Felipe Rau/Estadão
Carros populares, que puxaram as vendas até o recorde de 2012,  abriram espaço para utilitários esportivos, ou SUVs.  Felipe Rau/Estadão

Pandemia acelera mudança no mercado brasileiro, que abandona carros populares

Carros populares, que puxaram as vendas até o recorde de 2012, abriram espaço para SUVs

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2022 | 16h01

RIO - Enquanto a economia patina, o mercado de trabalho segue oferecendo salários piores e empregos precários, os desequilíbrios econômicos causados pela pandemia aceleraram uma mudança de “mix” no setor automotivo nacional. Os carros populares, que puxaram as vendas até o recorde de 2012, saíram de campo, abrindo espaço para os utilitários esportivos, ou SUVs. Um símbolo da nova configuração do mercado foi a decisão da Fiat e da Volkswagen de encerrar a produção do Uno e do Gol, respectivamente, históricos campeões de vendas.

Segundo Cassio Pagliarini, sócio da Bright Consulting, a mudança começou com o comportamento do consumidor, especialmente daqueles de poder aquisitivo mais elevado, mas ganhou um forte impulso com a crise recente. 

  

Dados da Bright Consulting mostram que, em 2012, 8% do total de automóveis vendidos eram SUVs. Em 2016, com o mercado já atingido pela recessão, a fatia das SUVs subiu para 15%. Nos anos de lenta recuperação, com os consumidores da antes pujante classe C mais retraídos, essa participação seguiu avançando gradualmente, até 22,4% em 2019. A crise de 2020 e 2021 levou a fatia das SUVs para 33,6% no ano passado, superando a participação (29,9%) dos “hatchbacks”, que incluem os carros mais baratos. Em janeiro e fevereiro deste ano, saltou para 38,2% do total de vendas.

Se a crise dos últimos dois anos acelerou a mudança do “mix” de produtos do mercado automotivo nacional, com o crescimento da participação das SUVs no total das vendas, em detrimento dos “carros populares”, no segmento “premium”, nem mesmo as demoradas filas para entrega dos veículos afugentam compradores, segundo Renato Bello, presidente da Motor Group Brasil, rede de concessionárias dedicadas a carros de luxo.

“Mesmo tendo aumento nos preços, vemos o mercado ‘premium’ com demanda ainda muito próxima ou até maior do que a oferta, levando à falta de veículos”, afirmou o empresário.

De acordo com Bello, ainda que sejam comprados agora, os modelos mais exclusivos de marcas como BMW e Porsche estão com previsão de entrega para o fim do ano ou 2023. São carros cujo preço de tabela começa em torno de R$ 500 mil, comprados apenas pelos consumidores mais ricos. Embora seja um produto para poucos, Bello aposta num crescimento estrutural da demanda, por que o segmento “premium”, no Brasil, responde por apenas 3% das vendas totais, abaixo do verificado em mercados semelhantes ao brasileiro, como o México, cuja fatia está em 4,5%.

Segundo o empresário, os travamentos de cadeias de produção afetam igualmente carros mais baratos e veículos de luxo, mas a crise causada pela covid-19 atingiu de formas diferentes os ricos e os mais pobres. Com empregos ameaçados e o rendimento em queda, os consumidores de classe média deixaram de lado o sonho de trocar de carro ou comprar o primeiro veículo. O salto nos preços torna o desejo ainda mais distante. Já os consumidores de alta renda são pouco afetados pela inflação, mas, com os atrasos nas linhas de produção, têm que esperar igualmente.

Para Bello, as perspectivas de negócios seriam ainda melhores se o mercado como um todo estivesse em crescimento acelerado, mas o empresário não vê saída para a crise no curto prazo. A guerra na Ucrânia adiciona ainda mais incertezas. Segundo o empresário, o país do Leste Europeu é um importante polo fabricante de chicotes para motores, o que poderá levar a problemas no fornecimento da peça para as montadoras. Bello acredita que os problemas nas cadeias de produção seguirão por 2023 e poderão chegar a 2024.

A redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) ainda pode estimular um aumento de demanda, impedindo uma reversão maior no ritmo de encarecimento dos produtos, com consumidores apressando a busca por aquisição de automóveis para aproveitar o desconto temporário, disse André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV).

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Inflação do motorista chega a 17% em 12 meses

Pandemia, com desarranjo das cadeias globais de produção, impacta nos preços, e guerra na Ucrânia trará pressão adicional

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2022 | 15h00

RIO - Com o desarranjo das cadeias globais de produção em meio à pandemia, a inflação ao motorista acumulou uma alta de 17,03% nos 12 meses encerrados em março, segundo cálculos feitos pela Fundação Getulio Vargas (FGV) a pedido do Estadão/Broadcast, com dados do Índice de Preços ao Consumidor-10 (IPC-10). A cesta inclui preços de veículos, combustíveis, peças, serviços correlatos e tarifas públicas como multas e licenciamento. E a guerra na Ucrânia acrescenta uma pressão adicional nas cotações do petróleo: caso nada mais aumente em abril, apenas o reajuste de combustíveis feito em março pela Petrobras elevará essa taxa para 22,08%.

“Combustível é o foco [da inflação em abril], mas com a retomada das atividades pós-pandemia, a gente pode ver novos reajustes em serviços que estavam meio congelados, como oficina, por exemplo, que podem também ajudar a pressionar por esse lado”, previu Matheus Peçanha, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV). 

No lado dos produtos, os dados mais recentes do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), referentes a fevereiro, mostram que os automóveis novos já acumulam uma alta de 22,94% em 18 meses de aumentos consecutivos, apurou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Movimento semelhante ocorre em automóveis usados e motocicletas. A explicação por trás é exatamente a mesma, o setor automotivo tem sido um dos mais impactados pelo desarranjo das cadeias produtivas que se iniciou com a pandemia. Teve uma alta muito grande no preço dos insumos”, justificou Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE, à época da divulgação dos números.

O automóvel usado já sobe há 20 meses, com alta acumulada de 22,66%. As motocicletas sobem há 15 meses seguidos e já ficaram 17,72% mais caras no período. Outros serviços correlacionados também aumentaram de preço, como seguro voluntário, emplacamento e conserto.

Graças à demanda aquecida, o setor automotivo é o único entre os dez que integram o comércio varejista ampliado que tem conseguido repassar ao consumidor quase que integralmente a elevação de preços dos produtos na porta de fábrica, conforme levantamento do economista Fabio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Nos 12 meses terminados em janeiro de 2022, os preços de produtos da indústria automotiva ficaram 17% mais caros na porta de fábrica. No varejo, a alta de preços ao consumidor nas lojas de veículos e motos, partes e peças foi de 16,5%. Isso significa que 96,8% do aumento de custos do atacado foram repassados ao cliente final, calculou Bentes.

“O setor está tentando retomar a margem de lucro que perdeu durante o período mais crítico da pandemia”, avaliou Bentes. “O repasse chega a 100% em dezembro de 2021, na verdade os preços no varejo até sobem mais do que no atacado em dezembro. O varejo encontrou esse espaço para repasse de alta de custos a partir da segunda metade de 2020”, completou.

A indústria automobilística foi afetada pelo desarranjo das cadeias produtivas e falta de insumos, mas também pelo aumento de custos de matérias-primas e de energia, apontou André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Ibre/FGV. Ele lembra que a linha de produção do setor é muito intensiva no uso de energia, então não consegue deixar de repassar para os preços “uma conta de energia mais cara”, por exemplo.

“Se a indústria automobilística não conseguia atender o mercado, isso ajudou a aquecer o mercado de usados. Os automóveis novos subiram tanto quando os usados. Se não tinha peça, o carro fica mais escasso, isso provoca um choque de oferta. Os carros que estão disponíveis sobem mais rápido de preço. Então tem uma pressão de inflação de custos, porque a energia ficou cara, as peças e acessórios também. Tem um choque de oferta, porque não tinha peça para montar os carros na velocidade que atendia à demanda. Tem também uma demanda mais aquecida que não conseguia ser satisfeita pelo volume produzido”, enumerou André Braz, da FGV.

Para Guilherme Moreira, coordenador do IPC da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a inflação dos carros, novos e usados, é uma “coisa completamente nova”, resultado da crise causada pela covid-19. Assim como a maioria dos bens duráveis e produtos industriais em geral, os veículos passaram duas décadas com preços comportados, subindo abaixo da inflação média da economia.

De tão atípico, o fenômeno fez, em alguns meses, os preços de carros usados subirem mais do que os dos novos – como os carros estão entre os mais caros bens duráveis, o setor tem um dinâmico mercado secundário, ou seja, a negociação de carros usados. Tradicionalmente, os usados desvalorizam ano a ano, usando sempre o preço dos veículos novos como referência. Os problemas causados pela pandemia bagunçaram também essa relação, disse Moreira.

“Os mercados de novos e usados têm uma correlação muito grande. Sempre vai existir a correlação. O que aconteceu é um aumento de preços geral e a restrição de oferta, que bagunçou essa relação. Em alguns momentos, o usado ficou mais caro do que o novo”, lembrou Moreira. 

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Preço mais alto de carros deve esfriar demanda já pressionada por crédito caro

Vendas de carros novos nos primeiros meses de 2022 caíram 26,7% ante igual período do ano passado 

Daniela Amorim, Vinicius Neder e Wilton Jr., O Estado de S.Paulo

28 de março de 2022 | 15h00

O sonho do automóvel novo ficou mais distante, ou pelo menos significativamente mais caro, para os brasileiros. Mesmo que os reajustes nos preços dos automóveis e nos gastos necessários para seu uso e manutenção, como os combustíveis, arrefeçam em 2022, o novo patamar dos valores, mais elevados, e a alta das taxas de juros no financiamento de veículos esfriarão a demanda, preveem especialistas.

Após dois anos de fortes reajustes, o preço médio dos “hatchbacks”, categoria que inclui os carros mais baratos, ficou em R$ 79 mil em janeiro deste ano, levando em conta os valores de tabela divulgados pelas montadoras, mostra levantamento da Bright Consulting, consultoria especializada no setor automotivo. Em 2016, o preço médio era de R$ 48 mil. Corrigindo pela inflação, seria o equivalente a R$ 62 mil, a preços de janeiro.

Após esse salto nos preços, 2022 já começou com sinais de queda na demanda. Em que pese o fato de os primeiros meses do ano serem sazonalmente fracos em relação aos demais, no primeiro bimestre de 2022, as vendas de carros novos caíram 26,7% ante igual período de 2021, considerando unidades emplacadas, conforme a Fenabrave, entidade que representa as concessionárias.

“As montadoras tiveram um bom ano (em 2021) em termos de rentabilidade. As concessionárias também. Mas agora todo mundo está caindo na real. Mesmo que volte a haver faltas pontuais de produtos, vai ter carro”, disse Cassio Pagliarini, da Bright Consulting.

Segundo Pagliarini, o novo patamar, mais elevado, dos preços dos carros vai adiar a volta do mercado automotivo nacional ao seu auge – atingido em 2012, quando foram vendidas 3,1 milhões de unidades, apenas de automóveis. Depois desse recorde, as vendas despencaram com a recessão de 2014 a 2016. Desde 2017, o mercado registrava uma lenta recuperação até 2019, quando foi atingido em cheio pela pandemia.

O crédito mais caro deve ser um elemento-chave para desacelerar os aumentos de preços no varejo nos próximos meses, mesmo com a persistência de encarecimento de custos, corrobora o economista Fabio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens Serviços e Turismo (CNC).

“Nenhum segmento do varejo depende tanto do crédito quanto o setor automotivo. Essa tentativa de recomposição de margem (de lucro do setor) não vai longe não. Pelo lado da oferta, vai ser difícil essa alta de custo baixar. Então vai ficar um abacaxi na mão do varejo. Lutar contra um aumento de custos de produção no atacado, e não poder continuar repassando nesse ritmo que a gente está vendo para o consumidor, especialmente no final do ano, quando o crédito vai estar ainda mais caro”, disse Bentes.

A taxa média de juros de operações de crédito com recursos livres para Pessoa Física para a aquisição de veículos foi de 26,86% em janeiro de 2022, segundo dados do Banco Central (BC) compilados por Bentes.

“Se você tirar uma média móvel de três meses, de novembro de 2021 a janeiro de 2022, você fica com uma taxa média de 27%, algo que não se via para o automotivo desde o primeiro trimestre de 2016, quando justamente estávamos com aquele processo também de aperto monetário por causa da inflação de 2015. Acredito realmente que não vá ter espaço para sustentar esse grau de repasse nos próximos meses, o que vai colocar o varejo numa situação delicada, visto essa resiliência dessa inflação no atacado, dessa inflação de oferta que a gente já vem acompanhando há alguns meses”, previu Bentes.

Nesse quadro, o recorde de vendas de carros novos, registrado em 2012 não deverá ser recuperado antes de 2030, prevê Pagliarini, da Bright Consulting. Em parte, porque, diante do novo nível de preços, apenas um crescimento mais robusto do poder aquisitivo da população, incluindo as famílias menos abastadas, seria capaz de dinamizar o mercado.

“Um avanço maior do mercado só vai acontecer quando o brasileiro ganhar mais. É preciso aumentar o PIB (Produto Interno Bruto) e a renda per capita”, afirmou o consultor.

O arrefecimento da demanda já se vê nas ruas. Na Estrada Intendente Magalhães, conhecido polo de comércio de carros usados na zona oeste do Rio, a queda nas vendas aparece no fraco movimento das lojas. Na manhã de uma quinta-feira, ao circular pela região, a reportagem do Estadão encontrou apenas um consumidor interessado numa possível compra, que não quis dar entrevista. Em janeiro e fevereiro, as transações de carros usados tombaram 30,8% ante os dois primeiros meses de 2021, para 1,041 milhão, mostram os dados da Fenabrave, entidade que representa as concessionárias.

Vendedor da Tan Mariclar Veículos, Valdir Lima Araújo trabalha há 20 anos no ramo e não lembra de ter visto um momento tão ruim para as vendas. Segundo Araújo, as vendas têm sido “horríveis” nos últimos três ou quatro meses, desde que a alta de juros começou a se fazer sentir no comércio. Modelos como Onyx, da GM, e Palio, da Fiat, com fabricação entre 2015 e 2017, que podiam ser comprados com entrada de R$ 5 mil e prestações de R$ 700 a R$ 800 por mês, agora não saem por menos de R$ 1 mil ao mês.

“Os carros aumentaram muito de preço, e a taxa das financeiras também. Os clientes fugiram, não atendemos mais ninguém”, afirmou Araújo.

Segundo o vendedor, o aumento da demanda por usados, por causa da falta de veículos novos nas concessionárias, diante dos atrasos na produção, durou até outubro do ano passado. Mesmo assim, os problemas no ritmo de fabricação também provocam efeitos negativos no mercado de usados, principalmente para as lojas da Intendente Magalhães, onde a maioria dos estabelecimentos é especializada em veículos mais antigos e baratos, e não nos seminovos, com um ou dois anos de uso. Nesse segmento, as lojas costumam comprar carros antigos das concessionárias – que se restringem a novos e seminovos – para revender.

“Eu tinha planos de trocar por um carro zero, usando a prerrogativa de isenção de IPI. Esse carro é meu carro sonho de consumo, uma Spin (da Chevrolet). Um espaço bom, a mala excelente, não é o carro mais econômico, mas é a menina dos olhos no táxi. Esse carro, em 2019, o básico dele custava R$ 65 mil a R$ 68 mil. Hoje esse mesmo carro custa R$ 98 mil. O mínimo do mínimo. Ele vai até R$ 110 mil e R$ 115 mil (dependendo dos acessórios inclusos). Qual a chance de encarar uma empreitada de tentar comprar um carro desses novos?”, relatou Luiz Afonso de Oliveira, que trabalha como taxista há mais de quatro anos nas ruas do Rio de Janeiro.

O automóvel em que trabalha atualmente já tem 420 mil quilômetros rodados em quase dez anos de uso. Recentemente, Oliveira já gastou mais de R$ 5 mil em manutenção, que incluiu o reparo do aparelho de ar-condicionado. As peças estão significativamente mais caras, relatou.

“Houve um aumento absurdo de peças. As peças subiram muito de preços. Os serviços também de certa maneira acompanharam. Então hoje, para fazer a manutenção do carro de forma adequada é caro, é penoso. O pneu que eu comprava há um por R$ 330 a R$ 350, hoje custa R$ 460 na promoção. Eu troco de dois em dois, a cada seis meses pelo menos”, contou Oliveira, que, às voltas também com o encarecimento também dos combustíveis, se viu obrigado a aumentar sua jornada diária de trabalho a 14 horas diárias. “Estou trabalhando mais”, disse o taxista.  

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