Issei Kato/Reuters - 8/7/2020
Issei Kato/Reuters - 8/7/2020

Pandemia dá origem a novo setor bilionário: o da medicina digital

Enquanto médicos e hospitais adotam a comunicação e a análise de dados online e pacientes aceitam melhor as informações recebidas remotamente, startups e gigantes da tecnologia competem para oferecer serviços

The Economist

04 de dezembro de 2020 | 11h58

Em janeiro, Stephen Klasko, diretor executivo da Jefferson Health, que administra hospitais na Filadélfia, conversou com um alto executivo de um banco. O banqueiro disse-lhe que há 20 anos a assistência médica e os bancos eram os únicos setores que ainda tinham de se juntar à revolução digital e de consumo. Klasko lembra de ele ter afirmado também que “agora vocês estão sozinhos”.

O banqueiro levantou um ponto importante. O McKinsey Global Institute, que faz parte da consultora McKinsey, admite que, em se tratando da digitalização, a assistência à saúde está atrasada em relação a setores como os de viagens, varejo, fabricação de veículos e até mesmo produtos embalados. Cerca de 70% dos hospitais americanos ainda usam fax e correio para prontuários médicos de pacientes. O CEO de um grande hospital em Madri reportou que nenhum compartilhamento de prontuários médicos foi realizado eletronicamente entre as regiões da Espanha quando a primeira onda da covid-19 se abateu sobre o país.

Ao expor essas deficiências digitais, a pandemia está finalmente impulsionando as mudanças. Confrontados com paralisações e caos, os médicos adotaram a comunicação e análise digitais como há anos é comum em outros setores. Os pacientes se sentem mais tranquilos com o tratamento e diagnóstico recebidos remotamente por meio do computador. E empresas inovadoras, das startups de aplicativos de saúde e hospitais, às seguradoras, farmacêuticas e gigantes da tecnologia como Amazon, Apple e Google, estão competindo para prover esses serviços.

A McKinsey calcula que as receitas decorrentes do atendimento médico por telemedicina, farmácia, aparelhos vestíveis e outros aumentarão de US$ 350 bilhões em relação ao ano passado, para US$ 600 bilhões em 2024. Setores do mercado de assistência médica nos Estados Unidos, que totalizam US$ 3,6 trilhões, estão prontos para a transformação digital. O mesmo ocorre na China, na Europa e em muitos outros lugares onde os médicos exercem seu ofício.

Os preparativos para o que seria uma operação futura trilionária foi acelerada pela pandemia. E o dinheiro está fluindo. De acordo com a empresa de pesquisa CB Insights, um valor recorde de US$ 8,4 bilhões foi injetado em empresas de saúde digital privadas no terceiro trimestre de 2020, mais do que o dobro do total registrado no ano passado.

Os “unicórnios” do setor, cada um valendo US$ 1 bilhão ou mais, têm um valor combinado de mais de US$ 110 bilhões, segundo a empresa de pesquisa HolonIQ. Em setembro, a AmWell, que trabalha com telemedicina e na qual o Google investiu US$ 100 milhões, levantou US$ 742 milhões num IPO e sua capitalização de mercado é de US$ 6 bilhões. Em 2 de dezembro a JD Health, farmácia digital afiliada da JD.com, um empório online chinês, levantou US$ 3,5 bilhões na sua abertura de capital em Hong Kong, a segunda maior deste ano.

Não surpreende que os investidores estejam inebriados. A demanda pela medicina digital vem aumentando. A empresa francesa Doctolib informou que as consultas por vídeo na Europa dispararam este ano, de mil para 100 mil por dia. O portal de saúde chinês Ping An Good Doctor, cuja controladora tem o mesmo nome, está expandindo para o sudeste asiático por meio de uma joint venture com a Grab, companhia de táxis de Cingapura.

Como muitas empresas no campo da tecnologia, algumas deixarão de ser novidade. Analistas da Gartner jogam um balde de água fria nas afirmações exacerbadas feitas por proponentes de uma "medicina de precisão" individualizada e da inteligência artificial médica. Mas reconhecem que há razões para se pensar que nem todo esse entusiasmo é exagerado.

Tecnologias como sensores, computação na nuvem e análise de dados estão sendo usadas na medicina num momento em que o risco de contrair covid-19 em hospitais e clínicas tornam sua adoção mais atraente do que nunca. Empresas especializadas como Livongo e Onduo produzem aparelhos para monitoramento contínuo de diabetes e outras doenças. Segundo um estudo da universidade de Stanford, quase a metade dos médicos americanos entrevistados usa esses aparelhos. Desse grupo, 71% consideram os dados úteis do ponto de vista médico. Em junho, a Mayo Clinic se juntou a uma startup chamada Medically Home para fornecer “cuidados a nível de hospital”, com os pacientes acamados em casa. Mesmo o Apple Watch, num ensaio clínico, conseguiu prever um problema médico conhecido como a fibrilação atrial, ou arritmia cardíaca.

Cuidando da saúde pela internet

Os pacientes estão entusiasmados. Segundo um estudo feito com 16 milhões de americanos publicado na revista Jama Internal Medicine, o uso da telemedicina aumentou 30 vezes entre janeiro e junho. Consumidores americanos entrevistados em maio pela Gartner disseram estar usando cada vez mais a internet e aplicativos de celulares para uma variedade de necessidades médicas.

Os órgãos reguladores em todo o mundo têm pressionado as provedoras de saúde para abrirem seus sistemas de armazenagem, uma precondição para a saúde digital florescer. A União Europeia vem promovendo um padrão eletrônico para prontuários médicos. Em agosto, o governo indiano anunciou um plano para uma identidade de saúde digital tendo na sua base a interoperabilidade.

A Kuantai Yeh Qiming, empresa de capital de risco, diz que o governo da China também vem tentando vencer a resistência aos prontuários eletrônicos por parte dos hospitais que temem perder seus pacientes para concorrentes. Yidu Cloud, plataforma de big data para hospitais, talvez detenha o maior conjunto de dados médicos do mundo, é o que acredita Kai-Fu Lee, da Sinovation Ventures, fundo de capital de risco de Pequim.

A Apple, com sua reputação de empresa que protege a privacidade dos usuários, também defende um padrão comum. Esses esforços e a pressão dos órgãos reguladores pressagiam uma “nova era” da medicina digital, acredita Annesh Chora, que chefiou a área de tecnologia da Casa Branca. Judy Faulkner, dona da Epic, que fabrica software para gerir prontuários médicos eletrônicos, declara ser totalmente a favor disso; 40% dos dados gerenciados por sua empresa já são compartilhados com não clientes. Kris Joshi, diretora da Change, que administra mais de U$ 1,5 trilhão em pedidos de cobertura médica feitos por americanos a cada ano, vê mais interoperabilidade, pelo menos entre as empresas.

Tudo isso vem ajudando a medicina a evoluir de “uma ciência apoiada por dados para uma ciência de dados apoiada pelos clínicos”, afirma Pamela Spence da consultora EY. Isso torna a assistência à saúde algo que interessa às grandes companhias de tecnologia? A Amazon pretende que sua assistente digital Alexa seja capaz (com a sua permissão) de analisar sua tosse e dizer se é crupe ou covid. Em novembro a companhia, que já vende de tudo, lançou uma farmácia digital para assumir a distribuição de remédios para farmacêuticas, revendedores e farmácias. AliHealth, divisão do Alibaba está sacudindo o mercado farmacêutico no país. Suas receitas saltaram 74% nos seis meses anteriores a setembro, em comparação com o ano anterior, para US$ 1,1 bilhão. A Apple tem o seu relógio e quase 50 mil aplicativos de saúde no iPhone. A Alphabet, empresa controladora do Google, tem a Verily, divisão de biologia.

As primeiras incursões dessas gigantes do setor de tecnologia fracassaram, disse Shubham Singhal, da McKinsey, porque agiam sozinhas. A medicina é um campo minado em termos de regulamentação, com ocupantes da área poderosos e onde os modelos de negócios das grandes empresas de tecnologia não se ajustam naturalmente. Mas a pandemia também deixou claro que o hardware das atuais provedoras e os serviços caros também raramente melhoram os resultados no campo da saúde. Para a nova geração de tecnologias digitais florescer é preciso “melhorar a saúde e não aumentar os custos”, diz Vivian Lee, da Verily. Sua empresa está abandonando o sistema de contratos baseados em risco em que são cobradas taxas pelo serviço e só são pagas quando os resultados são melhores (por exemplo, se no caso de diabetes o açúcar no sangue é controlado ou mais pessoas fazem exames de vista).

Tudo aponta para um futuro híbrido onde o Vale do Silício trabalhará mais estreitamente com empresas de assistência médica tradicionais. A Epic usa software de reconhecimento de voz da Nuance, uma startup, para permitir que os médicos enviem suas anotações para especialistas de fora; e ela também se uniu à Lyft, empresa de táxi, para transporte de pacientes para hospitais.

A Siemens Healthineers, enorme empresa de tecnologia alemã no campo da saúde, está trabalhando com a Geisinger, cadeia de hospitais americana, para expandir o monitoramento de pacientes. E os pacientes do Apollo Hospitals, na Índia, podem usar um aplicativo para conseguir reposição de medicamentos, teleconsultas e diagnósticos remotos - e até obter um empréstimo para uso médico por meio da parceria do Apollo com o DDFC Bank.

O Dr. Klasko, ansioso para provar que o banqueiro está errado, adota a estratégia híbrida: “Você tem de fazer parcerias com provedores de saúde e não centenas de aplicativos desconectados.”

Ele despertou o interesse da General Catalyst, empresa de capital de risco que anteriormente apostou em muitas startups de saúde digital, incluindo a Livongo, para trabalharem junto com sua equipe de inovação na Filadélfia. “O mantra 'move fast and break things' (mover rápido e quebrar coisas) não funciona no campo da assistência à saúde”, observou Hermant Taneja, da General Catalyst. Mas ficar parado também não resolve. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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