Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Pandemia, economia e democracia são temas diretamente relacionados

Países governados com o respaldo da sociedade, sem populismo, estão saindo da crise com rapidez

Ernesto Lozardo*, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 04h00

Os efeitos econômicos, sociais e políticos globais da pandemia de covid-19 serão equivalentes aos da 2.ª Guerra Mundial. No mundo, a contaminação atingiu mais de 117 milhões de pessoas e morreram mais de 2,6 milhões. No Brasil, mais de 11 milhões de pessoas foram contaminadas e mais de 268 mil morreram. Esses números são crescentes. 

A pandemia mostrou de forma inequívoca que o que era considerado ordem se tornou desordem global. A era do entendimento institucional entre as nações encerrou-se no mandato de Bill Clinton; no governo de Donald Trump, passou-se a ter a política da desconstrução das instituições. 

O trato econômico dessa pandemia é desconhecido. Nunca se teve um choque de oferta e demanda junto. A solução está em acabar com a covid-19. Isso depende da ciência, não da economia. No entanto, a pandemia global revelou que o Ocidente está sem liderança aglutinadora que inspire unidade, confiança e respeito à autodeterminação das nações: democracia sem preconceitos. O governo de Joe Biden é uma centelha de esperança.

Essa realidade rúptil da política internacional, somada à crise econômica e às dificuldades de acesso às vacinas, certamente será um obstáculo na retomada do crescimento, dos investimentos e do emprego das nações. Existem mais de 50 vacinas sendo testadas em diferentes laboratórios no mundo. A disponibilidade delas será uma luz para amenizar a inquietude de muitos, mas não materializará a esperança do crescimento sustentável. 

A sonhada rápida recuperação econômica do Brasil ficou mais distante por duas razões: a falta de vacinas para imunizar toda a população brasileira e a recente opção política do Executivo de encaminhar ao Congresso Nacional somente projetos que tenham apelo popular. A primeira decorreu do erro político de minimizar o impacto econômico da pandemia e discriminar ideologicamente a origem das vacinas. A segunda é mais grave, pois aumentará a desconfiança dos investidores em relação às reformas fiscal, econômica e administrativa, as quais representam os pilares do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), do emprego e da renda. 

No ano passado, muitos países tiveram perda de riqueza. Ao compararmos essa perda em dólar nominal, a brasileira perdeu 25%, sendo a maior perda entre as dez maiores economias do mundo. Isso reflete não o potencial da economia, mas a qualidade da sua governança. 

A sociedade entende que governos existem para governar, não para exercer o poder por mero prazer. Há um crescente inconformismo social em relação à gestão das instituições democráticas atual. Isso está ocorrendo em vários países ocidentais. Governantes e políticos têm exercido o poder em benefício próprio, desrespeitando a dignidade econômica dos cidadãos. Acirrou-se a desconfiança das sociedades em relação à representatividade das instituições democráticas. O populismo está se tornando uma força incontrolável, incitando regimes políticos autoritários, fascistas.

Mesmo neste dramático momento, encontramos países, independentemente do regime político, onde as lideranças governam com o respaldo da sociedade, não há populismo, respeitam as recomendações da ciência e apresentam elevado nível de governança econômica. Trata-se do Vietnã, da China, da Coreia do Sul e da Austrália, que saíram da crise pandêmica com rapidez e cujas atividades econômicas retornaram à normalidade.

A pandemia passará, mas deixará um rastro de incertezas políticas e econômicas sem precedentes no Brasil.

*PROFESSOR DE ECONOMIA DA EAESP-FGV, AUTOR DO LIVRO ‘OK, ROBERTO. VOCÊ VENCEU! O PENSAMENTO ECONÔMICO DE ROBERTO CAMPOS’ (EDITORA TOPBOOKS)

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