Pajelança

Na semana passada, Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), pisou em ovos no seu depoimento no Congresso. Foi surpreendentemente mais pessimista do que o esperado a respeito do comportamento futuro da economia americana, mas não conseguiu avançar nenhuma providência a seu alcance que pudesse virar o jogo.

celso Ming, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Bernanke admitiu que, se não houver recuperação, o Fed terá de voltar a despejar recursos para ativar o crédito e o consumo e, assim, acionar a produção e a contratação de pessoal. Mas advertiu que não seria coisa para já.

O problema está no que fazer. Os grandes bancos centrais são hoje leões desdentados. Não conseguem mais pilotar seu quase único instrumento, a política monetária. Não conseguem retirar ou injetar dinheiro no mercado para combater a inflação e, no caso do Fed, para tentar reativar a economia.

Os juros básicos determinados pela política monetária estão ao redor de zero por cento ao ano. Não podem cair mais. O sistema já está abarrotado de recursos. Se o preço do dinheiro (os juros) se arrasta pelo chão, isso quer dizer que o dinheiro está tão abundante que seu valor é insignificante. Nessas condições, o que seria injetar mais recursos na economia?

Hoje os especialistas se empenham num debate sobre como enfrentar essa encrenca. Dinheiro sobrando e juros perto do zero por muito tempo tendem a produzir bolhas. Um dos principais causadores da crise financeira que estourou em 2008 foi a persistência, por longo período (de junho de 2003 a dezembro de 2004), de juros básicos ao redor de 1% ao ano. O Fed, então dirigido por Alan Greenspan, não via ameaça de inflação a combater e deixou a corda solta. Essa é a principal advertência que vem sendo feita pelos técnicos da OCDE e do BIS. Não se pode deixar os juros tão deprimidos por tanto tempo porque isso terá consequência, advertem.

Do outro lado, o FMI avisa que o problema central dos países ricos é o excesso de despesas e de dívidas públicas. Portanto, é preciso o tranco do ajuste fiscal para que se restabeleça a credibilidade. Na semana passada, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, em flagrante contraste com o que disse Bernanke, defendeu esse ponto de vista no Financial Times.

Mas, afinal, independentemente dessas divergências, como é que os grandes bancos centrais poderiam injetar mais recursos na economia? Em princípio, teriam de atuar ainda mais no varejo do crédito, que é a área dos bancos. O emperramento do sistema produtivo tem como uma de suas principais causas o bloqueio do crédito. E o crédito está bloqueado porque, numa crise de confiança, os bancos deixam de fazer empréstimos.

Se o banco central injetar mais dinheiro (afrouxamento quantitativo) ou estará comprando mais uma batelada de títulos do Tesouro ou estará comprando títulos de empresas privadas. É um mecanismo fora das regras e de eficiência duvidosa, uma vez que elege privilegiados. Além disso, tende a minar a credibilidade da instituição na medida em que é obrigado a incorporar ao balanço ativos de retorno duvidoso, como acontece na União Europeia, onde o BCE comprou títulos da Grécia, Espanha e Portugal, cujas dívidas estão sob risco de calote. Mas, quando a medicina já não funciona, quem é que vai condenar o doente que recorre à pajelança?

Contra e a favor

Quem se queixa da competição desleal da China no mercado americano são apenas os líderes sindicais e alguns analistas econômicos. As grandes empresas, que contam na tomada de decisões em Washington, estão satisfeitas com o que acontece na economia chinesa.

De vento em popa

Sexta-feira, o New York Times publicou matéria mostrando que a GM, que está capengando nos Estados Unidos, é enorme sucesso na China. Nada menos que um quarto de suas vendas globais é realizado lá.

As bases na China

As grandes empresas do mundo mantêm linhas de produção na China. Estão tirando proveito da mão de obra mais barata, das quase inexistentes pressões sindicais e dos impostos baixos. De quebra, são grandes exportadores (não é o caso da GM da China) para os Estados Unidos. Assim, quem compra um made in China muito possivelmente está comprando um produto de uma multinacional americana ou europeia.

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