Para analistas, com Dilma ou com Temer, ajuste da economia será duro

Futuro. Especialistas de todos os lados do espectro econômico afirmam que, com ou sem impeachment, retomada do crescimento só se dará pelo caminho das reformas que precisam de aprovação do Congresso; desafio será costurar esse apoio no Parlamento

Alexa Salomão e Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2016 | 00h00

A polarização que se acirrou na arena política, nos últimos dias, não se reproduz na seara econômica. Apesar de os especialistas visualizarem cenários completamente distintos a partir do impeachment, há praticamente um consenso: o estrago na economia é extenso e profundo e não há ajuste fácil para nenhum dos dois lados que se dividem no impeachment, previsto para ser votado na Câmara hoje.

O economista Nelson Marconi, coordenador executivo do Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), define a situação. Quer seja com a permanência da presidente Dilma Rousseff no comando do País ou com uma eventual chegada do hoje vice Michel Temer, a retomada do crescimento só será viável pelo duro caminho de reformas que precisam de aprovação do Congresso. “E é o Congresso que está aí, né? É preciso ver quem tem uma capacidade maior de articulação para fazer essas reformas”, diz.

O Congresso assumiu um papel de responsabilidade na economia brasileira pela vasta lista de desequilíbrios macroeconômicos que precisam de reformas e apoio dos parlamentares para serem corrigidos. No topo da preocupação está a questão fiscal. Este ano, o relatório Prisma, pesquisa realizada pelo Ministério da Fazenda com bancos, corretoras e consultorias, projeta um rombo fiscal do governo central de R$ 100,4 bilhões.

Com Dilma ou Temer na Presidência da República, será preciso muita negociação com os parlamentares para desenrolar o nó político do País e, consequentemente, destravar a economia. “Em relação ao Congresso, eu sou muito cético”, diz Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV. “É preciso esperar para ver.”

Tudo o que sabemos sobre:
Dilma RousseffMichel Temer

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Eduardo Giannetti, economista e assessor de Marina Silva nas campanhas de 2010 e 2014

<u><strong>DILMA</strong></u></p>

O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 23h59

‘Economia vive hemorragia’

“A continuidade do governo Dilma é extremamente preocupante. A economia está vivendo uma hemorragia. Existe uma perspectiva de colapso, com o aumento do desemprego e com a perda de conquistas sociais fundamentais nas últimas décadas. Há um descontrole das finanças públicas, levando a dívida pública para uma trajetória explosiva. No caso de o governo continuar, com o papel que o Lula vem assumindo, vejo uma política econômica mais pragmática. Uma aventura, como a nova matriz econômica, dificilmente seria sancionada pelo Lula depois que os resultados começaram a surgir. E a Dilma insistiu além do limite do razoável.”

TEMER

‘Pode preparar o terreno’

“O Michel Temer vai receber dos agentes econômicos o benefício da dúvida e desfrutar de um período de lua de mel. Não sei quanto tempo dura essa lua de mel e o que vem depois dela. Se, nesse período, o Temer conseguir dar indicações consistentes de que é capaz de implementar reformas e colocar a dívida pública numa situação mais equilibrada, acho que ele pode ser bem-sucedido e preparar o terreno para que o próximo governo dê início a um processo consistente de melhora da vida dos brasileiro. Estou me baseando no documento ‘Uma Ponte para o Futuro’. Se ele conseguir implementar parte do programa, terá prestado um serviço relevante.”

 

Tudo o que sabemos sobre:
LulaFuturo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV)

<u><strong>DILMA</strong></u></p>

O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 23h59

‘Será um 3º mandato de Lula’

“Num primeiro momento, os mercados vão reagir mal. A bolsa cai. O câmbio desvaloriza. As pessoas vão vender Brasil. Hoje, uma parte grande das pessoas acha que haverá transição e se o impeachment não ocorrer, os preços vão reverter. Depois, não me parece que aí vamos ter um governo da Dilma. Vamos ter o terceiro mandato do presidente Lula. Ele não vai dobrar a aposta na irresponsabilidade fiscal. Vai tentar arrumar a casa do jeito que dá. O discurso para a base tem sido ‘vamos dar mais crédito’, ‘fazer gastos’, mas não acho que vai fazer isso. Mas dificilmente conseguirá avançar no que importa, nas reformas. Vai fazer muito pouco.”

TEMER

‘A lua de mel será curta’

“Vamos ter é um ganho de expectativa, com uma lua de mel do mercado com o Temer. Aí, talvez seja possível que ele consiga aprovar uma CPMF, para dar uma respirada. Mas vamos ter de ver a dinâmica da política. A grande dúvida é qual o espaço legislativo que ele terá para arrumar a casa. Lá atrás, na hora que o Joaquim Levy assumiu a Fazenda, os mercados precificaram a favor, os preços melhoraram, as coisas melhoraram, mas em agosto, quando ficou claro que nada mudava, tudo voltou. No caso do Congresso, sou muito cético. Temos de esperar. Se Temer não tiver espaço para fazer muito, lá por 2017 a ficha do mercado cai.”

Tudo o que sabemos sobre:
BrasilLulaJoaquim Levy

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Marcio Pochmann, professor da Unicamp e presidente da Fundação Perseu Abramo

<u><strong>DILMA</strong></u></p>

O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 23h59

‘Ela e Lula tiram País da crise’

“Nós temos de analisar duas circunstâncias. Se Dilma ficar porque conseguiu os 172, vai dar uma demonstração de força, mas se for porque a oposição não alcançou os 342, veríamos a fraqueza da oposição. São situações diferentes, que criam cenários diferentes. Mas, de qualquer maneira, estou convencido de que o quadro econômico é grave e que apenas Dilma, com apoio de Lula, pode dar uma saída mais rápida para essa crise. Juntos, eles conseguem reorganizar a maioria no Parlamento e repactuar com o setor privado uma saída da recessão. Haveria um realinhamento do governo em cima do que faltou: um programa de médio e longo prazos.”

TEMER

‘O inimaginável pode acontecer’ 

“A saída de Dilma joga o País numa incerteza maior. O ambiente é muito frustrante para os agentes econômicos. Será ruim se Temer assumir e mostrar que não tem condições de organizar a base no Congresso e chamar os empresários. Ao mesmo tempo, vai ter um outro lado que vai sair enfurecido. Não é uma transição simples. Vão destampar a panela de pressão. O inesperado, o inimaginável, pode aparecer. O governo terá pouca credibilidade. O PT está preparado para viver justamente esse ambiente. Crises fortalecem o PT. O partido tem ousadia, com responsabilidade, nesses momentos. A capacidade de se reinventar é impressionante.”

Tudo o que sabemos sobre:
LulaParlamentoPT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

José Luis Oreiro, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro

<u><strong>DILMA</strong></u></p>

O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 23h59

‘Câmbio deve se desvalorizar’

“Se a Dilma permanecer, deve ocorrer uma desvalorização do câmbio nas próximas semanas. Haverá um aumento das expectativas de inflação, o que vai abortar o processo de redução dos juros. Isso levaria a uma piora da confiança tanto da indústria como dos consumidores. Se ela continuar no cargo, vai ser por causa do apoio dos movimentos sociais e da esquerda. Nesse caso, existem duas alternativas. A primeira é continuar com o Nelson Barbosa. Seria a opção mais sensata. Ele tem um plano de ajuste estrutural das contas públicas. A outra possibilidade seria uma guinada para a esquerda e não faço a menor ideia de quem eles poderiam colocar no Ministério da Fazenda.”

TEMER

‘O ponto é qual modelo seguir’

“Tudo vai depender de como um governo Temer pode fazer a composição da equipe econômica caso ele assuma a Presidência. Existe hoje no Brasil uma disputa entre os liberais e os neodesenvolvimentistas. Entre esses grupos não há uma divergência com relação à necessidade do ajuste fiscal. O ponto que se coloca é qual o modelo de desenvolvimento que seguiríamos a partir daí. Os neodesenvolvimentistas apostam na reindustrialização da economia brasileira. É preciso colocar as bases para a reindustrialização, o que exige uma política macroeconômica que viabilize uma combinação de juros mais baixos e câmbio mais desvalorizado.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Mônica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional

<u><strong>DILMA</strong></u></p>

O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 23h59

‘Caos, com certeza’

“O cenário com Dilma é o mais fácil porque é o cenário de implosão do Brasil. A economia está num enorme estado de desordem. Mesmo que ela sobreviva ao impeachment, a vitória na Câmara não vai lhe conferir força política adicional alguma, na minha opinião, depois ter passado por todo esse questionamento. Vai governar como? Sozinha? O Brasil vai rapidamente para o cenário que conseguiu evitar até agora. Vai ter fuga de capital, crise no balanço de pagamentos, problemas fiscais muito mais severos e não dá para excluir uma possível reestruturação – para não falar na palavra calote – da dívida pública. É um cenário de caos total.”

TEMER

‘Uma incerteza necessária’

“Temos dois lados. O ruim é que o novo governo, entre aspas, não tem tanta legitimidade. Em caso de impeachment, quem entra não foi eleito. Mesmo que todos gostassem – o que não é o caso – de Temer, vice é vice. Tem ainda a questão do papel do PMDB, das figuras que lá estão, da própria linha de sucessão, que é ruim: vem o Eduardo Cunha (presidente da Câmara) e Renan Calheiros (presidente do Senado). O mercado preferiu não ver o que está aí, mas em algum momento haverá reavaliação. O lado bom é que existe uma chance de colocar no Ministério pessoas boas, para fazer o que deve ser feito e dar um choque de confiança.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Nelson Marconi, professor e coordenador executivo do Fórum de Economia da FGV

<u><strong>DILMA</strong></u></p>

O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 23h59

‘Lula terá peso muito grande’

“Vejo um cenário em que o governo vai tentar fazer uma coisa muito parecida com o que ocorreu no primeiro mandato do ex-presidente Lula. A equipe econômica vai tentar acalmar o mercado financeiro, fazer uma política monetária um pouco mais apertada, embora não signifique que vai aumentar os juros, e tentar flexibilizar no crédito. O Lula vai ter um peso muito grande na formulação da política. Se ele comandar uma guinada, por mais que ele faça esse discurso, o País possivelmente vai ter um desequilíbrio macroeconômico muito maior. E o Lula está visualizando a eleição lá na frente.”

TEMER

‘No início, alguma melhora’

“No começo, o governo Michel Temer vai propiciar uma melhoria do estado de espírito da economia. E aí alguns setores que estão travando investimento podem voltar a soltar recursos. Algumas reformas devem ser encaminhadas, como previdenciária, política e, talvez, uma administrativa. O meu medo é que eles voltem a usar o câmbio para controlar a inflação. Seria muito ruim num momento em que o País recupera as exportações de manufaturados. Dependendo de quem for para o Banco Central e o Ministério da Fazenda, o governo pode acabar mexendo no câmbio para derrubar a inflação mais rápido.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Nathan Blanche, sócio da Tendências Consultoria Integrada

<u><strong>DILMA</strong></u></p>

O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 23h59

‘A perspectiva ruim pioraria’

“O mercado hoje tem uma aposta muito firme em relação ao impeachment. Isso não é fundamento. São apostas de que o governo vai cair feitas por diferentes agentes econômicos. São vários os indicadores dessas perspectivas. A velocidade da apreciação do câmbio na semana que passou. A queda, de cerca de 500 pontos para 360 pontos do CDS (sigla para Credit Default Swap, título que funciona como um termômetro de risco de calote). A situação da economia é muito séria e a permanência dela levaria a uma reação ruim. Pioraria o cenário que já não é bom. Todos os indicadores tenderiam a apresentar uma piora.

TEMER

‘A chance para medidas certas’

A herança que temos aí não se resolve com faltas promessas ou blá-blá-blá. Temos uma conta alta para pagar e precisamos atrair capital de longo prazo. Os investidores vão querer ver um programa de longo prazo. A agenda não é fácil. Temos de recuperar o tripé e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Publicar e programar agenda de privatizações e concessões. Cortar e demitir, nos ministérios, atacando os cabides de empregos dos cargos comissionados – 20 mil no mínimo. Abrir a economia. Isso sem falar nas reformas, da Previdência e trabalhista. O governo Temer terá a chance adotar as medidas certas. E vai precisar de coragem.

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.