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Papai Noel não morreu

Meu desejo de Natal é quase que um delírio utópico: que se não neste, ao menos nos próximos natais consigamos ter construído um País melhor, menos desigual

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2020 | 05h00

Estamos às vésperas do Natal, quando se celebra o nascimento de Jesus Cristo em evocação ao amor e à paz. Neste ano de 2020, as comemorações serão diferentes. Menores e mais distantes. Em muitas famílias, elas infelizmente estarão marcadas pela perda de vidas para a covid-19. Talvez pelo peso deste difícil ano que caminha para o fim e seus impactos sobre a humanidade, as reflexões que acompanham o espírito natalino devem ganhar outros contornos. Reflexões sobre o futuro, sobre prioridades, sobre o planeta e também sobre o País que estamos construindo ganham outra dimensão.

É também nesta época do ano que números estampam estudos e notícias de jornais e se combinam para formar um retrato do que foi 2020. Além disso, o ano redondo nos convida a avaliar a década, ou mesmo os últimos 20 anos, num balanço que nos expõe a uma conclusão inevitável: o Brasil está empobrecendo e não estamos fazendo nada para reverter essa trajetória. Sem o que, define-se um futuro triste e sombrio para todos. É preciso pensar também sobre isso.

A contração esperada de cerca de 4,5% do PIB neste ano parece ser um alento frente às estimativas que chegaram a prever recuos de até 9%. Tivessem sido as medidas de estímulo (em particular o auxílio emergencial) mais calibradas e focalizadas, o mesmo efeito seria atingido com menor impacto fiscal. Mas execução não parece ser o forte deste governo, basta ver o enfrentamento à crise sanitária pelo Ministério da Saúde. A verdade é que agora temos que lidar com incertezas adicionais num campo fiscal que já vinha incerto. E incertezas custam. Além disso, em questões de crescimento um ano vale menos do que uma década pois são a tendência e a relativização os fatores que determinam o sucesso de uma trajetória, e a do Brasil definitivamente não é boa. Conforme mostrou reportagem da Folha de S. Paulo deste último domingo, em 10 anos crescemos 2,2% frente aos 30,5% de crescimento do PIB global. Se confrontado com o nosso crescimento populacional de 8,7% nesse mesmo período, essa combinação de números equivale a rolar no abismo enquanto outros países se tornaram mais fortes e sua população mais rica.

Ao mesmo tempo, a desigualdade social e as condições de vida da população brasileira vêm piorando, com maior concentração de renda e recuo no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) já em 2018. Antes mesmo, portanto, dos impactos da pandemia que sabemos agravaram essa já inaceitável situação de desumanidade e injustiça social. No recorte conjuntural, o desemprego atinge 14 milhões de brasileiros, a crise sanitária volta a acelerar colocando nova onda de pressão sobre o sistema público de saúde. Nos Estados uma falsa sensação de abundância acompanha o socorro pré e pós pandemia, como se os problemas estruturais tivessem subitamente desaparecido. Falsa ilusão que irá se abater logo ali na frente sobre a já frágil situação fiscal que, largada à sua própria sorte teima em impor restrições que o presidente da República finge temporariamente respeitar. 

Esse é o pano de fundo que deveria dominar as reflexões natalinas deste ano. Afinal, muito além de uma efêmera recuperação em V ou de uma perspectiva de crescimento no próximo ano que com sorte nos devolverá aos índices econômicos do início da década, é o destino final que deveria nos mobilizar. E esse destino, a continuarmos na mesma trajetória, equivale a mais pobreza, maiores desigualdade e injustiça social. A reversão desse quadro tem, por outro lado, suas alavancas já claramente delineadas numa agenda pisada e repisada nos últimos anos, mas cujo avanço esbarra na paralisia de um governo que nela não acredita e nas resistências de um patrimonialismo de Estado cada vez mais arraigado – e hoje reforçado por aqueles que se elegeram prometendo combatê-lo.

Vou poupar ao leitor o custo de reler aqui hoje, nesta antevéspera de Natal, uma agenda tão repetida neste espaço ao longo de todo o ano. Prefiro finalizar com um outro mantra, cuja nota é de esperança. Ainda de alma alentada pela live de Natal de Caetano Veloso, vou tomar emprestado o seu repertório (que foi quase um manifesto) para também evocar meus votos de amor e paz. Ao começar com Muito Romântico e o desentendimento lógico de quem não tem nada a ver com isso, passear pelas trevas da ditadura e nos iluminar com uma noite cristalina, Caetano canta o Natal e nos faz lembrar que ele é, acima de tudo, encantamento. Contagiada por esse encantamento, num auto acalanto inspirado no seu neto, meu desejo de Natal é quase que um delírio utópico: que se não neste, ao menos nos próximos natais consigamos ter construído um País melhor, menos desigual. Um País que seja capaz de ressuscitar o Papai Noel que morreu para tantas crianças brasileiras nesse mar de injustiças em que se transformou o Brasil. Um País em que todo mundo seja filho de Papai Noel. Que o Natal de 2020 seja o prenúncio de tempos melhores e mais justos!

* ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO  DA COLUNISTA

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