Da'Shaunae Marisa/The York Times - 2/6/2020
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coluna

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Pandemia pode marcar uma geração de mães que trabalham

Para muitas delas, a reabertura gradual da economia não resolve problemas, mas os agrava; mulheres são mais propensas a perder o emprego e a suportar a carga das creches e escolas fechadas

Patricia Cohen e Tiffany Hsu, The New York Times

04 de junho de 2020 | 13h00

Trabalhar durante a pandemia de covid-19 significou coisas muito diferentes para Virginia Dressler e para Brandon, seu marido. Enquanto ele, motorista de entregas, continuava com suas rotas perto de casa, em Newbury, no Estado norte-americano de Ohio, ela passava os dias cuidando dos gêmeos de 3 anos. Somente depois que o marido chegava em casa, às 18h, ela podia voltar ao trabalho de bibliotecária de projetos digitais na Universidade Estadual de Kent, terminando seu turno de oito horas por volta das duas da manhã.

Mais tarde, ele foi dispensado e assumiu algumas das responsabilidades de cuidar das crianças. Mas, agora, com a reabertura da economia, a perspectiva ser convocada de volta ao campus enche Virginia de mais ansiedade: as creches estão apenas começando a reabrir, com muitas restrições, quem cuidará de seus filhos?

“Todas essas coisas estão girando na minha cabeça”, disse. “Estamos tentando bolar o plano A, o plano B e o plano C”.

À medida que a pandemia vira a vida profissional e doméstica de cabeça para baixo, as mulheres ficam com uma enorme parcela do ônus: elas são mais propensas a perder o emprego e a suportar a carga das creches e escolas fechadas. 

Para muitas mães que trabalham fora de casa, a reabertura gradual não resolve seus problemas, mas os agrava - forçando-as a parar de trabalhar ou a trabalhar em meio período e multiplicando suas responsabilidades dentro de casa. O impacto pode durar a vida inteira, reduzindo o potencial de ganhos e as oportunidades de trabalho.

“Talvez tenhamos toda uma geração de mulheres prejudicadas”, disse Betsey Stevenson, professora de economia e políticas públicas da Universidade de Michigan, a respeito das mães e mulheres grávidas que trabalham e cujos filhos são jovens demais para cuidar de si mesmos. “Existe o risco de elas passarem uma quantidade significativa de tempo fora do mercado de trabalho, e suas carreiras podem simplesmente se retrair em termos de promoções”.

O revés ocorre num momento marcante. Em fevereiro, pouco antes do início do surto de coronavírus nos Estados Unidos, as mulheres trabalhadoras atingiram uma marca excepcional: chegaram a constituir mais da metade da força de trabalho civil não agrícola do país. 

Ainda assim, elas continuam fazendo uma parte desproporcional do trabalho em casa. Entre os casais que trabalham em período integral, as mulheres são responsáveis por quase 70% dos cuidados infantis durante o horário normal de trabalho, de acordo com uma pesquisa econômica recente. Esse fardo se avolumou quando as escolas e outras atividades fecharam as portas e a ajuda de serviços de limpeza e babás se reduziu.

“Essa pandemia expôs algumas fraquezas da sociedade americana que sempre estiveram aí”, disse Betsey, ex-economista-chefe do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos, “e uma delas é a transição incompleta das mulheres para papéis verdadeiramente igualitários no mercado de trabalho”.

Os pais dos Estados Unidos quase dobraram o tempo dedicado à educação e às tarefas domésticas de antes do surto de coronavírus, de 30 para 59 horas por semana, com as mães gastando, em média, 15 horas a mais do que os pais, de acordo com um relatório do Boston Consulting Group. Mesmo antes da pandemia, as mulheres com filhos eram mais propensas do que os homens a se preocupar com suas avaliações de desempenho no trabalho, com seu bem-estar mental e a dormir menos horas.

As desigualdades que já existiam agora estão “anabolizadas”, disse Claudia Goldin, professora de economia da Universidade de Harvard.

E, como os locais de trabalho tendem a recompensar as horas registradas, disse ela, as mulheres têm uma desvantagem adicional. “À medida que o trabalho se desenvolve, os maridos têm uma vantagem”, disse Claudia, e se o marido trabalha mais, a esposa terá de trabalhar menos.

As responsabilidades familiares e os salários mais baixos sempre empurraram as mulheres para fora da força de trabalho. As mulheres costumam perder ou deixar empregos para cuidar de uma criança doente ou parente idoso.

Salários baixos dificultam que se justifique a troca da casa pelo trabalho, mesmo que a perda de um segundo salário possa diminuir o padrão de vida da família. Nos países que proporcionam um apoio mais abrangente às famílias - como Alemanha, França, Canadá e Suécia - uma proporção significativamente maior de mulheres permanece no mercado de trabalho.

Com as creches e acampamentos de verão fechados e as constantes preocupações com a saúde de avós e outras pessoas que muitas vezes compõem a rede informal de cuidado com as crianças, algumas mulheres que trabalham não terão outra opção a não ser desistir do emprego. Também não está claro se as escolas abrirão com uma rotina regular ou com horários escalonados e de meio período.

Para mães solo, a pressão é ainda mais intensa. O salário de Karin Ann Smith mal cobria suas despesas quando ela estava trabalhando como funcionária terceirizada no Departamento de Educação dos Estados Unidos. Ela tinha muitas despesas médicas com o filho de 13 anos, que tem uma condição que o deixa constantemente cansado e com dor, além dos empréstimos estudantis de seus dois diplomas de pós-graduação, mais US $ 1.650 por mês de aluguel de um apartamento em Jupiter, Flórida.

Depois que Karin Ann, de 52 anos, foi demitida, em meados de março, ela ficou tão sobrecarregada que se escondia no banheiro com o chuveiro ligado para recuperar o fôlego. Ela só recebeu o seguro-desemprego depois de dois meses da inscrição - e após mandar mensagens para todos os funcionários públicos que encontrou no LinkedIn. 

O proprietário de seu apartamento ameaçou despejá-la, mas ela conseguiu ajuda de aluguel com o condado. Suas economias de US$ 500 evaporaram rapidamente. Então ela solicitou vale-refeição, vendeu alguns brinquedos antigos no Facebook e chegou a receber pequenas doações de desconhecidos no Twitter.

Karin Ann não acha que conseguirá um novo emprego antes do outono no hemisfério norte - quando já terão se esgotado seus benefícios do auxílio-desemprego.

“É pesado demais - não consigo pensar em mais nada”, disse. “Não tenho ajuda. Não tenho descanso. Quando você tem medo de perder o teto para morar, quando é algo tão fundamental, você não consegue pensar em mais nada, não consegue saber se sua carreira está no caminho certo ou se seu currículo é bom”.

Apesar das terríveis escolhas com que se deparam muitas mães que trabalham, vários economistas ainda têm esperança de que o aumento da pressão sobre as famílias possa - a longo prazo - forçar mudanças estruturais e culturais que venham a beneficiar as mulheres: um sistema de assistência à infância mais robusto, arranjos de trabalho mais flexíveis e mais valorização, por parte de parceiros que estão em casa pela primeira vez na vida, da esmagadora demanda que é cuidar de uma família com filhos.

“Descobrimos que os homens que podem trabalhar de casa realizam cerca de 50% a mais do cuidado com as crianças do que homens que não podem”, disse Matthias Doepke, economista da Universidade Northwestern e coautor de um estudo recente sobre o efeito desproporcionalmente negativo do surto de coronavírus sobre as mulheres. “Isso pode, finalmente, promover a igualdade de gênero no mercado de trabalho.”

Empresas como Salesforce, PepsiCo, Uber e Pinterest assinaram recentemente uma promessa de oferecer mais flexibilidade e recursos para os pais que trabalham, e muitas outras empresas abrandaram suas posições em relação ao teletrabalho. Mudanças de escala e menos viagens de negócios também tendem a se tornar mais comuns.

“Os efeitos desse choque” - tanto os bons quanto os ruins - “provavelmente se estenderão para além da atual epidemia”, disse Doepke. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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