Werther Santana/Estadão - 8/2/2021
Aula em escola estadual de São Paulo no início de 2021; segundo a Unesco, o Brasil está entre os países que tiveram o maior período de suspensão das aulas presenciais durante a pandemia. Foto: Werther Santana/Estadão - 15/2/2021 Werther Santana/Estadão - 8/2/2021

Pandemia agravou desigualdades na educação, entre rede pública e privada e entre pobres e ricos

Além de terem tido menos aulas em 2020, alunos mais pobres enfrentaram dificuldades como falta de internet para estudarem a distância e até ausência de água e sabão nas escolas para higienizar as mãos

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2021 | 10h00

RIO - A pandemia de covid-19 teve um impacto profundo na educação do País, agravando ainda mais as desigualdades já existentes entre a rede pública e a privada e entre os alunos pobres e ricos, segundo os dados da Síntese dos Indicadores Sociais (SIS) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 3.

Além de terem tido muito menos aulas (presenciais ou remotas) durante a pandemia, os alunos mais pobres ainda enfrentaram as mais diversas dificuldades estruturais - que foram desde a falta de internet e computadores para estudarem a distância até a ausência de água e sabão nas escolas para higienizar as mãos. Segundo o IBGE, a pandemia representou a maior adversidade já enfrentada pelo ensino básico brasileiro.

“A pandemia foi uma catástrofe para a educação básica”, resumiu a pesquisadora Betina Fresneda, analista de indicadores educacionais do IBGE. “Ela acentuou as desigualdades das redes de ensino, as profundas desigualdades regionais de um país continental, as dificuldades de implantação do ensino a distância.”

Segundo a Unesco, o Brasil está entre os países que tiveram o maior período de suspensão das aulas presenciais. Praticamente todas as escolas de educação básica (99,3%) suspenderam as atividades e 90,1% não retornaram no ano letivo de 2020, totalizando uma média de 279,4 dias sem aulas presenciais (sendo 287,5 na rede pública e 247,7 na rede privada).

“A pandemia representou não somente uma crise sanitária de proporções históricas, como resultou na maior adversidade já enfrentada pela educação básica brasileira no que diz respeito à garantia de acesso à escola de todas as crianças e adolescentes dos 4 aos 17 anos”, sustenta a análise do IBGE. “A situação é ainda mais desafiadora para a rede pública, que concentra 80% da oferta na educação infantil e no ensino fundamental e médio. As desigualdades históricas do País foram intensificadas, tanto por fatores internos do sistema de ensino, como sua capacidade de propor atividades alternativas, como externos em função das diferentes realidades de acesso a essas atividades por alunos com distintas características socioeconômicas.”

Pelo menos 10,8% dos alunos que não tiveram aulas presenciais também não receberam atividades escolares. O porcentual de estudantes de 6 a 17 anos da rede pública sem aulas presenciais e sem oferta de atividades pedagógicas foi quatro vezes maior na rede pública do que na privada. Menos da metade das escolas (42,6%) realizou aulas síncronas (ao vivo, com possibilidade de integração entre aluno e professor), sendo que a grande maioria (69,8%) eram da rede privada.

Pouco mais de um terço dos alunos (35,6%) de 15 a 17 anos dedicaram menos de duas horas por dia aos estudos. A incidência de menor dedicação aos estudos, mais uma vez, é maior entre os que frequentavam a rede pública (39,2%) e entre os que possuíam os menores rendimentos.

“O porcentual de alunos que não conseguiu estudar cinco dias por semana chegou a 35% entre os mais vulneráveis”, disse a pesquisadora. “A pandemia foi um desafio para todos, mas afetou profundamente os mais vulneráveis, principalmente por conta da exclusão digital.”

A presença simultânea de internet e computador em casa dos estudantes de 15 a 17 anos foi constatada em 54% dos lares, mas a divisão é extremamente desigual. Entre os alunos das escolas privadas, esse porcentual é de 90,5%; já entre os da rede pública não chega à metade (48,6%). Quando o recorte é feito por raça, mais uma camada de desigualdade surge. A grande maioria dos brancos (67,3%) tinha computador e internet, contra 46,8% dos pretos e pardos.

Mas não é só a exclusão digital que atrapalha. Um porcentual significativo de estudantes de todo o País têm dificuldade de acesso nas escolas a uma das mais básicas estruturas de higiene: uma pia em condições de uso (com água) e sabão. Dados de 2019 revelaram que enquanto praticamente todas as escolas privadas (98%) dispunham dos itens, o porcentual era de apenas 56,2% na rede pública. Ou seja, menos da metade dos alunos da rede pública conseguia lavar as mãos adequadamente dentro das escolas.

“Foi um ano muito difícil para a educação, em que as desigualdades se intensificaram”, resumiu a pesquisadora. “A pandemia pode gerar resultados negativos duradouros, se medidas muito eficazes não forem adotadas.” 

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Mesmo com auxílio emergencial, 1 em cada 4 brasileiros viveu abaixo da linha de pobreza em 2020

Ainda assim, o benefício evitou um agravamento da miséria no País; os 21 milhões de brasileiros mais pobres sobreviveram com R$ 128 mensais por pessoa da família, ou R$ 4,27 por dia, o maior valor já registrado na série histórica da Pnad Contínua, iniciada em 2012

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2021 | 10h00
Atualizado 03 de dezembro de 2021 | 18h17

RIO - Apesar da injeção bilionária de recursos extraordinários por meio do auxílio emergencial, praticamente um em cada quatro brasileiros ainda viveu abaixo da linha de pobreza no ano passado. O auxílio emergencial evitou, temporariamente, o agravamento da pobreza no País em 2020, em meio ao choque da covid-19, mas parece ter apenas anestesiado o problema. Com o vaivém do benefício do ano passado para este, a miséria espreita os brasileiros mais vulneráveis.

Sem os programas sociais, os 10% mais pobres da população teriam sobrevivido o ano passado com apenas R$ 13,00 por mês, ou R$ 0,43 por pessoa a cada dia. A conta – excluindo da composição do rendimento familiar os valores recebidos com o auxílio emergencial e com benefícios estaduais e municipais complementares – divulgada nesta sexta-feira, 3, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é hipotética, mas descreve as agruras de brasileiros que perderam a pouca renda que conseguiam levantar.

Com a economia estagnada desde o segundo trimestre, os dados mostram também a necessidade de continuidade das políticas de transferência de renda, enquanto o governo federal e o Congresso Nacional discutem a criação do Auxílio Brasil – para substituir o Bolsa Família – e a mudança nas regras fiscais para abrir espaço no Orçamento para ampliar os gastos em 2022.

Embora estude a desigualdade de renda no Brasil há anos, Marcelo Medeiros, professor visitante da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, se disse “chocado” com os cálculos do IBGE, que mostram que as “coisas são piores do que se podia imaginar”. “É preciso tomar medidas ativas pra reverter esse problema. Não basta ficar sentado esperando a economia se recuperar”, disse Medeiros, ressaltando que a economia não só está estagnada, como os movimentos de retomada econômica demoram a chegar aos mais pobres.

Com os benefícios governamentais, esse grupo de 21 milhões de brasileiros mais pobres sobreviveu em 2020 com R$ 128 mensais por pessoa da família, ou R$ 4,27 por dia, o maior valor já registrado na série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), iniciada em 2012. Embora ainda insuficiente para uma vida sem restrições básicas, o montante representa uma alta de 14,9% ante os R$ 111 mensais recebidos em 2019.

“Sem os benefícios, haveria uma queda de 8,4% no rendimento domiciliar, mas ela seria muito maior nos décimos inferiores da distribuição de renda”, afirmou João Hallak, gerente da Síntese dos Indicadores Sociais, do IBGE.

A injeção bilionária de recursos extraordinários fez o número de brasileiros abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial cair, em 2020, ao menor nível desde 2014. Ainda assim, praticamente um em cada quatro brasileiros (24,1% da população) viveu abaixo dessa linha no ano passado. São quase 51 milhões de pessoas vivendo com menos de R$ 450 por mês por pessoa. Não fossem os programas de transferências de renda, o contingente chegaria a quase um terço da população (32,1% do total). Em 2019, a proporção era de 25,9%.

Dentro desse grupo, mesmo com o pagamento do auxílio emergencial, 12,046 milhões de brasileiros, o equivalente a 5,7% da população, viveram abaixo da linha de miséria (rendimento médio mensal de R$ 155 por pessoa, no critério do Banco Mundial) no ano passado, o menor nível desde 2015. Sem os programas sociais, esse contingente seria mais do que o dobro: 27,313 milhões, ou 12,9% dos habitantes do País, ante 6,8% em 2019.

Na visão do professor Gilberto Tadeu Lima, pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da USP, ao longo da história, a economia brasileira se tornou uma “máquina” de geração de desigualdades. Com a pandemia, que atinge mais fortemente os trabalhadores menos qualificados, com menores salários e que raramente podem trabalhar de casa, essa máquina encontrou “um terreno fértil”. “Infelizmente, como está acontecendo agora com o novo auxílio em gestação, fundamental como remédio de curto prazo, a situação pouco suscita uma reflexão mais ampla a cerca da natureza e operação da nossa máquina de geração de desigualdades”, afirmou Lima.

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Pobreza é maior entre crianças, negros e moradores do Norte e do Nordeste

Levantamento do IBGE mostra que mais de 17 milhões de crianças e adolescentes até 14 anos viveram abaixo da linha de pobreza no País, o equivalente a 38,6% da população nessa faixa etária

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2021 | 10h00

RIO - Em 2020, as crianças foram, proporcionalmente, as maiores vítimas da escassez de recursos: mais de 17 milhões de crianças e adolescentes até 14 anos viveram abaixo da linha de pobreza no País, o equivalente a 38,6% da população nessa faixa etária. Nesse contingente, 3,9 milhões estavam em situação de miséria, ou 8,9% dos brasileiros dessa idade, segundo os dados da Síntese dos Indicadores Sociais (SIS) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 3.

Além dos mais jovens, a pobreza também atinge com mais força as pessoas de cor preta ou parda. Havia quase três vezes mais negros do que brancos entre as pessoas na extrema pobreza. Cerca de 8,8 milhões que estavam abaixo da linha de miséria são pretos ou pardos, quase 75% das pessoas nessa condição, ou seja, três a cada quatro dos que estavam nessa situação. Os brancos vivendo na miséria totalizavam cerca de 3,2 milhões. 

Entre os brasileiros abaixo da linha de pobreza, aproximadamente 36,8 milhões eram negros, também perto de três quartos do total, enquanto que os brancos somavam quase 13,6 milhões vivendo com esse tipo de restrição financeira.

As desigualdades regionais também chamam a atenção. A Região Nordeste concentrava quase metade das pessoas em situação de miséria, cerca de 6 milhões, e pouco mais de 45% dos brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza, cerca de 23,2 milhões. Considerando apenas a população local, quatro em cada dez nordestinos viviam na pobreza, e um em cada dez sobrevivia na miséria. Na Região Norte, 8,5% da população vivia em situação de miséria, enquanto o total de habitantes abaixo da linha de pobreza era de 36,8%.

As quatro unidades da federação com maiores porcentuais da população local vivendo em situação de extrema pobreza foram Amazonas (12,5%), Maranhão (14,4%), Pernambuco (11,8%) e Alagoas (11,8%). O Estado fora do eixo Norte-Nordeste com maior porcentual de miseráveis na população foi o Rio de Janeiro, onde 5,4% dos habitantes viviam na extrema pobreza e 20,7% abaixo da linha de pobreza.

Com menos renda no bolso da população, o consumo das famílias per capita encolheu 6,2% no ano de 2020 em relação a 2019, contribuindo para o recuo de 4,8% no Produto Interno Bruto (PIB) per capita no período. 

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Com covid-19, número de óbitos saltou 15% em 2020, após crescimento médio anual de 1,9% desde 2010

No ano passado a pandemia de coronavírus matou 209 mil pessoas no País mudando o padrão sobre causa de morte, aponta IBGE

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2021 | 10h00

RIO - No primeiro ano da pandemia de covid-19 no Brasil, em 2020, o País registrou um total de 1,6 milhão de óbitos - alta de 15% no número de mortes em relação ao ano anterior, 2019. Para se ter uma ideia do impacto da doença, de 2010 a 2019, o crescimento anual médio do número de óbitos no País foi de 1,9%. Os dados são da Síntese dos Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 3.

Em 2019, as doenças do aparelho circulatório corresponderam a 27% das mortes e as neoplasias, a 17,4%. O quadro foi diferente em 2020, sob o impacto da covid. Os dois índices ficaram em 22,8% e 14,7% respectivamente. E a segunda maior causa de mortalidade ficou com “doenças infecciosas e parasitárias”, que registraram 17% do total ou 264,7 mil óbitos. Em 2019 essas doenças representaram 3,6% do total. 

A discussão sobre causa de morte no ano de 2020 mostrou uma mudança de padrão, tendo em vista a pandemia que vitimou 209.720 brasileiros naquele ano. A população branca apresentou o porcentual mais elevado de mortes no grupo com 70 anos ou mais: 30,1%. Os pretos ou pardos nessa faixa etária registraram 24,3%. O número de negros que chega a essa faixa etária é menor do que o de brancos.

Nos demais grupos etários, pretos ou pardos registraram porcentuais mais elevados que brancos (24,9% contra 20,7%, respectivamente). Por fim, apresenta-se a mudança estrutural dos porcentuais de mortalidade por grupos de idade em função da pandemia. Em 2019, para o grupo de 60 a 69 anos de idade, a mortalidade registrada por “doença infecciosa ou parasitária” foi de 9 por 1.000 habitantes. Em 2020, foram 56 mortes por 1 000 habitantes, sendo 47 destas pelo novo coronavírus. 

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