Países ricos vão crescer 2,3% este ano, diz FMI

Fundo eleva previsão de crescimento global, mas alerta para aumento da dívida pública

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2010 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL

WASHINGTON

As economias do mundo rico encolheram 3,2% no ano passado e crescerão 2,3% em 2010. O desemprego aumentará para 8,4% e só no próximo ano voltará ao nível de 2009, de 8%.

Essas são as novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). Apesar desse fraco desempenho, o principal desafio para os países desenvolvidos será "obviamente a consolidação fiscal", disse ontem o economista-chefe da instituição, Olivier Blanchard. Há um ano, lembrou, o risco era um colapso na demanda privada e uma nova Grande Depressão. Por isso, a prioridade era criar programas de estímulo fiscal e evitar a catástrofe. "Isso nós fizemos."

Um ano depois, a perda de receita ameaça levar a uma explosão da dívida pública, advertiu.

Apesar de tudo, a recuperação global é melhor que a esperada, segundo Blanchard. A projeção de crescimento passou de 3,9% em janeiro para 4,2% neste ano. Para 2011, foi estimada uma expansão de 4,3%. As economias emergentes e as desenvolvidas avançarão, no entanto, em ritmos muito diferentes.

Países emergentes e em desenvolvimento deverão crescer 6,3% em 2010 e 6,5% em 2011, liderados pela China, com previsão de 10% este ano e de 9,9% no seguinte. Nos principais emergentes da Ásia, a produção já ultrapassa bastante os níveis anteriores à crise. O problema, em alguns desses países, é o ritmo excessivo da atividade. O banco central da China já tomou medidas para conter o ritmo dos empréstimos, por causa do superaquecimento de alguns mercados, como o imobiliário.

Nos países emergentes e em desenvolvimento, o crescimento rápido e os juros altos atraem grandes volumes de capital. O grande problema é encontrar os melhores meios de acomodar esse dinheiro, decidir quanta valorização cambial será admitida e como usar os instrumentos de política econômica para evitar excessos e manter a expansão econômica, disse Blanchard.

Menos estímulos. Para arrumar as contas, os governos do mundo rico terão de reduzir os estímulos. Haverá menor sustentação interna para o crescimento. Os emergentes poderão dar a solução, segundo Blanchard, estimulando o consumo, dando menor ênfase à exportação e importando mais dos países avançados. O recado vale principalmente para EUA e China, mas a troca de papéis poderá envolver também outros países.

Para compensar os efeitos do ajuste fiscal, "os países avançados, como um todo, poderão ter de desvalorizar suas moedas para aumentar as exportações líquidas", disse Blanchard. Em contrapartida, os países emergentes e em desenvolvimento, "também como um todo", deverão fazer o contrário: deixar valorizar as suas moedas e reduzir as exportações líquidas. Resta convencer esses países, "como um todo", a aceitar essa política.

Segundo o economista-chefe do FMI, "fazer isso é do interesse global desses países, porque esse ajuste pode ser necessário para sustentar o crescimento nos países avançados e, por consequência, um crescimento forte no resto do mundo".

No caso da China, a mudança das exportações para o mercado interno exigirá medidas estruturais para redução da poupança e valorização da moeda. Tudo isso, segundo Blanchard, "parece altamente desejável em si". O governo chinês talvez concorde, mas, até agora, insiste em fazer as mudanças, especialmente no câmbio, pelo seu ritmo.

PARA LEMBRAR

Em setembro de 2008, com a quebra do Lehman Brothers, o mundo mergulhou numa profunda crise financeira.

Os países foram obrigados a adotar medidas de estímulo à economia para voltar a crescer. Agora, a grande discussão é sobre que estratégia usar para retirar essas medidas.

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