Ari Ferreira/Estadão
Ari Ferreira/Estadão

Papéis do Assaí sobem 386% na Bolsa brasileira e faz ações do GPA despencarem

Estreia do braço de atacarejo na B3 fez controladora do Carrefour perder dois terços do valor; apesar da oscilação assustadora, analistas dizem que movimento já era esperado

Talita Nascimento, Luísa Laval e Renato Carvalho, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2021 | 05h00

Ontem, a rede de atacarejo Assaí fez uma estreia de impacto na B3, a Bolsa paulista: viu seu papel disparar nada menos do que 385,73%, fechando o dia a R$ 71,40 – multiplicando por cinco seu valor ao longo do pregão, cujo valor inicial era de R$ 14,70. A rede, que é parte do Grupo Pão de Açúcar, atraiu a atenção em detrimento da controladora, que caminhou na direção inversa, perdendo quase dois terços de seu valor em um só dia e encerrando a R$ 23,33. 

Apesar da oscilação parecer assustadora, a analista da MyCap, Julia Monteiro, disse que o “movimento está dentro do esperado”. Isso porque o Assaí – assim como ocorre com outras operações semelhantes em concorrentes, como o Atacadão (parte do grupo Carrefour) – é visto pelo mercado como a “joia da coroa” da varejista. Na visão da MyCap, para o fim de 2021, a ação do Assaí pode valer entre R$ 104 e R$ 105, enquanto a previsão para o GPA (que ficou com bandeiras como Extra e Pão de Açúcar) é bem mais modesta, de R$ 30.

Diante da separação do Assaí na Bolsa, os acionistas do GPA receberam ações do atacarejo na mesma proporção de sua participação na controladora. Os franceses do Casino terão 41,2% do negócio que passou a ser negociado separadamente na B3, ou 268 milhões de ações – a mesma fatia que possuem no conglomerado como um todo. 

Segundo os analistas Robert Aguilar, Melissa Byun e Vinicius Strano, do Bank of America (BofA), estava previsto que os investidores ajustassem os múltiplos do Assaí neste primeiro pregão. Por outro lado, eles alertaram as operações que permaneceram com o GPA carregam alguns problemas, como o risco de governança e contingências atualmente estimadas em R$ 12,5 bilhões.

Analistas da XP Investimentos, Danniela Eiger, Thiago Suedt e Marco Nardini explicaram que a forte queda de GPA é justificada, uma vez que o valor relacionado ao Assaí estava concentrado no grupo. 

Para Luis Sales, da Guide Investimentos, a divisão foi um movimento positivo: “A separação da companhia em seu braço de varejo e de atacado ocorre com o objetivo de permitir que as empresas passem a operar de forma autônoma e com equipes de gestão individuais, o que promove maior desenvolvimento e crescimento de cada uma delas. (...) E facilita a mensuração de valor de mercado de cada um dos negócios.”

No fim das contas, separados, os negócios passaram a valer mais do que combinados. Na sexta-feira, a ação do GPA, ainda com o carregamento positivo do Assaí, era de R$ 84,33. Separados, os dois papéis somam R$ 94,73, considerado o fechamento de ontem – e a perspectiva ainda é de alta, em especial para a rede de atacarejo. 

Desafio digital

Enquanto o Assaí entra em uma nova fase, Belmiro Gomes, que preside a rede de atacarejo, também enfrenta um desafio: o avanço da companhia nos meios digitais.

A migração para internet já foi feita pelo principal concorrente, o Atacadão, operação da qual Gomes fez parte por 22 anos. Em 2007, ele coordenou o processo de venda da rede para o grupo francês Carrefour.  

Desde que chegou ao Assaí, há dez anos, empreendeu forte expansão: hoje, a rede tem 184 unidades, sendo que 19 foram inauguradas em 2020, em meio à pandemia de covid-19.

No mundo digital, o Atacadão adquiriu 51% da Cotabest – startup voltada para o atacado – e agora opera vendas digitais de seus produtos e também um marketplace (plataforma que vende produtos de terceiros) para pessoas jurídicas. 

Na semana passada, em sua primeira teleconferência com investidores separada do Grupo Pão de Açúcar, o executivo foi questionado da presença inexistente da companhia no mundo online. 

Ele afirmou que a empresa deve trazer novidades nesse sentido ainda neste ano. Ao Estadão/Broadcast, Belmiro Gomes disse que trabalha para “ter alguma coisa no segundo semestre, no terceiro ou no quarto trimestre”.

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