TIAGO QUEIROZ/Estadão
Com queda de renda, reação da classe média será cortar mais despesas   TIAGO QUEIROZ/Estadão

Pandemia tira R$ 247 bi do consumo da classe média no ano, mostra estudo

Segundo levantamento do Instituto Locomotiva, valor que deixará de ser usado na compra de produtos e serviços supera o PIB de países como Paraguai e Bolívia

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 04h00

BRASÍLIA - A pandemia do novo coronavírus atingiu em cheio o orçamento da classe média brasileira. Em meio ao aumento de despesas e à redução da renda, as famílias dessa faixa vão deixar de consumir R$ 247 bilhões em produtos e serviços em 2020. O cálculo faz parte de um estudo feito pelo Instituto Locomotiva com exclusividade para o Estadão/Broadcast.

No ano passado, a classe média brasileira foi responsável por um consumo de R$ 2,6 trilhões, o que representou 60% do total no País. Em 2020, considerando a retração econômica durante a pandemia e as perspectivas para a renda e o emprego até o fim do ano, o instituto calcula que o gasto dessa classe será R$ 247 bilhões menor.

A estimativa foi feita com base em dados primários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O que a pandemia vai tirar do bolso da classe média brasileira supera o PIB de países vizinhos como Uruguai, Paraguai e Bolívia (com base em dados de 2019).

No cálculo, o instituto considerou que a “classe média tradicional” é formada pelas faixas B, C1 e C2, que possuem renda média per capita mensal variando de R$ 667,87 a R$ 3.755,76. Esta fatia das famílias representa 51% da população. Ao todo, são 105 milhões de pessoas.

A diminuição do consumo está diretamente ligada aos efeitos econômicos da pandemia sobre essa parcela da população. “A classe média não recebeu o auxílio emergencial, como a baixa renda, e não tinha poupança, como a alta renda”, explica o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles. “Assim, ela viu uma pressão grande sobre seu orçamento.”

Para qualificar o impacto, o instituto realizou uma pesquisa por telefone com 1.700 brasileiros de classe média com 16 anos ou mais, entre os dias 5 e 9 de outubro. Foram ouvidas pessoas de todo o País. A margem de erro dos resultados é de 2,4 pontos porcentuais, para um intervalo de confiança de 95%.

Desemprego

Mais da metade dos consultados na pesquisa declarou que sua renda diminuiu durante a pandemia. Além disso, 35% acreditam que a renda continuará recuando após a enfermidade. Entre os integrantes da classe média que estão na iniciativa privada – portanto, que não possuem estabilidade funcional como os servidores públicos –, 64% disseram ter medo de perder o emprego.

Esses dados permitem compreender o tamanho do desafio que será, para o governo, fazer a economia se recuperar nos próximos meses. Com medo do desemprego, renda menor e gastos maiores em várias áreas, a reação natural da classe média será apertar o cinto.

Para o pesquisador da área de Economia Aplicada do Ibre-FGV Daniel Duque, houve uma redução na distância entre os rendimentos da classe média e dos mais pobres durante a pandemia. “Após a última recessão, as classes mais altas tiveram uma recuperação de renda proporcionalmente maior que os mais pobres, a partir de 2016. Houve uma redução da desigualdade social durante a pandemia, mas vai haver uma volta à situação anterior ou até pior, porque o mercado de trabalho penalizou mais os mais pobres. Além disso, a perspectiva de um novo programa social ficou mais distante”, completa ele, em referência ao Renda Brasil, programa substituto do Bolsa Família, que deve ser discutido pelo governo e Congresso só depois das eleições municipais. 

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Sem renda, classe média corta plano de saúde e escola

Itens estão entre as principais despesas revistas por famílias, diz pesquisa; 35% disseram que dispensaram empregadas ou babás

O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 04h00

A professora de Português e Literatura Luciana Cerqueira, de 45 anos, está com as mensalidades da escola do filho atrasadas desde junho. Sem outra alternativa, ela decidiu que terá de colocar Théo, de 8 anos, na rede pública de ensino. Tendo de arcar com todas as despesas da casa, depois que o seu companheiro deixou de fazer trabalhos freelancers como técnico em informática e garçom por causa da pandemia, ela se viu em um mar de dívidas.

De acordo com pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva para o Estadão/Broadcast, Luciana faz parte dos 53% da classe média que tiveram de passar a tesoura em pelo menos um de três serviços durante a pandemia: a manutenção de plano de saúde, a contratação de empregada doméstica ou de babá e o pagamento de mensalidade de escola particular. O porcentual diz respeito apenas à população que tinha, antes da covid-19, pelo menos um desses serviços.

Luciana cita o aumento de preços de produtos básicos nos supermercados, da conta de energia elétrica por causa do longo período dentro de casa e dos gastos com máscaras e álcool em gel. 

“Isso contribuiu muito para que eu não conseguisse mais pagar a escola. Tentei renegociar algum desconto, eles não deram. Sei que ano que vem, infelizmente, ele (o filho) não vai continuar”, disse Luciana, que paga R$ 650 mensais.

Na sexta feira, o IBGE informou que o IPCA, indicador que mede a inflação oficial do País, avançou 0,86% no mês passado. Foi a maior taxa para o mês de outubro desde 2002. 

Mais do que o resultado fechado em outubro, o IBGE identificou também um aumento do chamado “índice de difusão”, que mede a proporção de itens com alta de preços diante do total monitorado.

Segundo o IBGE, esse índice foi de 68% em outubro (ante 63% em setembro e 55% em agosto), o maior do ano. Os alimentos puxaram esse espalhamento de reajustes, mas a continuidade do avanço da difusão na passagem de setembro para outubro sugere que o movimento foi além dos alimentos, incluindo também itens como eletrodomésticos e alguns ramos de serviços.

Contas em atraso

A pesquisa da Locomotiva mostra que 64% dos brasileiros da classe média estão com alguma conta em atraso. São mais de 56,3 milhões de pessoas que não conseguem chegar ao fim do mês com os boletos em dia. Entre eles, a média de contas atrasadas chega a 4,3. Ainda assim, dois em cada três brasileiros dessa faixa de renda evitam recorrer aos bancos para conseguir reorganizar o orçamento doméstico.

No caso específico das mensalidades escolares, 15% dos consultados disseram que não foi possível manter o pagamento durante a pandemia. Para 35%, dispensar empregadas ou babás foi uma forma de tentar controlar o orçamento, enquanto 19% tiveram de cancelar planos de saúde.

Quando a pandemia começou, Romulo Mathias, de 34 anos, trabalhava há um ano como programador de produção terceirizado em uma empresa do setor da aviação em Petrópolis, no Rio, mas foi demitido em março. Ficou a cargo da sua noiva, Cintia Queli Cecílio, de 35 anos, segurar as despesas do casal. Ela trabalha em um pequeno escritório de contabilidade.

Livros e a assinatura de televisão foram os primeiros a saírem da lista de despesas da casa. Depois, nem mesmo o plano de saúde do casal, item essencial para Mathias e Cintia, passou ileso. “A minha noiva tem endometriose e toma um remédio religiosamente, mas todo ano precisa fazer uma ressonância para ver se a doença não se alastrou”, conta. Sem o plano de saúde, o exame ainda não foi feito neste ano. “Com a ajuda do avô dela, conseguimos pagar uma consulta com uma especialista, mas foi só.”

Sem conseguir novo emprego fixo, Mathias investiu em suas redes sociais e começou a fazer lives sobre jogos eletrônicos no Twitch, plataforma voltada aos fãs do gênero, para ajudar nas finanças. Pelo canal, ele começou a pedir doações aos jogadores. Até o momento, eles arrecadaram quase R$ 300 para a ressonância, que custa entre R$ 800 e R$ 900 na região onde moram.

"Precisamos do dinheiro porque Cintia não pode depender do SUS, mas para um trabalhador da classe média, esse é o valor de um salário mínimo", conta. Mas Mathias está otimista e acredita que por meio das doações, conseguirá ajudar a noiva. "Espero poder retribuir todos que têm nos ajudado assim que for possível", diz.

Aluguel

“O custo de vida tem subido”, resume Sérgio Firpo, professor de Economia do Insper, de São Paulo. Segundo ele, a alta dos preços de alguns alimentos durante a pandemia, na esteira do avanço do dólar ante o real, acabou por afetar o IGP-M. Como índice é a principal referência para os reajustes nos contratos de aluguel, morar também ficou mais caro. 

No acumulado de 12 meses até outubro, o IGP-M já registra uma variação de 18% – muito acima do IPCA. “Duas em cada dez famílias pagam aluguel no Brasil. E isso independe de qual classe social você está, se na média ou na baixa”, afirma Firpo. “Então, sabemos que 20% das famílias vão ter aumento no custo de vida.” .

:::: QUATRO PERGUNTAS PARA.... Renato Mairelles, presidente do Instituto Locomotiva::::

1. O que aconteceu com a classe média na pandemia?

A classe média não recebeu o auxílio emergencial, como a baixa renda, e não tinha poupança, como a alta renda. Assim, ela viu uma pressão grande sobre seu orçamento. E, como muitos integrantes da classe média trabalham em profissões em que é possível fazer home office, muitos dos gastos da casa também subiram, o que explica haver aumento das contas em atraso.

2. Parte da classe média recebeu o auxílio dado pelo governo quando houve redução de jornada e salário. Mas o valor não compensou toda a perda salarial ocorrida?

Se a pessoa está em um emprego formal, sim, ela recebeu. Mas e o advogado? A dentista? O salão de classe B que ficou fechado? O dono de bar? O pequeno empresário sofreu muito. Nós fizemos uma pesquisa sobre financiamento e descobrimos que somente 6% dos empresários conseguiram algum tipo de ajuda, de refinanciamento.

3. Qual a consequência da perda de renda da classe média para as demais?

A classe média teve menos proteção que a baixa renda, mas qual é a consequência dessa vulnerabilidade? A pessoa manda embora a empregada doméstica. O resultado disso na baixa renda é a perda do emprego. Em um caso, estamos falando de uma situação em que a pessoa terá de comprar menos roupas. Em outro caso, falamos de alguém que vai passar fome. A classe média sofreu um impacto direto no seu consumo e, como é o maior mercado consumidor do Brasil, acabou gerando efeitos nas outras classes, em especial na baixa. 

4. A classe média foi uma grande base de apoio para a eleição do presidente Jair Bolsonaro em 2018. Ao avaliar o que está ocorrendo com ela neste momento, o senhor acredita que o apoio vai mudar?

Temos visto um movimento de mudança gravitacional da base de apoio de Bolsonaro. Do mesmo jeito que o programa Bolsa Família trouxe um conjunto de votos para o presidente Lula no passado, o auxílio emergencial abaixou a renda média do bolsonarista. A classe média tradicional foi a que, no início da pandemia, mais atacou as ações do governo, porque a covid-19 chegou primeiro até ela. O que vimos foi um aumento do descontentamento da classe média em relação às medidas do governo. Esta classe média é mais crítica, por exemplo, quando surge a polêmica em relação às vacinas. Essa mesma classe média tem uma dificuldade enorme de entender o auxílio emergencial para os mais pobres, porque ainda tem uma visão estereotipada das classes baixas. / FABRÍCIO DE CASTRO, EDUARDO RODRIGUES, MARINA ARAGÃO e MAIARA SANTIAGO

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