Daniel Teixeira/Estadão - 8/4/2020
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Pandemia adia entrega de prédios de escritórios e galpões industriais em São Paulo

Segmentos em expansão antes do avanço da covid-19 agora enfrentam a incerteza no mercado de locação

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 15h02

O ritmo de lento de recuperação da economia nos dois primeiros meses do ano e o isolamento social provocado pela pandemia, que praticamente travou a economia a partir de março, provocaram o adiamento das entregas de escritórios de alto e médio padrão na capital paulista e de galpões industriais na região metropolitana de São Paulo.

No primeiro trimestre deste ano, nenhum metro quadrado de escritório de alto e médio padrão foi entregue, segundo levantamento da consultoria imobiliária Binswanger Brazil. O movimento se repetiu, porém com menor intensidade, nos galpões industriais. Nesse segmento, um terço das entregas do primeiro trimestre foi adiada.

Luisa Cleaver, coordenadora de inteligência de mercado da consultoria e responsável pela pesquisa, diz que essa freada no mercado pode não ficar nítida nos índices de imóveis vagos porque os volumes de entregas de novos espaços devem continuar caindo nos próximos meses.

“Senti a postergação de entregas de novos galpões”, confirma Ricardo Hirata, gerente de locações industriais da consultoria imobiliária JLL. Ele conta que, depois do início da pandemia, chegou a ouvir de um empreendedor que só iniciaria obra de um novo galpão quando tivesse a confirmação do contrato de locação.

A grande questão é saber qual será o comportamento do consumidor e da economia depois dessa crise. Antes da pandemia, o mercado de galpões vinha em franca expansão, puxado pelas locações do varejo online e empresas de logística. Em São Paulo, diz Luisa, o e-commerce foi o principal responsável por aumentar a participação na ocupação por empresas de varejo e internet no mercado imobiliário logístico, de 24% em 2016 para 28% em 2019.

No período pré-covid-19, também o mercado de escritórios de alto e médio padrão estava se recuperando, com redução da vacância e elevação de preços. “Em locações de lajes na (avenida) Faria Lima o aluguel chegou a mais R$ 200 por metro quadrado e a disponibilidade, que é o imóvel já comprometido para locação, estava na faixa de 5%”, conta o diretor de locação e venda da JLL, Paulo Casoni.

Nas duas primeiras semanas após o início da pandemia, nada aconteceu, diz Casoni. A partir da terceira semana, os ocupantes dos escritórios começaram a pedir a renegociação dos contratos, adiando o pagamento de parte dos aluguéis. “As empresas parecem que estão gostando do modelo de trabalho em home office e com certeza isso vai afetar a ocupação dos escritórios pós-covid."

Para o presidente da Binswanger Brazil, Nilton Molina Neto, essa é a primeira crise, em duas décadas, que vai provocar profundas mudanças no comportamento das pessoas tanto no trabalho como na forma de consumir. E isso deve levar a alterações importantes na ocupação dos espaços comerciais.

“Muitas pessoas começaram a fazer compras online e o e-commerce não voltará para o patamar anterior”, acredita o executivo. Segundo ele, as empresas estão vendo também que o home office funciona, que  não é só para empresas de TI (tecnologia da informação) e pode ser aplicado em várias áreas.

Apesar de a pandemia ter provocado profundas mudanças de comportamento, especialistas não se arriscam a fazer previsões sobre o futuro dos mercados de escritórios e galpões.

Hirata, da JLL, diz, por exemplo, que o valor dos aluguéis e a taxa de vacância dos galpões podem ser mantidos nos próximos meses, o que seria um resultado positivo em meio ao cenário de recessão da economia.

Ele justifica o seu raciocínio com base em duas hipóteses. Apesar de o avanço irreversível do comércio eletrônico, todos ficaram mais pobres, diz ele, e os produtos vendidos serão de menor valor. Logo, os varejistas online terão de cortar custos, inclusive o de locação. Outro ponto destacado pelo especialista é que, fora do varejo online, setores ocupantes desses galpões foram afetados pela crise e terão de reduzir despesas, entre elas a de aluguel.

No caso dos escritórios, Molina Neto frisa que ainda é cedo para falar de redução dos espaços corporativos. Ele acredita que deve ter uma readequação de parte dos funcionários para o trabalho em casa. Entretanto, pondera que, depois da pandemia, as regras de adensamento das pessoas nos escritórios devem mudar, com maior distanciamento. E isso pode não resultar numa redução dos espaços ocupados.

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