Adnan Abidi/ Reuters
Adnan Abidi/ Reuters

Pandemia faz Bollywood mudar para o streaming

Movimento semelhante ocorreu em Hollywood, com o adiamento de lançamentos de vários filmes nos cinemas

Priya Arora e Karan Deep Singh, The New York Times

11 de janeiro de 2021 | 05h00

Coolie No. 1 tem todas as características de um grande filme de Bollywood: roupas coloridas, sets exagerados, forte ritmo musical e um enredo melodramático sobre um homem que finge ter um gêmeo para cortejar a mulher dos seus sonhos.

Terminadas as filmagens em fevereiro, a obra estava pronta para ser lançada nos cinemas em maio. Mas, quando Coolie No. 1 finalmente chegou às telas no dia de Natal (2020), não foi visto em nenhum dos 3 mil cinemas da Índia. Estreou no serviço de streaming da Amazon. “Faço filmes para o cinema, mas desta vez não há como fazer isto”, disse o diretor David Dhawan

Depois que a pandemia do coronavírus atingiu o país de maneira agressiva e fechou os cinemas, a espera por uma estreia se tornou angustiante, ele disse. Então, graças a um acordo com a Amazon, após o lançamento a obra mudou para um plano de streaming direto.

“É um compromisso, definitivamente”, disse Dhawan, cujo filme é um remake de um grande sucesso de 1995 com o mesmo nome que também dirigiu. “Mas pelo menos o meu filme está sendo lançado”.

Coolie No. 1 é apenas um dos filmes de Bollywood – a indústria cinematográfica em língua hindi do país, de quase US$ 2,5 bilhões – que mudou para o streaming em um ano conturbado por causa da pandemia. Ao todo, 28 filmes interpretados por grandes astros de Bollywood que iriam para os cinemas foram diretamente para o streaming. Em 2019, nenhum havia feito esse trajeto, segundo a empresa de pesquisa Forrester.

Hollywood 

A mudança lembra a de Hollywood, onde a pandemia fez com que os estúdios adiassem os lançamentos de vários filmes nos cinemas e, em alguns casos, fossem exibidos em streaming após o lançamento. Em setembro, a Disney estreou Mulan no Disney+. Em novembro, a Warner Bros. informou que lançaria Mulher Maravilha 1984 na HBO Max, e em cinemas simultaneamente, no Natal. Em seguida, o estúdio anunciou que enviará todos os filmes de 2021 para streaming e cinemas ao mesmo tempo. 

O número de filmes de Bollywood enviados para streaming é apenas uma pequena fração do que a indústria produz. Em 2019, Bollywood realizou mais de 1.800 filmes, ou uma média de 35 por semana, e os lançamentos em cinemas do país geraram uma receita de mais de US$ 1,5 bilhão, diz relatório da Ernst & Young.

Mas a mudança de planos para o streaming em razão da pandemia é inequívoca, disseram produtores e especialistas de Bollywood.

Netflix, Amazon e Hotstar passaram a investir na Índia, um dos mercados de internet de maior crescimento no mundo. As companhias, que têm em conjunto dezenas de milhões de assinantes indianos, despejaram bilhões de rúpias na produção de conteúdo original de vanguarda, específico da Índia em uma variedade de línguas regionais. Em 2020, elas gastaram cerca de US$ 520 milhões na criação de conteúdo para o público indiano, cerca de US$ 100 milhões a mais do que em 2019, segundo a Forrester.

A Netflix informou que investiu cerca de US$ 400 milhões para licenciar e criar mais de 50 filmes e programas no país nos dois últimos anos.

A Disney+ também começou a operar na Índia durante o lockdown em abril, fundindo-se com a Hotstar, uma das maiores plataformas da Índia. 

Passar por cima das salas de cinema é um passo enorme para Bollywood. A indústria cinematográfica indiana há muito depende quase exclusivamente dos lançamentos em cinemas. Mas, quando a pandemia obrigou os cinemas a fechar, as receitas caíram 75%, segundo estimativas de analistas da KPMG.

Quando o governo reabriu os cinemas em outubro, a PVR Cinemas, a maior cadeia multiplex do país, declarou perda de cerca de US$ 25 milhões para o trimestre encerrado em setembro, por falta de novos filmes.

“As nossas receitas caem porque somos ainda uma proposta incompleta”, disse Ajav Bijli, chairman e diretor gerente da PVR Ltd., que demitiu cerca de 30% dos seus funcionários. “É como ter um restaurante sem comida.” Alguns cinemas fecharam definitivamente. 

Tudo isso torna mais fácil para os serviços de streaming investir em novos filmes, mesmo que sejam poucos os cinemas abertos. Existe “uma oportunidade para conseguir lançamentos recentes em cinema no prazo de quatro a oito semanas do seu lançamento, dependendo da língua, para uma gama muito ampla de clientes”, afirmou Vijay Subramaniam, diretor e chefe de conteúdo da Amazon Prime Video India.

Os investimentos em conteúdo dos serviços de streaming em Bollywood podem também ter gerado um aumento da criatividade. Em lugar dos costumeiros filmes românticos ou de ação com heróis e todo um elenco de astros, agora é maior o número de programas e filmes centrados em mulheres, na guerra e em outros temas, afirmam os analistas. “As pessoas estão exigindo conteúdo mais relevante do ponto de vista intelectual, mais matizado. Atualmente, essas histórias precisam significar alguma coisa”, diz Vikram Malhotra, produtor de ShakuntalaDevi./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.