Papel de ''regulador de risco'' pode ser um risco

O plano da administração de Barack Obama de reformar a regulação e evitar novos desastres como os que quebraram a AIG e o Lehman Brothers inclui uma ideia nova e ousada: capacitar o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) a supervisionar os maiores operadores financeiros cuja falência poderia colocar em risco outras instituições e a economia.Mas alguns congressistas e economistas dizem que tornar o Fed um "regulador de risco sistêmico" seria um alto risco que o desviaria da missão principal: reanimar a economia. Eles dizem que o Fed tem parte da culpa pela crise. Junto com outras instituições reguladoras, ele não reprimiu os empréstimos hipotecários arriscados e padrões de empréstimos frouxos que desencadearam a crise.A menos que o Fed melhore sua capacidade de supervisão, "dar ao Fed mais responsabilidades neste momento é como um pai dar ao filho um carro maior e mais rápido depois que ele arrebentou o carro da família", disse Mark Williams, professor de economia e finanças na Universidade de Boston e ex-auditor de bancos do Fed.O secretário do Tesouro, Timothy Geithner, e Lawrence Summers, chefe do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, disseram em artigo publicado segunda-feira no Washington Post que o Fed se tornaria um "regulador de risco sistêmico" para "empresas grandes e interligadas cuja falência poderia ameaçar a estabilidade do sistema." Eles também criariam um conselho de reguladores, escreveram Geithner e Summers. Esses reguladores - que não foram identificados - serviriam como olhos e ouvidos extras para ajudar o Fed a supervisionar produtos financeiros. O presidente Obama pretendia anunciar o plano regulatório hoje, com audiências no Congresso amanhã.Mesmo no Fed, há reconhecimento de que seus auditores precisariam melhorar a capacidade de detectar riscos se fosse para criar um novo superpolicial financeiro. Sob o comando de Alan Greenspan, que o chefiou por 18 anos, o Fed e outras agências negligenciaram os riscos ao permitir que empréstimos hipotecários exóticos fossem para tomadores financeiramente instáveis. E eles resistiram a regular instrumentos complexos e arriscados como os derivativos."Precisamos assegurar que vamos continuar aumentando nossa competência para que ela se adapte aos problemas e desafios que enfrentaremos tanto em nosso papel de supervisão bancária como para cumprir nosso mandato tradicional de estabilidade financeira", reconheceu o presidente do Fed, Ben Bernanke, em discurso recente. Alguns parlamentares e analistas de Wall Street também estão preocupados.O presidente da comissão de assuntos bancários do Senado, Christopher Dodd, e o senador Richard Shelby, principal republicano na comissão, dizem que temem uma sobrecarga do Fed no momento em que ele está gerindo a crise e combatendo a recessão. Eles dizem que o Fed precisa se concentrar na política monetária - as decisões sobre as taxas de juros cruciais que afetam a economia.Uma ampliação dos poderes do Fed, cujos membros não são eleitos, também suscitaria preocupações com a prestação de contas. Embora o Fed procure tornar-se mais aberto, ele continua sendo uma das instituições mais fechadas de Washington.Muitos analistas concordam que um regulador potente é necessário para assegurar que as instituições não assumam os tipos de riscos que no ano passado terminaram pondo em risco o sistema bancário. Quando o American International Group (AIG) chegou à beira do colapso, no ano passado, o Fed teve de salvá-lo temendo que sua quebra devastasse a economia. Com um regulador de risco sistêmico, a ideia é que esses problemas poderiam ser identificados antes. Redes de segurança seriam impostas.Em parte por temer uma concentração de poder policial excessiva no Fed, um conselho de reguladores trabalharia com o Fed para supervisionar "companhias grandes demais para quebrar". Sheila Bair, chefe da Federal Deposit Insurance Corp., e Mary Schapiro, presidente da Securities and Exchange Commission (SEC, equivalente à CVM brasileira), apoiam a ideia.Dodd prefere um papel menor para o Fed. Segundo um assessor democrata, Dodd deve propor a destituição do Fed de sua função de supervisionar bancos autorizados por estados. Pelo plano de Dodd, o Fed se concentraria em sua missão atual de estabelecer a política monetária e ser o "emprestador em último recurso" para bancos em dificuldades.Mesmo que os poderes do Fed sejam ampliados, a história sugere que poderia ser impossível reconhecer a próxima bolha financeira - seja no setor imobiliário, no mercado acionário, ou onde for - antes de ela se formar. "Um sólido regulador de risco sistêmico é importante", disse Terry Connelly, reitor da Escola de Administração Ageno da Universidade Golden Gate, em São Francisco. "Mas ele provavelmente não captará tudo."CONTRIBUÍRAM JIM KUHNHENN E ANNE FLAHERTY*Jeannine Aversa é jornalista

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