Para analista, BC de Alexandre Tombini vai correr mais riscos

Especialista que conhece bem a instituição afirma que comunicado após o Copom foi ''doce''; fonte do governo rebate avaliação

Beatriz Abreu, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

A decisão do Banco Central (BC) de elevar a taxa Selic em 0,5 ponto porcentual foi o pontapé inicial para estimular análises de que o BC, sob o comando de Alexandre Tombini, estaria mais aberto a correr o risco inflacionário do que na gestão de oito anos com Henrique Meirelles.

Essa diferença foi estabelecida pela leitura do comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom), que, "em tom suave, quase doce", informou que o prazo para trazer a inflação para a meta de 4,5% será mais longo, o que renovou as apostas de que vem mais inflação por aí.

Essa análise, feita por uma fonte que conhece os meandros do BC, considera que a instituição pode ter perdido o timing de ajuste da Selic para controlar a inflação. Na realidade, esse ajuste deveria ser concluído em 2010, mas, por força do calendário eleitoral e da disputa por cargos no governo, foi adiado para este ano, segundo a fonte. O mercado percebeu a nova estratégia e respondeu ao comunicado com alta da taxa de juros futuros.

Em outros momentos, com um comunicado forte, o BC conseguia conter a alta dos juros em contratos futuros. Desta vez, isso não foi observado porque os que vencem durante o governo de Dilma Rousseff prometem ganhos maiores.

Essa análise é contestada por fonte do governo, embora considerada natural porque seria "função do mercado" ampliar seus ganhos. Na defesa da decisão do BC está a sintonia com Dilma. "A presidente disse que não abre mão do controle da inflação. Mas quer que o BC fique com um olho na inflação e outro no crescimento."

A diretoria do BC evitou "uma paulada" nos juros para não pôr em risco o nível da atividade econômica. Pelo raciocínio dessa fonte, de que adiantaria elevar a taxa de juros, derrubar o crescimento e, ainda assim, ter inflação alta? Há fatores sazonais, como um possível choque das commodities, que poriam todo o esforço a perder, além do fato de que a alta desses produtos não pode ser contida com a alta dos juros.

O Planalto trabalha com o cenário de que será possível ancorar as expectativas, aperfeiçoando a comunicação do BC e do próprio governo com a sociedade e o mercado - até mesmo ante a preocupação com a excessiva liquidez internacional e uma "criatividade incalculável" de operações de arbitragem (aquelas em que o investidor opera com a moeda para elevar seus ganhos).

O entendimento é que juros mais altos reforçariam o estímulo ao ingresso de novos recursos. Segundo dados do BC, até 14 de janeiro ingressaram no País US$ 5,1 bilhões.

Embora o mercado desqualifique o uso de "medidas macroprudenciais" no combate à inflação, o governo aposta nesse caminho porque são instrumentos que causam efeito imediato no mercado, como redução do volume de dinheiro nos bancos e restrições do crédito ao consumidor.

O corte nos gastos, outro aliado, é uma contenção do consumo do governo. Embora as negociações estejam "bastante difíceis" entre os Ministérios da Fazenda e do Planejamento, Dilma não quer um corte linear e tampouco ouvir análises de que o governo "cortou vento", ou seja, abriu mão de um dinheiro que não estaria disponível de qualquer maneira.

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