Jessica Phelps/The New York Times - 9/5/2019
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Pânico de recessão nos EUA passou, mas a economia ainda corre risco

Fatores que motivaram temores ainda estão presentes, como os resultados da indústria e da construção não residencial e a guerra comercial com a China

Neil Irwin, The New York Times

11 de outubro de 2019 | 11h53

Por um breve, mas assustador momento no último trimestre, a palavra “recessão” foi pronunciada por todo mundo, assunto de programas de TV, artigos de capa e buscas no Google.

Então, abruptamente, tudo começou a parecer em ordem. A guerra comercial entre Estados Unidos e China entrou em mais uma das suas fases periódicas de arrefecimento, com o governo Trump inquieto com a possibilidade de uma desaceleração da economia. O Federal Reserve, banco central americano, cortou duas vezes os juros, adotando uma política de proteção contra a recessão. Em sua maior parte, os dados da economia, particularmente do mercado de trabalho e do setor de serviços, continuaram sólidos.

E uma causa aproximada de muitos dos alertas para uma recessão, uma queda abrupta dos juros de longo prazo e uma inversão na curva de rendimentos, foi parcialmente revertida.

Crise abortada! Essa tem sido a percepção dos mercados financeiros nas últimas semanas, com as ações continuando a registrar altas recorde e o tom assustador dos comentários econômicos amenizado.

Mas seria prematuro passar um atestado de boa saúde. A atenção pública está concentrada na batalha do impeachment em Washington, mas as forças subjacentes que provocaram os temores de uma recessão ainda estão presentes, com algumas potencialmente vigentes.

O mais recente e mais severo alerta disso foram os dados da manufatura nos EUA, mostrando que o setor registrou uma contração em setembro considerada a mais forte desde 2009. Que pode ter sido provocada em parte por uma greve na General Motors, mas a debilidade no setor de fabricação é evidente em outros dados publicados antes da greve.

Por exemplo, nos últimos seis meses, o setor de manufatura nos Estados Unidos criou em média somente 3 mil vagas de trabalho por mês, uma forte queda frente aos 25 mil criados mensalmente no segundo trimestre do ano passado.

Um conjunto de dados menos observados mostrou que a manufatura não é a única área de enfraquecimento. Os gastos em construção não residencial caíram 0,4% em agosto, indicador de que as empresas não estão investindo em novos armazéns, fábricas e prédios de escritórios como estavam há alguns meses.

Há uma tendência a pensar que a inquietação econômica causada pelas guerras econômicas é como um interruptor de luz - algo que o presidente pode ligar e desligar. Alguns até chamam isso de Trump Put, referência a um contrato financeiro que protege contra grandes perdas. Uma suposição de que o governo acalmará as tensões comerciais se elas começarem a afetar de maneira muito negativa o mercado acionário ou a economia.

Como verificamos nas últimas semanas, existe um fundo de verdade. O auge dos temores de uma recessão em agosto parece ter resultado num tom mais conciliador da parte do governo, mesmo se avanços concretos nas negociações comerciais não estejam de fato evidentes.

Mas a economia americana, de US$ 20 trilhões, anda em marcha lenta e, do mesmo modo que a disputa comercial entre as duas maiores economias do mundo não causou um grande estrago da noite para o dia, tampouco um tom mais conciliador colocará tudo de novo nos eixos. 

Estamos apenas começando a ver o impacto econômico atrasado de uma série de escaladas no campo comercial durante o verão do hemisfério norte e um desaquecimento na economia global. Isso começa a ser visto nos planos de contratação e de gastos de capital, como os mais recentes dados demonstram.

Há algum tempo analistas que estudam de perto a política federal vêm insistindo para as empresas considerarem os transtornos comerciais não como manchetes pontuais, mas um custo continuado de realizar negócios globalmente.

“Esse é o conselho que estamos dando aos clientes e o que vimos fazendo a algum tempo”, disse Scott McCandless, líder de política comercial na empresa de contabilidade PwC. “Sejam realistas quanto a esse fato. Isso provavelmente vai durar por algum tempo”, alertamos.

E há razões para olhar com ceticismo os sinais aparentemente otimistas emitidos pelos mercados financeiros. Os juros sobre títulos do Tesouro com prazo de 10 anos caíram de 2,07% em julho para 1,45% no início de setembro, uma queda drástica, para depois registrar uma recuperação para 1,64%. As grandes oscilações podem ser atribuídas aos fluxos globais de capital que não refletem necessariamente a perspectiva econômica nos Estados Unidos.

Mas não significa que não há nenhuma sinalização nesse ruído. Juros de longo prazo menores significam crescimento e inflação menores nos Estados Unidos nos próximos anos. Embora o mercado de títulos esteja mais estável, os rendimentos estão de acordo com a economia americana, num ritmo mais lento do que nos últimos anos, embora não a nível de uma recessão.

Mas o mercado é sempre mais lento para refletir um cenário econômico em mudança. Quando surgiram as primeiras reverberações da que se tornou uma crise financeira global, em agosto de 2007, o mercado acionário na verdade atingiu picos de alta no mês outubro daquele ano. A economia descambou para a recessão em dezembro.

“As luzes ainda não apagaram no tocante à perspectiva econômica, mas certamente estão ficando cada vez mais tênues”, disse Chris Rupkey, economista chefe do MUFG Union Bank, em nota de pesquisa aos clientes.

Uma recessão não é a conclusão inevitável, e um período de crescimento lento parece mais provável do que uma total contração. Mas o fato de a recessão ter deixado de ser notícia não significa que está tudo bem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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