Países ricos em apuros?

No 1º tri de 2018, o resultado do PIB de muitos países desenvolvidos ficou abaixo do que os analistas esperavam

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2018 | 04h00

O crescimento sincronizado da economia mundial foi o principal tema de 2017, contribuindo, por exemplo, para altas recordes de várias bolsas de valores. O otimismo foi particularmente maior em relação aos países ricos, como os da zona do euro, os Estados Unidos e o Japão. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia mundial cresceu 3,8% em 2017, com mais de 120 países registrando expansão do Produto Interno Bruto (PIB), resultando no mais amplo e sincronizado crescimento mundial desde 2010.

Mas, no primeiro trimestre deste ano, o resultado do PIB de muitos países desenvolvidos ficou surpreendentemente abaixo do que os analistas esperavam. Entre investidores, as dúvidas aumentaram. 

Haverá agora desaceleração sincronizada das economias mais avançadas em 2018 ou a decepção do PIB no primeiro trimestre foi apenas um tropeço e o crescimento ainda robusto segue nos trilhos? A recente alta nos preços do petróleo pode pesar sobre a economia mundial? E a crescente tensão comercial entre Estados Unidos e China pode afetar a confiança de empresários, moderando os investimentos?

Nesta terça-feira, 08, no final do pregão, o barril do petróleo Brent chegou a US$ 74,85, acumulando alta de 14% neste ano.

Só para lembrar: no primeiro trimestre deste ano, o PIB da zona do euro cresceu 0,4% sobre o trimestre anterior, após ter crescido a um ritmo de 0,7% nos quatro trimestres de 2017.

Nos Estados Unidos, o crescimento do primeiro trimestre foi de 2,3%, na taxa anualizada, acima da expansão de 1,8% que os analistas esperavam, mas os gastos dos consumidores – importante motor da economia americana – aumentaram apenas 1,1% no período, menor ritmo desde 2013.

No Japão, após alta anualizada de 1,6% do PIB no quarto trimestre de 2017, há analistas que projetam um crescimento de apenas 0,2% no primeiro trimestre deste ano, cujo resultado será divulgado na próxima semana. No Reino Unido, a economia cresceu apenas 0,1% entre janeiro e março, quando os analistas previam uma expansão de 0,3% sobre o trimestre anterior.

“A recente alta dos preços do petróleo, refletindo o aumento da tensão geopolítica no Oriente Médio e a maior restrição potencial de oferta da commodity, pode se traduzir em aceleração adicional da inflação e consequente redução do consumo privado em alguns países desenvolvidos”, afirmam os economistas do Bradesco, em nota a clientes.

Para os analistas do Bradesco, essa é uma preocupação importante em países mais avançados no ciclo econômico, especialmente nos EUA e, em menor intensidade, na Europa. “Esse conjunto de fatores torna o cenário global mais desafiador. E, com a intensificação dessas questões de meados de abril em diante, colocamos viés de baixa para nossa estimativa de crescimento de 3,8% da economia mundial para 2018”, alertam os economistas do Bradesco.

Muitos analistas internacionais dizem que o PIB decepcionante do primeiro trimestre nas economias mais avançadas foi reflexo de fatores temporários, como greve na França, epidemia de gripe na Alemanha e clima adverso e mais severo de inverno no Reino Unido e no Japão. 

“As pesquisas apontando forte sentimento do empresariado e os bons fundamentos recentes sugerem que o crescimento econômico vai ser retomado nos próximos meses”, diz o economista-chefe global da consultoria inglesa Capital Economics, Andrew Kenningham. Segundo ele, os índices de gerente de compras do setor industrial em abril das economias mais avançadas apontam para um crescimento ao redor de 3%.

Kenningham ressalta que, com o aperto monetário em curso pelo Federal Reserve (Fed) – muitos analistas apostam num total de quatro altas de juros em 2018 e outras quatro em 2019 –, a economia americana começará a contrair significativamente ao fim do ano que vem.

Até lá, os efeitos positivos sobre a atividade econômica do pacote fiscal, incluindo corte de impostos, do presidente Donald Trump terão se dissipado, segundo Kenningham. Neste ano, esse pacote deve acrescentar 0,8 ponto porcentual ao PIB americano, cujo crescimento é estimado em 2,8%.

Na China, a expectativa é de uma expansão um pouco acima de 6,5% neste ano, ficando abaixo dos 6,9% em 2017, mas em ritmo robusto suficiente para não tirar a economia global dos trilhos. Ou seja, um decente crescimento do PIB mundial neste ano segue no radar dos investidores, mas esse otimismo já foi maior.

COLUNISTA DO BROADCAST 

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