Felipe Rau|Estadão
Felipe Rau|Estadão

Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

Países emergentes parecem condenados a ter baixa produtividade

Grupo de nações mais pobres ficam para trás dos ricos por mais tempo do que se esperava

The Economist, O Estado de S. Paulo

19 de janeiro de 2020 | 05h00

Como as inovações do mundo moderno se comparam às do passado? Alguns economistas, como Robert Gordon, da Universidade Northwestern, argumentam que carros sem motorista, impressoras 3D, entre outros, ficam insignificantes em comparação aos frutos das revoluções industriais anteriores, tal como a produção em massa. Isso, segundo acreditam, explica a prolongada desaceleração da produtividade nos Estados Unidos e em outras economias ricas que a crise financeira aprofundou.

Mas e em todos os outros lugares? Os países em desenvolvimento estão, por definição, a alguma distância da fronteira tecnológica. Um consolo é o vasto estoque de inovações anteriores que ainda restam para serem exploradas mais plenamente. Seu crescimento depende mais da imitação do que da inovação. Um país onde a maioria das pessoas ainda anda de scooter não precisa se preocupar se o próximo Tesla não chegar dentro do prazo.

Ainda assim, eles também sofreram queda na produtividade. De acordo com um novo relatório do Banco Mundial, a desaceleração é a “mais acentuada, mais longa e mais ampla até o momento”, com base em dados que remontam quatro décadas. O PIB per capita das economias em desenvolvimento é quase 14% menor do que teria sido se a produtividade não tivesse perdido o impulso.

O Institute of International Finance acredita que os mercados emergentes agora sofrem com uma variante da “estagnação secular” que assombra o mundo rico. A consultoria Oxford Economics argumenta que os mercados emergentes perderam tanto volatilidade como vigor, relegando-os à “estabilidade de base”.

A Capital Economics, outra consultoria, prevê que, na próxima década, “o avanço da retomada dos mercados emergentes das últimas duas décadas chegará ao fim”. Na maioria desses mercados, que a consultoria acompanha, o PIB per capita cresceu menos rapidamente no ano passado do que nos EUA. Supõe-se que imitar seja mais fácil do que inovar. Mas mesmo que as principais economias estejam achando mais difícil abrir caminho pela força do trabalho, muitos de seus seguidores se perderam completamente.

Como isso aconteceu? Quando olham para o mundo rico, alguns economistas temem que as grandes empresas estejam em uma posição confortável demais. Sem forte concorrência, elas têm pouco incentivo para inovar ou investir. Mas quando olham para o mundo pobre, alguns receiam que as grandes empresas agora tenham dificuldades demais.

Em uma pesquisa com mais de 15 mil empresas, o Banco Mundial mostra que grandes empresas em países pobres tendem a ser mais produtivas e propensas a exportar do que suas concorrentes menores. No passado, essas empresas eram importantes canais para melhorar o know-how e as tecnologias adquiridas de parceiros e concorrentes no exterior e repassados a fornecedores em casa. Mas as “rotas para a transferência de tecnologia estão se estreitando”, ressalta o banco, por conta do crescente protecionismo.

A falta de transferência de tecnologia é apenas parte do problema. Metade da desaceleração do crescimento da produtividade do trabalho nos últimos anos reflete não um fracasso em aprender com exemplos, mas em investir. Esse déficit de investimentos explica toda a desaceleração da produtividade no sul da Ásia, no Oriente Médio e no norte da África, e dois terços disso na Europa e na Ásia Central. 

A relutância em mobilizar capital foi combinada com a lentidão do trabalho em mudar. Em qualquer país, algumas partes da economia (como manufatura) são mais produtivas que outras (como agricultura). Mas essa lacuna é extraordinariamente grande nos países em desenvolvimento, onde o moderno e o medieval em geral coexistem.

Em princípio, portanto, as economias emergentes têm muito a ganhar com a mudança de trabalhadores entre setores, mesmo se a produtividade de cada setor não melhorar. No típico país em desenvolvimento, esse movimento contribuiu com cerca de 1,1 ponto porcentual para o crescimento nos anos anteriores à crise financeira global. Essa contribuição caiu para apenas 0,5 ponto nos anos mais recentes. Na América Latina e no Oriente Médio, a contribuição foi negativa: os trabalhadores seguiram o caminho errado, para onde eram menos produtivos.

Boom 

Talvez a explicação mais simples para o fracasso da produtividade esteja no boom que a precedeu. Durante cinco anos extraordinários, enfatizados pela crise financeira global, a China teve um crescimento excepcional que atraiu os exportadores de commodities. Esse sucesso deixou o país com menos espaço para crescimento adicional, contribuindo para sua inevitável desaceleração. Seu crescimento ainda se tornou menos concentrado em commodities.

A mudança no ritmo e no padrão de crescimento da China se tornou um desastre para as muitas economias em desenvolvimento que exportam commodities, especialmente na América Latina e no Oriente Médio. O aumento da produtividade dessas economias entrou em colapso. 

Em publicação do Banco Mundial, há 25 anos, Lant Pritchett, agora na Universidade de Oxford, enfatizou que o avanço da recuperação era historicamente bastante raro. Sim, a imitação deveria ser mais fácil do que a inovação (e os retornos sobre o investimento devem ser elevados onde o capital é escasso). Mas outros fatores frequentemente atrapalham.

Afinal, se os países pobres crescessem com segurança mais rapidamente do que os ricos, não haveria tantos países pobres por aí. A “característica dominante” da história econômica moderna não era a convergência entre países ricos e pobres, escreveu Pritchett, mas a “divergência, para valer”.

A década passada, apesar de todas as suas decepções, resistiu a essa tendência histórica, ainda que menos impressionante do que na anterior. Para as economias emergentes, a década de 2010 foi decepcionante. Mas ela ainda era a segunda melhor década dos últimos 50 anos. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

© 2020 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.