Tiago Queiroz/Estadão
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Pandemia deve causar prejuízo de até R$ 161,3 bi ao turismo entre 2020 e 2021

Estudo da FGV Projetos obtido com exclusividade ainda aponta para o fechamento de 1,114 milhão de empregos no setor em todo o País

Daniela Amorim, O Estado de S. Paulo

09 de junho de 2020 | 18h41

RIO - A pandemia do novo coronavírus deve impor perdas de até R$ 161,3 bilhões ao setor turístico brasileiro nos anos de 2020 e 2021, segundo um estudo da Fundação Getulio Vargas Projetos (FGV Projetos), obtido com exclusividade pelo Estadão/Broadcast.

A estimativa é que o período de interrupção das atividades de turismo seja de cinco meses, contra uma projeção inicial de três meses. O turismo doméstico poderia recuperar a capacidade ociosa em 12 meses, mas o turismo internacional precisaria de 24 meses.

Como consequência, o Produto Interno Bruto (PIB) do turismo só retornará ao patamar pré-pandemia no ano de 2022. A FGV Projetos calcula que o PIB do setor será de R$ 143,8 bilhões em 2020, um tombo de 46,9% em relação a 2019. Em 2021, o PIB do turismo somará R$ 236,5 bilhões, ainda 12,6% inferior ao resultado de 2019.

“O nível de produção do turismo (nível de utilização da capacidade instalada) está em 15%, e o nível de emprego está em 85%. Não é sustentável, tem um hiato muito grande, então é natural que se faça um ajuste de mão de obra à produção”, disse Luiz Gustavo Barbosa, gerente da FGV Projetos, responsável pelo estudo.

O setor de turismo já acumula uma perda de R$ 88 bilhões em faturamento em três meses de pandemia no País, segundo cálculos da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), antecipados com exclusividade para o Estadão/Broadcast.

Pandemia

Em março, quando foi decretada a situação de pandemia mundial pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o setor turístico brasileiro faturou R$ 13,38 bilhões menos do que a média mensal dos dois meses anteriores. Com as medidas de isolamento social, fechamento de fronteiras e restrição à circulação de pessoas, as atividades turísticas tiveram nova perda de R$ 36,94 bilhões em abril, seguida de outra queda de R$ 37,47 bilhões no faturamento em maio.

O economista Fabio Bentes, autor do estudo da CNC, calcula que o faturamento médio mensal do setor de turismo brasileiro é de R$ 40 bilhões, ou seja, a redução foi de cerca de 90% nos meses de abril e maio. “Quando o empresário diz que o setor está parado, ele tem razão”, disse Bentes.

Empregos

O economista da CNC lembra que, historicamente, para cada retração mensal de 10% no volume de receitas do setor turístico, há uma destruição potencial de 97,3 mil postos de trabalho num horizonte de até três meses. Diante da atual perda na geração de receitas, 727,8 mil postos de trabalho podem ser perdidos até agosto.

“Vamos supor que estancou a perda de receita, que descobriram a vacina contra o coronavírus, ainda assim o setor de turismo tende a reverberar essas demissões no mercado de trabalho nos próximos meses. Vai demorar a voltar a contratar”, previu Bentes.

A FGV Projetos calcula que a pandemia deve exterminar 1,114 milhão de empregos no setor de turismo. No entanto, a prorrogação da Medida Provisória 936, que autoriza a redução de jornada e salário para os trabalhadores, poderia salvar 444 mil desses postos de trabalho.

“Talvez seja a coisa mais urgente a ser feita para evitar essa perda de empregos. Porque o empresário vai demitir, e ele vai ter um custo imenso para fazer essas dispensas, e depois vai ter que readmitir para a alta temporada do fim do ano, que parece que vai ocorrer mesmo”, justificou Luiz Gustavo Barbosa.

Segundo Barbosa, o setor de turismo só começará a se recuperar em dezembro, então seria importante manter a vigência da MP 936 até lá. A medida poderia poupar postos de trabalho no segmento de hotelaria, aviação civil, restaurante, cultura e entretenimento. Mesmo com a prorrogação, cerca de 450 mil empregos no turismo ainda serão extintos nos próximos meses, prevê Barbosa. Outros 220 mil trabalhadores já foram demitidos desde o início da pandemia.

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que os subsetores de alojamento e alimentação fora do domicílio, responsáveis por mais da metade (57%) da ocupação no turismo, já eliminaram 211,7 mil postos de trabalho com carteira assinada nos meses de março e abril deste ano. O corte de vagas equivale a uma retração 11,08% na força de trabalho formal desse segmento em apenas dois meses. “Uma queda de mais de 10% da força de trabalho em dois meses é uma tragédia”, lamentou Fabio Bentes.

Recuperação

Luiz Gustavo Barbosa lembra que a projeção para retomada do turismo ainda pode ser revista em função da evolução da pandemia de covid-19. A forma como o governo federal vem conduzindo a crise sanitária no Brasil pode postergar ainda mais a recuperação das atividades turísticas.

“Se você está passando uma imagem de não gerenciamento e insegurança, o turista internacional não vem para o Brasil tão cedo, porque ele tem um leque de opções à disposição. É um fator agravante não só ao turismo internacional, como ao turismo doméstico também. Hoje em dia tem crise até de informação”, lembrou o gerente da FGV Projetos.

Além da prorrogação da MP 936, a FGV Projetos sugere ainda medidas de recuperação do mercado aéreo, reequilíbrio de contratos de concessão, políticas de crédito para empresas e consumidores, além da implementação de segurança sanitária como imagem do negócio turístico.

Retomada

O pesquisador da FGV lembra que a retomada das atividades turísticas deve ocorrer por etapas. As viagens domésticas essenciais de curta distância serão o primeiro passo, especialmente via transporte rodoviário. Em seguida devem ser retomadas as viagens domésticas de longa distância, por meio de transporte aéreo. Depois haverá novamente viagens de negócios e eventos, embora em ritmo lento. O estágio final será a retomada do turismo internacional, que dependerá de regulações e normas de outros países. A crise econômica mundial também deve contribuir negativamente na recuperação desse mercado, aponta o estudo.

Segundo a CNC, as Medidas Provisórias voltadas para a preservação do emprego ajudam a reduzir o impacto da queda expressiva do nível de atividade do setor de turismo, mas ainda não é possível detectar quando será interrompida a atual tendência de demissões.

“Mesmo em outras regiões do mundo que já contam com o relaxamento da quarentena, nota-se uma inércia mais acentuada no processo de recuperação do Turismo em relação a outras atividades econômicas. Tal constatação aponta para a necessidade da adoção de medidas econômicas mais audaciosas voltadas especificamente para o setor por parte dos formuladores de políticas públicas de modo a minimizar os efeitos nocivos da recessão sobre os níveis de empregos, bem como sobre a capacidade de arrecadação tributária por parte do setor”, defendeu o estudo da CNC.

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