Paulo Araújo/Estadão
Crise sem fim: Taxista carioca Márcio Antônio do Nascimento Silva, de 57 anos: ele perdeu o filho do meio e teve de parar de trabalhar durante a pandemia Paulo Araújo/Estadão

Pandemia tira R$ 14,3 bilhões por ano das famílias

Além da tragédia familiar, muitas pessoas que perderam parentes para covid-19 poderão entrar na linha da pobreza, diz estudo da FGV

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2021 | 05h00

Além da inestimável perda emocional, as mortes por covid-19 já enxugaram a renda potencial das famílias em R$ 14,3 bilhões por ano. Esse é o ganho que as pessoas de 20 anos ou mais que não resistiram à doença teriam, caso seguissem recebendo suas remunerações, na estimativa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV)

Diferentemente da queda de renda provocada pela perda de um emprego, que pode ser recuperada no futuro, com novos empregos ou aumentos de salário, esses valores precisarão ser recompostos por outros membros das famílias, colocando-as sob o risco da pobreza.

Os cálculos do estudo, que está para ser publicado e foi obtido pelo Estadão/Broadcast, foram atualizados na quinta-feira, quando o total de mortos por covid-19 estava em 557 mil. Isso significa que a segunda onda da pandemia, que já matou mais neste ano do que a primeira em 2020, elevou as perdas da renda potencial em 180%. A versão inicial do estudo, de janeiro, calculava as perdas em R$ 5,1 bilhões, levando em conta o número de mortes registradas até meados de janeiro.

“Tem tanta gente desempregada, mas essas pessoas não necessariamente serão capazes de substituir no mercado de trabalho aqueles que morreram. Sem contar a questão humanitária. É um desastre”, diz Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais do Ibre/FGV e responsável pelo levantamento.

O taxista carioca Márcio Antônio do Nascimento Silva, de 57 anos, teve que se reinventar financeiramente por causa da crise causada pela pandemia. Ele já enfrentava um drama de saúde com o filho mais velho, de 30 anos, e perdeu o filho do meio, Hugo, aos 25, para a covid-19, em abril do ano passado. 

Nos primeiros meses da pandemia, além da tragédia familiar, o taxista ficou sem trabalhar. Conseguiu receber a primeira rodada do auxílio emergencial do governo federal, mas, sem os ganhos com o táxi, a renda familiar de Márcio caiu quase à metade. Ele mora em Copacabana, na zona sul do Rio, com a esposa, funcionária pública municipal, e o filho caçula, de 16 anos. Só que ele ajuda também a família do filho mais velho, vítima de uma paralisia parcial decorrente da chikungunya, que contraiu em 2018. Com a morte de Hugo, passou a ajudar o neto, de 6 anos. De repente, se viu diante da necessidade de ajudar a sustentar três lares. 

“Minha esposa tem trabalho fixo, mas não dava para sustentar três famílias. O que eu tive foi muita ajuda dos amigos, que colaboraram financeiramente”, conta o taxista, que passou a trabalhar com compras de supermercado, usando aplicativos que oferecem o serviço, e a fazer corridas agendadas de táxi, para conhecidos. “Hoje, 80% dos ganhos vêm do serviço de compras de supermercado”, diz Márcio, que voltou a trabalhar com o táxi em setembro do ano passado.

Renda per capita

A escalada da pandemia neste ano, agravada em março e abril, não mudou o padrão de concentração das perdas financeiras em São Paulo e no Rio de Janeiro. Dos R$ 14,3 bilhões enxugados em rendimentos das famílias, R$ 5,8 bilhões foram perdidos nos dois Estados. São Paulo somou uma perda de R$ 4,2 bilhões, cerca de 30% de toda a renda potencial perdida.

“A renda per capita vai ser, ainda que marginalmente, afetada por essas pessoas que se foram e deixaram de gerar renda. E aquelas outras pessoas que dependiam da renda desses familiares e cônjuges vão ficar mais pobres”, diz o economista Fabio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

A estimativa da FGV considerou a massa de rendimentos mensais totais das pessoas falecidas, incluindo aposentadorias. A perda prematura de aposentados afeta especialmente as famílias mais pobres, que muitas vezes têm na aposentadoria dos mais idosos uma importante fonte de renda. 

No primeiro trimestre de 2021, três em cada dez lares brasileiros viviam sem nenhuma renda do trabalho, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Devido à crise, a proporção de domicílios sem renda de trabalho passou de um quarto, no primeiro trimestre de 2020, para quase um terço, no primeiro trimestre de 2021.

“Tem muitos casos em que os idosos moram com filhos e netos. A perda dessa aposentadoria nem sempre dá direito à pensão, então, isso pode afetar o rendimento domiciliar dos mais vulneráveis”, diz Sandro Sacchet de Carvalho, pesquisador do Ipea.

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Perda ‘secundária’ de renda torna luto pior, diz psicóloga

Embora a dor emocional com a morte de pessoas independa da renda, a perda de renda pode atrasar a recuperação de um luto

Vinícius Neder, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2021 | 05h00

Os problemas financeiros são comuns entre as pessoas em luto por causa da covid-19, na experiência da psicóloga Samantha Mucci, professora do Departamento de Psiquiatria da Unifesp e coordenadora do Programa de Acolhimento ao Luto (Proalu). 

Desde o início da pandemia, o Proalu oferece, de forma voluntária, atendimento psicológico, tanto na capacitação de profissionais de saúde quanto no apoio direto a pessoas enlutadas. Entre os 376 pacientes já atendidos, há jovens que perdem os pais e se veem obrigados a buscar renda extra ou deixar os estudos; mulheres que não têm mais com quem deixar os filhos para trabalhar; e pessoas que perdem um ente querido de quem recebiam ajuda financeira.

Segundo a psicóloga, embora a dor emocional com a morte de pessoas queridas independa da renda, a “perda secundária” de ter de lidar com dificuldades financeiras pode tornar o luto ainda mais doloroso. 

No caso da escrevente Érica dos Santos Nhoque Tuma, de 41 anos, a crise já havia atingido em cheio sua família quando seu marido, Felipe, de 39 anos, ficou oito meses sem emprego, mas tudo piorou há pouco mais de um mês, quando ele pegou covid-19 e morreu. Érica, que já tinha cortado gastos, aceitado ajuda dos pais e buscado renda extra, vendendo ovos e máscaras na rua, viu-se sozinha com o filho de 2 anos. Só com o salário no cartório em que trabalha, em São Paulo, a renda caiu a um terço.

A família morava de aluguel no Jaraguá, zona norte da capital. Com a morte do marido, Érica não viu saída, a não ser mudar para a casa dos pais. “Sozinha, não ia conseguir manter uma criança e uma casa”, diz.

A morte de Sarah, mãe da estudante de psicologia Adriane Alves Costa, de 26 anos, vítima da covid-19 em março, também virou sua vida de cabeça para baixo. Ela tinha 41 anos, não trabalhava, mas cuidava de toda a estrutura financeira do lar, onde morava com o marido e três filhos. Adriane já tinha saído de casa, morava com o marido e a filha de três anos, mas contava com a mãe para tomar conta da neta enquanto trabalhava como atendente de telemarketing, em São Paulo.

A renda da casa da mãe dela era garantida pelo trabalho do padrasto, mas, sem Sarah, ele não conseguiu dar conta do sustento. Os três irmãos mais novos de Adriane foram morar com a família – dois com a avó, e o caçula com Adriane. Sem o apoio da mãe para cuidar da filha, com as creches ainda fechadas, Adriane deixou o emprego. “Sem trabalhar, não tem dinheiro para pagar a faculdade. Tive de parar”, afirma.

O sustento do lar ficou todo com o marido, que trabalha na indústria, e com a ajuda de custo dada pelo pai do irmão caçula. Além de gastar mais com alimentos, a família, que mora de aluguel em Cidade Tiradentes, na zona leste da capital, foi obrigada a interromper a construção da casa própria, para onde planejava se mudar.

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