Palocci diz que crise não muda economia e pede calma na CPI

O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, deu uma longa entrevista nesta quinta-feira após a reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) para tentar mostrar que a crise política não mudará os rumos da política econômica. Segundo ele, o presidente Lula já deixou claro que, se for necessário, pode aumentar o esforço fiscal para não deixar que a economia tenha qualquer "derrapagem". Palocci pediu que não haja julgamento precipitado nas investigações da CPI sobre o esquema de corrupção nas estatais.O ministro da Fazenda disse esperar que tenha com a nova ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, "o mesmo bom relacionamento que tinha com o ex-ministro José Dirceu". Palocci evitou falar sobre a saída do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, - "não posso julgar ninguém" -, mas elogiou a política de juros do BC, que, segundo ele, está conseguindo conter a inflação.Veja os principais pontos da entrevista:A CRISE POLÍTICA E O MÉDICO - "Problemas no campo político se resolvem no campo político. Problemas no campo econômico se resolvem no campo econômico", disse ao garantir que o governo não adotará medidas para conter a crise política. Para o ministro, o Brasil tem criado "um sistema imunológico, esquelético e de músculos que dá saúde para enfrentar todos os efeitos do meio ambiente". "Essa é a minha especialidade. Eu me formei em prevenção e não em cirurgia". O ministro afirmou que a posição do presidente Lula ajuda na blindagem da política econômica. Ele disse que a sociedade contestará qualquer governo que diga que controle dos gastos e da inflação não tenha importância. "Meu partido tem consciência disso e procura absorver esses ensinamentos que a sociedade vai dando".A CPI E AS BIOGRAFIAS - O ministro da Fazenda pediu que não haja julgamento precipitado nas investigações sobre corrupção. "Não podemos comprometer biografias de forma precipitada", afirmou, citando como exemplo o caso do diretor do Ibama, que foi preso sem provas. Ele disse que é preciso ter seriedade para que o processo traga transparência, investigação e punição. "As grandes democracias têm período de conflitos, mas são criados instrumentos para vencer as adversidades", disse. "O Brasil pode sair fortalecido da crise". Para Palocci, a crise precisa ser resolvida dentro de procedimentos éticos no campo das instituições. Ele destacou a atuação do STF, da Polícia Federal e do Ministério Público federal, além do Legislativo. "Temos um Legislativo vivo, polêmico, mas vivo". DILMA E DIRCEU - Palocci evitou comentar a crítica da nova ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, de que um superávit primário acima da meta de 4,25% do PIB é algo "desnecessário e constrangedor". "Eu só posso saudar a ministra", limitou-se a dizer. Segundo ele, Dilma Rousseff se comprometeu a cumprir o orçamento programado. O ministro da Fazenda disse que o modelo adotado elétrico adotado pela então ministra de Minas e Energia não é intervencionista. Ele acha uma injustiça com a ministra e com o ex-ministro José Dirceu tratá-los como críticos da política atual. "Na Casa Civil, ele (Dirceu) fez uma grande trincheira de apoio à política econômica". Segundo Palocci, quando setores têm ângulos diferentes, isso não significa dizer que existe uma divergência. O FUTURO DE MEIRELLES - O ministro da Fazenda se esquivou de dizer qual será o destino do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na reforma ministerial que está sendo definida pelo presidente Lula. "Não posso comentar. Não é adequado. Não é justo. O presidente Lula terá todo o nosso apoio para fazer os ajustes necessários para se fazer um grande governo para o País, como já vem fazendo", disse. Ele afirmou que não está no governo para fazer julgamento das pessoas, mas para ser julgado. "Sou ministro, estou sempre em julgamento. Não posso julgar ninguém". Meirelles, embora tenha participado da reunião do CMN, não acompanhou Palocci na entrevista. Ele estava acompanhado do diretor de Política Econômica, Afonso Beviláqua, e do secretário-executivo do Ministério, Murillo Portugal - coincidentemente, os dois principais cotados para dirigir o BC. Antonio Palocci elogiou mais uma vez a condução da política monetária pelo Banco Central. "Os dados recentes de inflação não me autorizam fazer previsões nem festividades, mas mostram que "a dose (dos juros) foi correta".DÉFICIT NOMINAL ZERO E ORÇAMENTO - Ele disse que o debate para uma meta de déficit nominal zero (conta dos gastos públicos que inclui o pagamento dos juros) só é possível no momento devido ao sucesso do modelo econômico. "Antes de 2002 e 2003, superávit nominal não estava na pauta do debate porque isso não era possível", disse. A reafirmação do compromisso do governo com a política atual foi o que tornou essa realidade possível. "Nesse caminho, é possível reduzir o déficit nominal e até zerá-lo. Mas não tratamos isso como meta". Quanto ao debate sobre o destino obrigatório de verbas do orçamento, disse que ele é importante para as áreas sociais, mas evitou entrar em detalhes. Atualmente, o governo tem apenas 20% das receitas da União para gastar livremente. A idéia proposta pelo ex-ministro da Fazenda Delfim Neto é elevar esse porcentual gradualmente até chegar a 40%.CRESCIMENTO E IMPOSTOS - O ministro da Fazenda disse "que o crescimento econômico não será ruim este ano e que não considera haver uma exaustão no modelo econômico do governo, mas sim que há sucesso". Segundo ele, o País passou por um período de acomodação, no primeiro trimestre do ano, mas que agora o governo está preparando o País para o futuro e não somente para o próximo ano, que é eleitoral. "As conquistas serão para muitos governos e para muitos anos futuros". Ele insistiu em que é compromisso do governo não elevar a carga tributária. Lembrou que o governo baixou, no mês passado, uma medida provisória que reduziu a zero o IPI incidente sobre máquinas e equipamentos, antecipando uma decisão anteriormente prevista para ser tomada apenas em dezembro de 2006. "Se a receita responder bem, vamos continuar devolvendo à sociedade a carga tributária".APERTO FISCAL O ministro da Fazenda afirmou que não vai alterar a meta fiscal deste ano. "Não medimos esta relação (dívida/PIB) mês a mês. Buscamos uma trajetória para trazer esta relação para níveis mais confortáveis. Não vamos responder de forma espasmódica à questão fiscal". Ele lembrou que recebe mais críticas pelo rigor do que por um comportamento mais frágil na questão fiscal. "Nossos compromissos fiscais são consistentes com nossos objetivos". Para o ministro, o estabelecimento de compromissos de longo prazo deram resultados positivos para a economia. "Quando dissemos que faríamos superávits mais altos até 2006 os resultados começaram a aparecer".FMI E A LAGAVEM DE DINHEIRO - Palocci disse que não leu o último relatório do FMI, que indica que o sistema financeiro e o sigilo bancário no Brasil são tão rigorosos que podem resultar na lavagem de dinheiro. Segundo o ministro, uma força tríplice, formada pelos ministérios da Fazenda, da Justiça, e da Controladoria Geral da União levou à transparência e adotou novos mecanismos de controle. A PREVIDÊNCIA E OS APOSENTADOS - O déficit da Previdência, segundo ele, não será reduzido da noite para o dia. O desafio é assegurar que a trajetória do déficit do INSS será revertida, passando de sucessivos aumentos para reduções. Os críticos do ajuste fiscal promovido pelo governo nessa área argumentam que adotar medidas de combate ao déficit previdenciário retira direito dos aposentados e reduz os benefícios. "Perseguir plano de metas é conquista extraordinária da economia brasileira e dos aposentados. O dia que a curva estiver para baixo, pode dizer aos aposentados que sua aposentadoria garantia".

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