo no qual é preciso ceder em um campo para ganhar no outro.Nessas barganhas, quanto maior o número de aliados reunidos por um país, maior a tendência de ceder pouco para obter o que deseja. O Brasil aplicou essa teoria nas negociações agrícolas da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC).Esse modelo está descartado nos debates sobre como superar a crise financeira e recuperar a economia mundial, que se darão em Londres. A mecânica será mais parecida com a das negociações nas Nações Unidas (ONU). Do ponto de vista de Amorim, o desafio do Brasil será evitar que os emergentes sejam obrigados a dar a mesma contribuição dos países desenvolvidos - os causadores da crise. Em especial, quando estiverem em discussão os novos aportes, de US$ 500 bilhões a US$ 750 bilhões, ao FMI. "Estamos todos no mesmo barco. Mas alguns têm cota de responsabilidade pela crise. O objetivo será definir quais medidas serão necessárias para chegarmos a um porto seguro, se elas vão ser aplicadas a todos e se haverá doses diferenciadas", afirmou Amorim ao Estado. "Haverá parcerias no G-20, mas não alinhamentos", resumiu outro colaborador do presidente Lula.Na véspera da reunião do G-20, Lula desembarcará em Paris para um encontro pedido por Nicolas Sarkozy, presidente da França. A coordenação de posições Brasil-França nos debates do G-20 havia sido anunciada por ambos ao fim da reunião bilateral de dezembro, no Rio. A mesma coordenação de posições prometida por Lula a Obama, duas semanas atrás, em Washington.Com França e Reino Unido, o Brasil trabalha com entusiasmo na proposta de criação de um mecanismo internacional de controle dos mercados e instituições financeiras. Mas não se alia à pressão francesa para que os EUA estatizem de vez os bancos mais intoxicados pela crise do "subprime". O Reino Unido mostra-se parceiro mais consistente que a França no debate sobre a retomada das negociações de Doha. Os EUA são adversários do Brasil nos dois temas. FRASESCelso AmorimMinistro das Relações Exteriores"Estamos todos no mesmo barco. Mas alguns têm cota de responsabilidade pela crise. O objetivo será definir quais medidas serão necessárias para chegarmos a um porto seguro, se elas vão ser aplicadas a todos e se haverá doses diferenciadas""Nesse meio-tempo, o sinal que essas negociações darão em favor do livre comércio e da retomada do intercâmbio será precioso para estancar o protecionismo e o aumento dos subsídios"AGENDA DO ENCONTROA pauta da crise: problemas, soluções e embates para a cúpula de Londres FMI e Banco Mundial - A proposta de reforma das duas instituições (Fundo e Bird), com a ampliação do poder de voto dos emergentes Brasil, China e Índia, já obteve consenso entre os ministros. Os líderes devem agora tratar da capacidade de essas instituições emprestarem mais e com maior flexibilidade para remediar e prevenir futuras crises. Está em debate, também, a criação de um sistema de alerta contra turbulências financeiras. SOS Financeiro - A injeção emergencial de mais recursos no FMI também está decidida. Falta definir se alcançará US$ 500 bilhões ou US$ 750 bilhões. Boa parte dos recursos deve ser orientada para empréstimos a países em elevado grau de insolvência e em risco de instabilidade política e social, como os do Leste Europeu. Regulação e Supervisão - Principal embate na cúpula do G-20. A União Europeia (UE) lidera o bloco em favor da imposição de regras mais duras de controle e supervisão do sistema financeiro mundial e suas instituições. O Fórum de Estabilidade Financeira, com sede na Basileia, seria encarregado de fazer exames periódicos nas políticas macroeconômicas e financeiras dos países. Os EUA são contra uma receita de regulação global e preferem que cada país adote, individualmente, medidas nessa linha. Socorro ao Comércio - Será apresentada uma proposta britânica de criação de um fundo de US$ 100 bilhões para o financiamento do comércio exterior. A OMC prevê recuo de 9% no intercâmbio mundial de bens neste ano por conta da redução da demanda e da escassez de linhas de crédito. O G-20 já identificou uma queda no fluxo de crédito dos ricos para os emergentes de US$ 800 bilhões ao ano, até 2007, para US$ 160 bilhões, em 2008. Protecionismo - Outro imbróglio para o G-20. A UE lidera os parceiros do G-20 em favor da retomada da Rodada Doha e nas pressões sobre os países que adotaram medidas protecionistas em seus pacotes de combate à crise, como os EUA.O governo britânico vai propor que esses países passem pelo constrangimento internacional de serem apontados como protecionistas.Os EUA tendem a resistir. Socorro a emergente - O Banco Mundial (Bird) propôs ao G-20 que os países mais ricos direcionem 0,7% dos recursos de seus pacotes de ajuda ao setor financeiro para o socorro de economias em desenvolvimento (emergentes) mais vulneráveis à crise. Não há consenso entre os desenvolvidos sobre o tema.

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