André Dusek/Estadão
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Papel do BC não é determinar um patamar para o dólar, afirma Ilan

Em entrevista ao canal GloboNews, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, afirmou que objetivo da instituição é oferecer tranquilidade ao câmbio

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2018 | 00h23

O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, afirmou nesta quinta-feira, 5, em entrevista à GloboNews, que o objetivo da instituição no câmbio é "dar tranquilidade", e não determinar um patamar para o dólar. "Nosso papel é oferecer tranquilidade, mas não determinar o que ocorrerá no câmbio", disse Goldfajn, citando ainda as reservas internacionais, consideradas por ele como um "seguro" para o País.

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Segundo o presidente do BC, o que determina os valores dos ativos no Brasil é a capacidade de o País continuar nas reformas e ajustes e na responsabilidade fiscal, mantendo a recuperação da economia.

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Questionado a respeito do uso de swaps cambiais para segurar a taxa de câmbio nos próximos meses, durante a campanha eleitoral, Goldfajn afirmou que o BC vai oferecer "tranquilidade para que os preços de ativos reflitam a realidade brasileira". "Vamos tentar oferecer para o Brasil o uso de nossos amortecedores, para gerar maior tranquilidade", pontuou. "Vamos continuar fazendo reformas, ajustes, principalmente o fiscal, e usar instrumentos para os preços refletirem a realidade brasileira."

Ilan afirmou que a atuação do BC com swaps ocorrerá nos momentos em que não houver liquidez no mercado, e "não em preço, se (o dólar) está caindo ou subindo".

Ao mesmo tempo, ele lembrou que o câmbio tem que refletir "condições" - sejam elas melhores ou piores. "Não vamos fixar o câmbio, nem para um lado, nem para o outro", afirmou.

Inflação. Segundo Ilan, o País enfrenta "alguns choques" em sua economia, mas "certamente temporários". Na entrevista, citou o impacto da greve dos caminhoneiros sobre a inflação de junho, mas disse que o BC buscará avaliar qual será o impacto perene sobre os preços.

Ilan afirmou que apenas quando os choques "baterem na expectativa de inflação", no horizonte relevante, a Selic (a taxa básica de juros) poderá ser usada. "Vamos olhar este aumento temporário da inflação e ver o que é perene, o que fica. Nosso dever é olhar a inflação ao longo do tempo e garantir que a inflação fique baixa", acrescentou.

O presidente do BC foi questionado ainda sobre os motivos para que o Conselho Monetário Nacional (CMN) não deixasse para o próximo governo a determinação da meta de inflação em 2021. Na terça-feira passada, o CMN - formado por BC, Ministério da Fazenda e Ministério do Planejamento - estabeleceu meta de 3,75% para a inflação em 2021, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual (taxa entre 2,25% e 5,25%).

Ilan lembrou que, em 2017, já havia sido definido que o CMN definiria este ano a meta de inflação de 2021. "Isso nos permite pensar na economia brasileira de forma mais estrutural, e não conjuntural", afirmou.

Juros elevados. O presidente do Banco Central foi questionado ainda a respeito do diagnóstico, feito pela instituição em seu último Relatório de Economia Bancária (REB), sobre os motivos para que os juros ao consumidor final sejam tão elevados no Brasil. Segundo Ilan, o BC tem tomado "várias medidas na área de concorrência". "Temos que aumentar a concorrência bancária. Estamos tomando várias medidas para fortalecer as fintechs, estamos fazendo várias medidas que têm levado a mais concorrência bancária", disse.

Ilan voltou a dizer que o desejo da instituição é que o spread - a diferença entre o custo de captação dos bancos e o que é cobrado do consumidor final - caísse de forma mais rápida. Para isso, segundo ele, é preciso melhorar as condições do sistema. "Temos que fortalecer as garantias no Brasil", pontuou. "O índice de recuperação de crédito no País é de 12%. Na América Latina e no Caribe, de 30%. Na OCDE, de 70%."

De acordo com Ilan, é importante trabalhar na questão da concorrência bancária, "mas também devemos considerar que há vários componentes" para que o custo do crédito caia. Ele citou a falta de garantias, as incertezas jurídicas e os impostos altos.

Questionado se os juros elevados no País acabam por empurrar os clientes de bancos para a inadimplência, afirmou: "Isso em casos extremos". Ele citou o cheque especial e o cartão de crédito, mas lembrou que o BC atuou para limitar em 30 dias a permanência no rotativo do cartão, justamente para reduzir o risco de inadimplência. "Não podemos desprezar os movimentos que ocorreram, que vieram de forma permanente", disse. "Temos que evitar tomar medidas voluntaristas", acrescentou, em relação aos juros cobrados dos clientes de bancos.

Medidas heterodoxas.   O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, lembrou nesta quinta-feira, 5, que todos os brasileiros são detentores da dívida pública. O comentário, feito durante entrevista à GloboNews, surgiu após ele ser questionado a respeito de sugestões heterodoxas, dadas por pré-candidatos à Presidência, para reduzir os gastos com os juros da dívida pública e a própria dívida. "Todos nós somos detentores da dívida pública. Todos investimos em fundos, no Tesouro Direto", afirmou.

Ilan aproveitou para defender novamente as reformas fiscais, vistas como ele como o caminho para "colocar as contas públicas em ordem" e, no limite, reduzir a dívida pública e as despesas com juros. "Para dar tranquilidade, temos o caminho da reforma fiscal. Medidas que possam reduzir a dívida ao longo do tempo têm que ser sustentáveis", defendeu.

Questionado se o uso de parte das reservas internacionais para abater a dívida interna seria uma boa alternativa, Ilan limitou-se a dizer que as reservas são como um "seguro" para momentos de crise. "Se tivesse mais (reserva), seria mais tranquilidade ainda", acrescentou.

O presidente do BC lembrou que, em momentos de bonança, o nível das reservas costuma ser considerado alto. Em momentos de estresse, como agora, o nível não é considerado elevado.

Cartel no câmbio.   Ele negou que haja um cartel na área de câmbio no setor bancário brasileiro. Questionado a respeito do fato de empresas exportadoras estarem entrando na Justiça contra os bancos, em função de suposto cartel no câmbio, Goldfajn lembrou que o caso está sendo analisado no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). "Acho que não houve influência na taxa de câmbio, mas o Cade vai se pronunciar", disse Ilan, em entrevista à GloboNews.

Como informou o Broadcast na quarta-feira, 4, o Cade negocia novos acordos com bancos investigados por formação de cartel no mercado de câmbio. Está em negociação a assinatura de termos de compromisso com instituições que são alvo de dois processos que correm paralelamente no órgão: um que investiga um conluio de instituições internacionais que teria prejudicado o mercado brasileiro e outro que apura a formação de cartel por bancos no Brasil, que teria afetado a cotação do real.

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