Panamericano buscava 'doação eleitoral via cartão de crédito'

Rafael Palladino, ex-presidente do banco, trocou vários e-mail com Luiz Gushiken poucos meses antes das eleições

O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2011 | 03h03

A troca de e-mails que a Polícia Federal interceptou e agora analisa mostra que o ex-presidente do banco Panamericano Rafael Palladino correspondeu-se regularmente com o ex-ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República Luiz Gushiken poucos meses antes das eleições de 2010.

Um tema tratado entre eles era a autorização, por parte do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para que partidos políticos pudessem receber doações de campanha de empresas e outras entidades por meio de cartões de crédito. Pela legislação vigente, só pessoas físicas podiam usar esse meio de pagamento. No campo "assunto" dos e-mails, constava "doação eleitoral via cartão de crédito".

Na ocasião, o Grupo Silvio Santos era dono da Braspag, especializada no processamento de transações eletrônicas, como cartões de crédito e débito. Em maio deste ano, a Braspag foi vendida para a Cielo. Em 3 de julho de 2010, Gushiken questiona Palladino sobre a venda de cartões para uma igreja evangélica. O ex-ministro acha que está sendo "excluído das tratativas".

Em um e-mail de março de 2010 Palladino comenta com o executivo que dirigia a área de seguros do banco, Mauricio Bonafonte, que iria se encontrar com João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, naquela semana. "Sexta estarei com o Vaccari para acertar isto pra o PT arrecadar pelo cartão. Gostaria que fosse comigo para encaminhar depois pra Braspag."

"A Braspag queria vender um software que permitia receber doações por meio de cartão de crédito, como nos EUA", disse Vaccari. "Nós estudamos, mas a legislação não permitia que o partido recebesse doações assim, então a Braspag vendeu o sistema para o comitê eleitoral da Dilma (Rousseff)."

Em e-mail a Bonafonte, no mesmo dia, Palladino escreve: "Na moita, sem falar em PT nem em Gushiken, veja se conseguimos pela Braspag viabilizar este negócio pra captar recursos pro PT rapidinho. Se der, depois falamos com o PSDB".

No mesmo dia 8 de março, Palladino dá retorno ao ex-ministro. "Gushiken, conforme te falei, a Braspag, penso, conseguiria viabilizar isso bem rápido." O e-mail cita como o TSE tratava as doações por meio de cartão de crédito nas eleições de 2010.

Doação de campanha. O analista da PF levanta a hipótese de que o conteúdo revelaria "a capitalização de recursos para o PT através da empresa Braspag". Diferentemente do Panamericano, a Braspag tem capital fechado que não é regulada pelo governo. Essa é uma brecha na legislação que o caso Panamericano explicitou - operações fraudulentas foram feitas por meio da área de cartões. Segundo o TSE, nem Panamericano nem Braspag fizeram doações legais para a campanha eleitoral em 2010 - em nenhuma esfera. /F.M., D.F., L.M. e M.G.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.