Pandemia e antipolítica
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Pandemia e antipolítica

A falta de cuidado dos governos dos países desenvolvidos com a população dos países mais pobres contribui para a continuação e o agravamento da pandemia de covid-19

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2021 | 20h07

Não foram apenas os mercados que tiveram reações irracionais diante das notícias do aparecimento da variante Ômicron da covid-19. Os governos também operaram mal e continuam operando mal o ataque ao problema – e aí nem estamos falando do brutal negacionismo do presidente Jair Bolsonaro.

A maior irracionalidade continua sendo a falta de cuidado dos governos dos países avançados para com a população dos países mais pobres, que não contam com recursos para garantir a vacinação. E não basta doar vacinas, como alguns governos começaram a fazer. É preciso garantir infraestrutura e logística para administrá-las. Os maiorais do mundo continuam se reunindo no G-7 ou no G-20, mas até agora não foram capazes de definir uma política comum de ataque ao vírus, em quaisquer de suas ondas.

Trabalhar para a imunização dos países pobres não é política de benemerência. É política de interesse próprio. Enquanto um único país continuar desassistido, o mundo inteiro continuará desassistido porque o vírus não conhece fronteiras e se espalha a partir dos focos que lhe dão condições de se espalhar. E os maiores focos dessa natureza são os países não vacinados ou atrasados na vacinação.

É muita hipocrisia condenar esses países a restrições de todo o tipo e, ao mesmo tempo, não tomar providências para erradicar o vírus onde ele existe. De que adianta promover reforços de vacinação aos já vacinados sem a adoção de uma política global de controle do vírus?

Também não faz sentido, por exemplo, proibir apenas voos provenientes de determinados países africanos quando a variante Ômicron já tomou centros mais desenvolvidos, como é o caso do Reino Unido, Holanda e Portugal que já contam com dezenas de casos confirmados, segundo dados da plataforma Gisaid, iniciativa internacional que conta com uma base aberta de dados genômicos do coronavírus.

 

Até esta quarta-feira, a variante foi encontrada em mais de 20 países. Cada caso detectado pressupõe a existência de mais casos – sabe-se lá quantos – não detectados. Nessa velocidade, todos os países terão rapidamente seus casos. Será, então, necessário cortar os voos para todo o mundo? Se todos já tivessem sido vacinados, não haveria campo para disseminação do coronavírus nem para suas mutações.

As primeiras informações sobre a cepa Ômicron não completaram nem dez dias. Afora o fato de que apresenta múltiplas mutações na proteína S, pouco já se sabe sobre seu comportamento e seu nível de virulência. A  Organização Mundial da Saúde (OMS) avisou que o risco de disseminação da variante é “muito alto”.

Enquanto prevalecer esse desconhecimento, o melhor antídoto continua sendo a intensificação da vacinação, o uso de máscaras, os protocolos de higiene já conhecidos e o desestímulo às aglomerações. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

 

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