Pão de Açúcar reforça poder de barganha com fornecedores

A união de Pão de Açúcar e Casas Bahia no setor de bens duráveis reforçará o poder de compra do grupo de Abílio Diniz em um momento em que as vendas no varejo mostram forte crescimento e em que a companhia busca impulsionar suas operações com outros produtos além de alimentos em supermercados.

ALBERTO ALERIGI JR., REUTERS

04 de dezembro de 2009 | 17h38

O acordo quase triplica a área de vendas do conglomerado em móveis e eletrodomésticos, além de mais que dobrar o número de lojas no segmento para 1.015. A associação também reforça a operação Ponto Frio/Extra-Eletro do Pão de Açúcar com uma carteira de mais de 30 milhões de clientes.

O presidente-executivo do Pão de Açúcar, Claudio Galeazzi, não citou números, mas afirmou, durante o anúncio da associação das duas companhias nesta sexta-feira, que a empresa combinada "terá vantagens nas negociações comerciais e, consequentemente, poderemos oferecer preços muito melhores".

Apesar de afirmar que as empresas ainda não têm definido um plano claro de atuação após a união, que deve ser consumada em até quatro meses, Galeazzi disse que uma das opções pode ser manter as marcas Ponto Frio e Casas Bahia, com uma oferecendo produtos com preços mais altos e a outra voltada para um público com poder de compra menor.

A marca Extra-Eletro, dentro dos planos do Pão de Açúcar, já seria incorporada pelo Ponto Frio.

O Pão de Açúcar comprou a Globex, dona do Ponto Frio, em junho deste ano por 1,2 bilhão de reais em ações e dinheiro.

Pelo negócio anunciado nesta sexta-feira, a Globex vai incorporar ativos das Casas Bahia. Ao final da transação, o Pão de Açúcar terá 50 por cento mais 1 ação ordinária da Globex e as Casas Bahia ficarão com 49 por cento de participação.

Segundo o presidente das Casas Bahia, Michael Klein, a sobreposição entre as duas redes envolve cerca de 100 lojas, mas Diniz afirmou que é "normal, por exemplo, haver duas lojas das duas empresas em shoppings".

Ainda segundo Diniz e Galeazzi, a expectativa é que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprove a união das empresas, pois no varejo de bens duráveis o Grupo Pão de Açúcar ficará com menos de 20 por cento de participação em um mercado de cerca de 20 mil lojas no país.

Para o professor de marketing Silvio Laban, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), a operação "cria um líder inconteste" no mercado de varejo.

"O Pão de Açúcar fica maior do que Wal-Mart e Carrefour juntos no Brasil", afirmou, referindo-se a dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) que mostram Carrefour com faturamento de 22,5 bilhões de reais e Wal-Mart com 17 bilhões de reais no país em 2008.

As vendas do Pão de Açúcar com as Casas Bahia alcançam os 40 bilhões de reais.

AGRESSIVIDADE

No mapa, a operação amplia a atuação do Grupo do Pão de Açúcar em móveis e eletrodomésticos para Mato Grosso do Sul, onde as Casas Bahia têm cerca de 10 lojas em sete cidades. E aumenta a presença das Casas Bahia na região Nordeste, onde atualmente está apenas na Bahia. Segundo Galeazzi, o grupo como um todo é a maior rede de varejo da América Latina.

"A ideia é estarmos presentes no maior número de cidades possível. Temos muito ainda a conquistar nesse mercado no Brasil", disse Galeazzi.

O executivo mostrou admiração pela operação da agora ex-rival, que classificou de "organização extremamente enxuta". Ele afirmou que o Grupo Pão de Açúcar "talvez terá muito o que aprender sobre eficiência e produtividade com eles".

Galeazzi evitou comentar eventuais planos de cortes de trabalhadores após a conclusão do negócio, que traz expectativa de sinergias de 2 bilhões de reais.

A nova empresa formada com a união de Casas Bahia, Ponto Frio e Extra-Eletro tem 68 mil funcionários. Incluindo os empregados de supermercados e hipermercados do Pão de Açúcar, o total sobe para 137 mil.

O grupo já fechou orçamento para 2010, incluindo investimentos, mas Galeazzi afirmou que as diretrizes serão informadas apenas no próximo ano.

Quanto às parcerias mantidas por Casas Bahia e Pão de Açúcar com Bradesco e Itaú Unibanco em financiamento ao consumidor, Galeazzi afirmou que o grupo manterá "por um tempo" o relacionamento com as instituições "e depois vamos optar por um ou por outro ou alguma coisa diferente".

(Reportagem adicional de Guillermo Parra-Bernal e Aluísio Alves)

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