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Países ricos resistiram à consolidação do G-20

Membros do G-8 não desejavam dar mais espaço aos emergentes na discussão dos assuntos globais

GENEBRA, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h16

Se hoje o G-20, grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo, é uma realidade, sua criação foi bastante questionada, nos bastidores, pelos países ricos nas semanas que se seguiram à quebra do Lehman Brothers. Em reuniões, lideranças desses países declaravam que não iriam aceitar o fim do G-8 ou a transferência de poder aos países emergentes.

Num encontro entre as cúpulas financeiras do Canadá e dos Estados Unidos, no dia 28 de novembro de 2008, o presidente do BC canadense, Mark Carney, deixou claro que seu país estava satisfeito com os resultados da primeira cúpula do G-20, realizada em Washington naquele mês, principalmente com o fato de que as instituições de Bretton Woods não foram "redesenhadas", como pediam países emergentes.

Ainda assim, segundo documentos obtidos pelo Estado com o grupo WikiLeaks, Carney gostaria que mais atenção fosse dada a ações mais imediatas de governos e gostaria que o encontro tivesse tido um impacto mais real nos mercados financeiros. Em contraste, segundo Carney, o encontro de ministros de Finanças realizado no Brasil teria sido uma "decepção" típica do G-20, "com posturas e pedidos de adolescentes das maiores economias emergentes".

A resistência em aceitar um número maior de líderes na gestão da economia mundial também veio da Europa, continente que, em público, sempre defendeu o multilateralismo. Num telegrama de 19 de novembro de 2008, a diplomacia americana relata um encontro com a responsável por temas comerciais na UE, Elisabetta Capannelli, representante do comissário Joaquin Almunia.

Segundo ela, a UE continuava "a ter preocupações sobre se a configuração do G-20 é apropriada para esse trabalho durante o longo prazo". Elisabetta indicou que o Brasil tinha adotado um "bom papel". Mas alertou que a China expressou uma "oposição vocal" a alguns dos interesses de países ricos, o que acabou "aguando a declaração final". De acordo com ela, o primeiro G-20 mostrou uma Índia e uma Argentina "quietas", enquanto a Arábia Saudita "não somou realmente nada".

O espaço dado aos emergentes já era motivo de desacordo antes mesmo do evento. Dias antes do primeiro encontro do G-20, Carlo Baldocci, conselheiro diplomático do ministro de Finanças da Itália, Giulio Tremonti, indicou que o governo italiano não via no G-20 "o fórum mais adequado para a continuação da colaboração e coordenação" internacional.

Em relação ao Brasil, os americanos começavam a considerar que o País poderia ter um papel mais relevante no cenário diplomático global. Num telegrama de 21 de outubro de 2008, diplomatas americanos avaliavam os resultados da reunião de cúpula do Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) que havia ocorrido no dia 15 de outubro em Nova Délhi. Como conclusão, Washington estimava que "talvez esses países" pudessem "ter um papel mais construtivo na cúpula global que está sendo planejada (G-20)".

Mas considerar o Brasil como uma voz ativa na gestão da crise internacional atenderia uma lógica que, para os americanos, ia muito além de resolver problemas de bancos. Num documento de 29 de outubro de 2008, a embaixada americana em Brasília sugeria ao Departamento de Estado que passasse a tratar o Brasil "mais como um Japão ou uma França". Ou seja: "um parceiro que pode ser frustrante e que nem sempre concorde conosco, mas que possamos trabalhar de forma construtiva com interesses comuns em algumas áreas e onde a cooperação pode existir."

"O Brasil ainda não é um Japão ou uma França. Mas engajar o Brasil de forma séria promoverá um fortalecimento do País nesse papel", indicou. "Seria um erro tratar o Brasil como um país de terceiro nível." / J.C.

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