Países da Ásia entram na rota dos CEOs

Executivos de grandes empresas visitam cada vez mais a região, que já responde por boa parte do lucro das companhias

Bettina Wassener, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2010 | 00h00

Muitas empresas ocidentais têm operado fábricas com operários na Ásia há muito tempo. Mas agora, como a região cresce em importância, os mais altos executivos de algumas dessas empresas têm passado aqui mais tempo do que nunca.

O CEO da gigante alemã Henkel, Kasper Rorsted, acaba de passar quase seis semanas trabalhando na Ásia, um período fora da sede anormalmente longo para um executivo. "Dessa forma é possível ter uma boa ideia do que está ocorrendo na região", diz Rorsted. Sua viagem englobou nove países e envolveu cerca de 100 reuniões.

A visita dele é um reflexo do papel crítico que a Ásia desempenha atualmente para muitos países ocidentais. A Henkel obtém 14% das suas vendas e 20% dos seus lucros na região da costa asiática do Pacífico. Cerca de 18% de seus 48.133 funcionários estão na região, e Rorsted espera que um terço deles esteja localizado lá em poucos anos.

Enquanto outras partes do mundo lutam para recuperar o impulso depois da turbulência dos últimos anos, a maior parte da região da costa asiática do Pacífico - excluído o Japão - desfruta de rápida expansão econômica. As populações de países asiáticos em desenvolvimento estão crescendo e se tornando mais ricas e mais instruídas.

Como resultado, a região tem se tornado não só um destino importante para os produtos fabricados no Ocidente, como também uma fonte cada vez mais expressiva de desenvolvimento de produtos e de parcerias locais de negócios.

Na Cisco Systems, maior fabricantes de equipamentos de comunicação de dados do mundo, o que começou como um centro de pesquisa e desenvolvimento na cidade indiana de Bangalore tem agora o status de segunda sede. Desde 2007, muitos gerentes do alto escalão da empresa foram transferidos de San Jose, na Califórnia, para Bangalore, enquanto a Cisco buscava se posicionar melhor para se valer das imensas mudanças que ocorrem nos países emergentes da Ásia. A companhia não divulga a distribuição de seu lucro por região.

Também em 2007, a empresa holandesa de software Irdeto dividiu sua sede entre Amsterdã e Pequim. O diretor executivo Graham Kill se mudou para a China, e as funções de desenvolvimento e a área administrativa da empresa estão agora em ambas as cidades.

Tendência. A tendência de altos executivos gastando mais horas na Ásia ainda está em seus estágios iniciais. Mas essas medidas vão muito além do outsourcing, e seu objetivo é muito mais do que reforçar os escalões inferiores da força de trabalho de uma empresa com contratações em Hong Kong, Cingapura e Xangai.

"Não se trata de custos e mão de obra barata. A questão é como podemos ter acesso a talentos, ao crescimento e à inovação, e como podemos ter acesso a novos parceiros", diz Wim Elfrink, diretor executivo de globalização da Cisco.

As empresas também estão realizando reuniões com frequência crescente na Ásia. Este mês, o banco suíço Julius Baer realizou uma reunião do conselho em Cingapura pela primeira vez. Um dos membros do conselho executivo do Julius Baer mudou-se para Cingapura no ano passado, e seu diretor executivo planeja passar um mês por ano na cidade a partir de 2011, além de fazer visitas frequentes e mais curtas.

Os resultados já têm sido colhidos pelas empresas. Segundo Kill, a estrutura de sede dupla da Irdeto melhorou significativamente a produtividade e a comunicação interna e tem sido fundamental na obtenção de contratos e no aumento da fidelidade do cliente.

"Quando eu estava na Califórnia, temas relacionados à Ásia estavam na posição oito ou nove na minha lista de prioridades. Agora, eles estão no topo da minha lista, e posso ajudar a colocá-los até a lista de prioridades da empresa", diz Elfrink, da Cisco. "Acho que estamos vendo o começo de uma fase completamente nova da globalização." Para Elfrink, depois de mudanças no comércio, na fabricação e na pesquisa e desenvolvimento, a próxima fase da globalização será a descentralização das funções da sede.

Rorsted, da Henkel, que planeja passar várias semanas na Ásia no ano que vem, reconhece que as videoconferências e os telefonemas podem ajudar muito. "Mas é impossível usar a tecnologia para substituir a presença e o contato pessoal", acredita. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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