Tiago Queiroz/Estadão
Comércio fechado na Rua José Paulino, no Bom Retiro, centro de São Paulo Tiago Queiroz/Estadão

Pandemia foi responsável pelo fechamento de 522 mil empresas na primeira quinzena de junho

Entre os negócios fechados pela atual crise, 518,4 mil eram de pequeno porte e tinham até 49 empregados

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2020 | 11h27
Atualizado 17 de julho de 2020 | 00h50

RIO - A pandemia do novo coronavírus foi responsável pelo fechamento de 522,7 mil empresas no País na primeira quinzena de junho - quase 40% dos 1,3 milhão de estabelecimentos que estavam fechados nesse período, fosse temporariamente ou definitivamente. Os dados são da Pesquisa Pulso Empresa: Impacto da Covid-19 nas Empresas, que integram as Estatísticas Experimentais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Entre as empresas fechadas pela pandemia, 518,4 mil (99,2%) eram de pequeno porte, ou seja, tinham até 49 empregados. Outras 4,1 mil tinham porte intermediário, de 50 a 499 empregados, e 110 eram grandes empresas, possuíam mais de 500 empregados.

Ainda entre as empresas com atividades encerradas por causa da pandemia, 258,5 mil (49,5%) delas eram do setor de Serviços, 192 mil (36,7%) do Comércio, 38,4 mil (7,4%) da Construção e 33,7 mil (6,4%) da Indústria.

Na primeira quinzena de junho, o País tinha cerca de 4 milhões de empresas, sendo 2,7 milhões (67,4%) em funcionamento total ou parcial, 610,3 mil (15,0%) fechadas temporariamente e 716,4 mil (17,6%) encerradas em definitivo.

O coordenador de Pesquisas Conjunturais em Empresas do IBGE, Flávio Magheli, lembrou que a pandemia foi determinante no encerramento temporário ou definitivo das atividades de companhias médias (mencionada por 74,3% delas como justificativa para o fechamento) e grandes empresas (citada por 100% dos estabelecimentos fechados). No entanto, a maioria das pequenas empresas fechadas já enfrentava problemas antes da chegada da covid-19: 60,2% dos estabelecimentos de pequeno porte relataram que não houve qualquer influência da pandemia para o encerramento das atividades.

“O que surpreende, mas muitas das empresas pequenas já vinham com dificuldades antes da crise”, contou Magheli. Entre as que encerraram definitivamente suas atividades, independentemente do motivo, 715,1 mil ou 99,8% eram de pequeno porte, e 1,2 mil eram médias empresas. Nenhuma grande empresa encerrou definitivamente suas atividades.

Os Serviços tiveram a maior proporção de empresas encerradas em definitivo, 46,7% ou 334,3 mil, seguido por Comércio (36,5% ou 261,6 mil), Construção (9,6% ou 68,7 mil) e Indústria (7,2% ou 51,7 mil).

Das 2,744 milhões de empresas em funcionamento na primeira quinzena de junho, 70% informaram que a pandemia impactou negativamente os negócios. Apenas 16,2% declararam que o efeito foi pequeno ou inexistente, enquanto 13,6% relataram um impacto positivo.

Embora os governos das diferentes esferas (federal, estadual e municipal) tenham anunciado uma série de medidas emergenciais em combate à pandemia do novo coronavírus, a maioria das empresas que adotaram alguma ação em resposta à covid-19 não percebeu o apoio governamental. Entre as que estavam funcionando, 2,674 milhões disseram ter adotado alguma medida em reação à pandemia, mas menos de um terço delas (889.455 empresas) percebeu o apoio do governo em menos uma dessas ações. Outras 1,855 milhão tomaram medidas alegadamente sem qualquer apoio.

O diretor de Pesquisas do IBGE, Eduardo Rios-Neto, lembra que a principal medida tomada foi a realização de campanhas de informação e prevenção ou adoção de medidas extras de higiene (mencionada por 91,1% das empresas em atividade), o que não teria necessariamente relação com governos.

No entanto, a percepção sobre o apoio governamental não foi universal mesmo entre as que aderiram a ações de socorro como concessão de crédito para pagamento da folha salarial de empregados e adiamento do pagamento de impostos.

O IBGE estima que 1,221 milhão de empresas adiaram o pagamento de impostos, mas 587 mil delas (48,1%) declararam que o fizeram sem apoio governamental. Das 347,8 mil empresas que conseguiram uma linha de crédito emergencial para pagamento da folha salarial, 112,5 mil (32,3%) manifestaram que não tiveram apoio do governo nessa ação.

Segundo Alessandro Pinheiro, coordenador de Pesquisas Estruturais e Especiais em Empresas do IBGE, a adoção massiva de medidas de prevenção à Covid-19 pelas empresas é importante, mas essas ações demandam menor esforço das companhias para concretizá-las. Ele ressalta que foi menor, porém expressiva, a fatia de empresas que lançaram ou passaram a vender novos produtos e serviços (20,1% das que tomaram alguma medida em reação à pandemia) e que alteraram método de entrega de produtos e serviços, incluindo a mudança para o online (32,9%).

"Tem a ver com uma reação mais criativa da empresa, que tem a ver com mais investimento", disse Pinheiro. "É mais pró-ativa, uma busca de alternativas e oportunidades para atenuar a queda na receita", completou.

Queda nas vendas

O pesquisador do IBGE apontou que a queda nas vendas de produtos e serviços foi o efeito mais marcadamente mencionado como negativo em decorrência da pandemia.

"Isso é normal. Porque houve impacto da demanda", disse Pinheiro. "O choque se deu mais rapidamente pela demanda, por conta disso esse impacto nas vendas foi o mais negativo mencionado na pesquisa", acrescentou.

A queda nas vendas ou serviços comercializados em decorrência da pandemia foi sentida por 70,7% das empresas em funcionamento na primeira quinzena de junho em relação a março, quando começaram as medidas de isolamento para combater a disseminação do novo coronavírus. Ao mesmo tempo, 17,9% disseram que o efeito da pandemia foi pequeno ou inexistente sobre as vendas, e outros 10,6% afirmaram que perceberam um aumento nas vendas com a covid-19.

Em relação à produção, 63,0% das empresas enfrentaram dificuldade de fabricar produtos ou atender clientes, e 60,8% relataram empecilhos no acesso a fornecedores. Sobre o caixa, 63,7% apontaram que tiveram dificuldades para realizar pagamentos de rotina.

Mais da metade das empresas em funcionamento na primeira quinzena de junho não diminuiu o quadro de funcionários em relação ao início de março, quando se agravou a pandemia do novo coronavírus no Brasil. Segundo a pesquisa, 61,2% das empresas em funcionamento mantiveram o número de funcionários em comparação ao início de março. No entanto, 34,6% enxugaram o quadro de trabalhadores, enquanto apenas 3,8% aumentaram o total de empregados.

Entre as 948,8 mil empresas que reduziram a quantidade de funcionários, 37,6% diminuíram em até 25% o quadro de pessoal; 32,4% dessas empresas cortaram mais de um quarto até metade do total de funcionários, e 29,7% dos estabelecimentos demitiram mais da metade dos funcionários.

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Sapataria centenária no interior de SP não resiste à covid-19 e fecha as portas

Wanda Cavalli afirma que o que mais doeu foi dispensar os cinco funcionários da empresa

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2020 | 00h48

SOROCABA - Negócio de família de 110 anos, a Sapataria Central, em Jundiaí, interior de São Paulo, passou incólume por mais de um século. A loja não teve forças, porém, para resistir à retração da demanda pela reforma de sapatos, bolsas e artigos de couro causada pelo coronavírus. No dia 30 de maio, a proprietária Wanda Cavalli, de 84 anos, anunciou o fechamento. “A pandemia acabou com uma vida inteira de trabalho aqui”, disse.

Depois de 42 anos na linha de frente da sapataria, Wanda havia transferido a administração do negócio para a filha, Rosa Cavalli, mas continuava indo ao estabelecimento acompanhar os serviços. “Sempre tivemos uma clientela fiel, de quem nos tornamos amigos, mas com o coronavírus, não deu mais para sair de casa. Quem sai de casa no meio de uma pandemia? Então os serviços foram minguando e achei melhor fechar antes que virasse tudo dívida”, lamentou. O que mais doeu, conforme ela disse, foi dispensar os cinco funcionários. “Felizmente, eles são muito bons no que fazem e sei que já estão se recolocando.”

Para entregar o prédio alugado, Wanda transferiu máquinas e material para um imóvel da família. “É um prédio nosso que estava alugado, e o negócio do inquilino também quebrou na pandemia. Agora estou tentando vender as máquinas, como lixadeiras de couro e máquina de costura reta, que são muito boas. Temos também uma quantidade grande de material”, disse.

Parte das últimas encomendas ainda está à espera dos clientes. “Tem muito sapato bom e caro que a gente reformou, e os donos ainda não vieram retirar. Depois de tantos anos, acho que ninguém imaginava que a gente iria fechar, mas essa pandemia...”. 

O prédio da sapataria, na rua Siqueira de Moraes, região central, era alugado, mas o contrato já foi desfeito. De acordo com Wanda, a sapataria sempre se manteve lucrativa, mesmo nas diversas crises econômicas vividas pelo País. “Por ser uma região valorizada, o aluguel é caro. Nós também sempre demos café da manhã, almoço e café da tarde para os funcionários, então o custo era alto, mas compensava.

Saímos sem dívida. Tínhamos uma clientela de muita qualidade, por isso a nossa sala de espera estava sempre cheia. As pessoas esperavam os consertos com água fresca e cafezinho. Agora, acabou.”

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