Gabriela Biló/Estadão
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Pandemia motiva 120 projetos de inovação no Hospital das Clínicas

Por meio de parcerias, centro médico tem criado desde almofadas para UTI até robôs programados para recolher o lixo hospitalar

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2020 | 10h00

Quem desenvolve quadro grave de covid-19 pode ficar semanas em uma unidade de terapia intensiva (UTI), ligado a um respirador. Para enfrentar um longo período de tempo na cama, o paciente deve ser colocado de barriga para baixo, a fim de diminuir a pressão sobre os pulmões e ajudar a expandi-los - condição comum para outros quadros de doenças pulmonares. Mas não havia um equipamento apropriado para manter o paciente nessa posição sem que aparecessem escaras em seu corpo, resultado da pressão prolongada sobre a pele.

A solução para o problema foi uma almofada especial e de fácil higienização que surgiu de uma parceria entre o Inova HC, braço de inovação do Hospital das Clínicas, na capital paulista, a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e a empresa de almofadas FOM. Este é um dos cerca de 120 projetos em andamento no HC motivados pela pandemia do novo coronavírus. As parcerias e ideias podem se tornar oportunidades para novos negócios.

Em seu hub de inovação, o Hospital das Clínicas tem cerca de 30 startups em fase de aceleração, além de grandes empresas que trabalham para buscar soluções inovadoras na área da saúde. A contrapartida para o hospital pode vir em forma de doação dos novos produtos desenvolvidos ou com o direito do uso da tecnologia em primeira mão, por exemplo. "Com a pandemia, recebemos muito mais doações para investimento em saúde. Criamos até uma plataforma de crowdfunding para que as pessoas pudessem realizar suas contribuições", diz o professor Giovanni Cerri, responsável pelo projeto.

No caso das almofadas para UTI, a FOM descobriu uma oportunidade de entrar no segmento de saúde enquanto sua fábrica própria atua com 50% da capacidade, já que as lojas da marca foram afetadas pelo fechamento do comércio, em razão da quarentena. "Estamos prontos para dar início à fabricação. O produto já está em teste em três redes de hospitais particulares em São Paulo", diz o CFO da FOM, Guel Rabinovitch.

A empresa doou o primeiro lote, com 400 coxins, nome dado ao kit de almofadas, para o HC. As soluções existentes em almofadas até então eram importadas, com alto custo. Os médicos usavam travesseiros ou outros materiais que acabavam machucando a pele e são difíceis de higienizar.

Pouca inovação

A saúde não é o único setor que recebeu com a pandemia uma injeção de modernização por necessidade. O professor Carlos Arruda, da Fundação Dom Cabral, diz que o varejo e a educação são outros exemplos de áreas que se viram obrigadas a buscar novas tecnologias ou, simplesmente, implementar as que já existiam. Por outro lado, o mesmo estudo de Arruda que revelou essa tendência aponta que setores como a indústria deixaram de investir em novos projetos, em razão da baixa receita e contenção de gastos.

"No caso da educação, temos visto pouca inovação e muita adoção de soluções que já existiam, mas não eram usadas. No varejo, vemos uma inovação orientada pelo cliente, focada em atender a necessidade, o que é positivo. Em termos de pesquisa, temos visto muitos investimentos, editais de curto prazo, para resolver os problemas de agora, sem uma visão de mais longo prazo", afirma. Ele explica que o fato de a crise de saúde ter causado uma paralisação econômica dificulta o investimento em inovação transformadora, que muda, de fato, a vida das pessoas.

Ainda assim, há projetos que vêm para ficar e que foram acelerados pela crise sanitária. O professor Giovanni Cerri, do Inova HC, cita uma plataforma de telemedicina e um programa de monitoramento de pacientes, sem contato físico, como exemplos de projetos que podem baratear o custo das UTIs e diminuir o trânsito dos doentes.

Ele conta que até robôs passaram a ser utilizados no recolhimento de lixo hospitalar nesse período e um laboratório de robótica começou a integrar o centro de inovação. "É o legado da crise. Tudo o que será desenvolvido na medicina ficará para o pós-crise", diz.

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