Países do Bric cobram mais poder nas instituições internacionais

Brasil, Rússia, China e Índia decidem atuar de forma coordenada na reforma do sistema financeiro mundial

Andrei Netto, ECATERIMBURGO, RÚSSIA, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2009 | 00h00

As quatro maiores economias emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China (os Brics), vão atuar de forma coordenada na reforma do sistema financeiro e exigem mais poderes para os países em desenvolvimento nas instituições financeiras internacionais e na Organização das Nações Unidas (ONU). A decisão foi tomada na noite de ontem, ao término da primeira cúpula dos Brics, em Ecaterimburgo, na Rússia. O objetivo da estratégia é reforçar a posição dos quatro países, em especial para a próxima reunião do G-20 (grupo dos 20 países mais industrializados), marcada para Pittsburgh, nos Estados Unidos, em setembro. Antes, será aplicada no encontro dos sete países mais ricos e a Rússia (G-8), no mês que vem, na Itália.O anúncio da cooperação foi formalizado na declaração oficial do evento e reafirmado em entrevistas dos líderes políticos do bloco. O texto, com 16 itens, é conclusivo sobre as pretensões dos Brics em relação aos parceiros industrializados. "As economias emergentes e em desenvolvimento devem ter mais voz e representação nas instituições financeiras internacionais e seus líderes e diretores devem ser designados por meio de processos seletivos abertos, transparentes e baseados no mérito." Nos demais tópicos, os Brics pedem uma arquitetura econômica amparada na democracia, em bases sólidas e reguladas e clamam pela reabertura das negociações da Rodada Doha. Pedem, ainda, apoio aos países pobres e o suporte às energias renováveis. Em declaração anexa sobre segurança alimentar, os Brics defenderam a transferência de tecnologia para a produção de biocombustíveis e o desenvolvimento técnico da produção agrícola. A ênfase, contudo, foi voltada para a cooperação para a reforma do sistema financeiro. O documento, porém, deixou de fora duas importantes iniciativas de Moscou: um papel menor para o dólar e uma moeda supranacional como reserva de valor . Ao término do evento, o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, explicitou a intenção de organizar uma estratégia comum. "Vamos coordenar o nosso trabalho e discutir os parâmetros de uma nova arquitetura financeira", afirmou o chefe de Estado.Segundo Medvedev, os presidentes dos bancos centrais e os ministros de Finanças, de Energia e de Agricultura dos quatro países farão encontros periódicos para organizar as estratégias comuns. E, em 2010, uma nova cúpula deverá ser realizada no Brasil. "Vamos incumbir os presidentes de bancos centrais e os ministros de Finanças de prepararem ideias e sugestões vitais para elevar a cooperação ao nível mais alto."Horas antes, em encontro com Medvedev, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma declaração no mesmo tom. "Esta crise exige um pouco mais de ousadia para que discutamos o papel das organizações internacionais e dos Brics." Lula ainda pediu mais interação e mais reuniões entre Brasil e Rússia. O presidente afirmou, com a aprovação do colega russo, que a crise atual "recupera o papel do Estado".Encerrado o evento, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, deu mais detalhes sobre a cúpula, que também teve a participação do presidente da China, Hu Jintao, e do primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh."Os Brics poderão agir de forma conjunta, sobretudo em termos financeiros", ratificou Amorim. "Não significa que em tudo vamos ter posições comuns. Mas em reuniões do G-20, em encontros sobre temas econômicos e financeiros certamente haverá um esforço para continuar e aprofundar o esforço feito hoje."Analistas afirmam que a semelhança entre os quatro países do Bric praticamente se resume ao robusto crescimento econômico dos últimos anos. Suas posições políticas e prioridades globais diferem muito e diplomatas se perguntam se o fórum poderia impulsionar posições fortes e unidas.FRAQUEZAA cúpula dos Brics também confirmou a preocupação crescente dos emergentes em traduzir sua força econômica em influência política, lançando-se como contrapeso às posições dos sete países mais ricos. Amorim afirmou que o presidente Lula manifestou aos colegas preocupação com o suposto esvaziamento do G-20. Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, discordara de Amorim ao dizer que o "G-8 não morreu", que a cooperação é crescente e "o G-5 será um parceiro integral do G-8". Mas demonstrou sintonia sobre a falta de força dos emergentes entre as maiores economias. COM REUTERS

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