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Para advogado, País vive fim de ciclo na economia e na política

Em livro, Francisco Petros avalia que o Brasil encerrou um período de 30 anos sem consolidar seus avanços

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2017 | 05h00

Nos últimos meses, não foram poucos os autores, por meio de diferentes editoras, que destrincharam, em separado, as múltiplas facetas da economia, da política e dos emaranhados da Operação Lava Jato ao longo da história recente do Brasil. O livro de artigos De Lula a Temer – O Capitalismo Inacabado é uma espécie de síntese de todos esses temas.

Isoladamente, os artigos da coletânea, escritos entre o início de 2014 e meados de 2016, pelo advogado Francisco Petros, formam um retrato factual do caldeirão institucional em que se transformou o País nesse período. Na forma como foram organizados, porém, vão além. Não são meros fragmentos do tempo ou da percepção do autor, mas o painel de uma ressaca, a análise ácida de um fim de ciclo.

“A seleção tenta fazer uma avaliação crítica dos fatos que constroem um pedaço extraordinário da história brasileira: o desfecho do período da redemocratização”, diz Petros. Detalhe: quando Petro diz “crítica” trata-se de crítica de verdade, a todos os personagens que contribuíram para o “capitalismo inacabado” que trata o livro.

É de caso pensado, por exemplo, que o título exclui o nome da presidente Dilma Rousseff. “Dilma ajudou a construir a história recente, mas é um personagem menor que, lamentavelmente, não ocupou o seu espaço”, diz Petros.

O artigo intitulado “Infanta, governante e presidente da República” resume essa percepção. Foi escrito logo após aquele domingo histórico, em que as manifestações contra o governo reuniram mais de 1 milhão em todo o País. “As demonstrações deste domingo, dia 15 de março de 2015, 30 anos após a posse do primeiro presidente civil pós-1964, não deixam dúvidas de que o País está exaurido em três dimensões: não há mais confiança no governo atual, não há mais funcionalidade do sistema político e não há mais tolerância para as práticas políticas no trato da coisa pública”, escreveu Petros, já cravando, parágrafos abaixo, a falta de força política da presidente para dar conta do momento. “A presidente Dilma está há menos de três meses da inauguração de seu segundo mandato e o ambiente é quase eleitoral – só faltam os comícios e a dinheirama a financiar os partidos.”

Lulismo. Petros reserva responsabilidades mais amplas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele lembra que a base do capitalismo é o mercado de massa, com a inclusão perene de um número maior de consumidores. Os artigos questionam a ideia de que Lula atuou de maneira efetiva no combate à desigualdade social e à criação de novas forças políticas ou econômicas capazes de consolidar, de fato, uma nova classe. “O lulismo não conseguiu incorporar a grande massa pobre, de miseráveis, dentro do processo econômico. O que houve foi aumento de consumo da classe mais baixa. Inclusão é outra coisa: um processo transformador, reformador das estruturas, e isso não ocorreu.”

Ao presidente Michel Temer, Petros reserva uma simbologia institucional. Por qualquer aspecto que se olhe, encerra-se um ciclo. Na economia, Temer traz as reformas adiadas, que são essenciais para sustentar o crescimento, mas nenhum governante teve coragem e fôlego para implementar. Enfim, ele resgata uma agenda protelada. Na política, por sua vez, promove a ascensão de um governo com quadros que já eram referência 30 anos atrás. Resgata a imagem da velha guarda. Na visão de Petros, com essa combinação, é como se o Brasil encerrasse um ciclo de 30 anos voltando ao ponto de partida.

O texto mais analítico é justamente o que fecha a coletânea e desenvolve essa ideia de fim de ciclo. “Penso que o atual governo encerrará o longo período histórico pós-redemocratização. Infelizmente a construção da democracia brasileira nos últimos 30 anos não foi um sucesso quando observada em seu conjunto”, escreve Petros no artigo “Temer e o encerramento do período pós-democratização”.

O desfecho, porém, traz uma esperança: que se o País conseguir manter, daqui para frente, o exercício constante da crítica, o tom preferido do autor, talvez consiga entrar numa fase mais construtiva. “O Estado perdeu a desenvoltura e o desenvolvimento integral do País e tornou-se mera quimera. Constatar essa realidade, de forma decidida, é o melhor caminho para alterá-la. É tarefa urgente para a política.”

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