Brendan McDermid/Reuters
Brendan McDermid/Reuters

Para analistas, perda de grau de investimento já era esperada

Após rebaixamento, especialistas afirmam que a preocupação recai sobre uma eventual saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e quem seria seu substituto

André Ítalo Rocha, Ricardo Leopoldo, Mateus Fagundes, Murilo Rodrigues Alves, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2015 | 13h50

Texto atualizado às 14h50

A perda do grau de investimento do Brasil pela Fitch, a segunda agência a cortar o rating do País, já era esperada, de acordo com analistas do mercado financeiro.

"O downgrade (rebaixamento da nota) do Brasil pela Fitch era inevitável, dada as idiossincrasias sobre o ajuste fiscal", comentou ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, Alberto Ramos, diretor de pesquisas para a América Latina do banco Goldman Sachs.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, também não mostrou surpresa com a notícia. "Já era esperado. Temos que dizer: somos rebaixados. O que vamos fazer para corrigir isso e ser elevado de novo a um grau de investimento adequado?", questionou Andrade, na coletiva de imprensa de fim de ano da CNI. "Sabemos o que fazer. Precisamos de ter alguém com coragem para fazer", afirmou. Ele defendeu medidas que sinalizem mudanças na economia brasileira, como a reforma da Previdência. 

Andrade ainda afirmou que a preocupação do setor é com quem assumirá o Ministério da Fazenda em uma eventual saída de Joaquim Levy. Andrade criticou o desempenho de Levy no cargo, mas ponderou que a culpa não é só dele.

"Fico preocupado em saber quem vai assumir e com que autonomia", afirmou Andrade em coletiva de balanço de fim de ano da CNI. "O ministro deu algumas declarações que foram na direção errada. Se ele está certo ou está errado, não estou discutindo, mas se ele sair, tem que ver quem vai substituir. A grande preocupação que tenho é com essa possibilidade", completou.

Quando questionado se o ministro fez um bom trabalho à frente da Pasta, Andrade rebateu: "Não tem resultado. Qual o resultado? A proposta de ter déficit menor neste ano não aconteceu, superávit no ano que vem não vai acontecer. Então, não fizemos nada. Foi um ano completamente perdido", disse. O presidente da CNI ponderou que a culpa de 2015 ser um "ano perdido" não é apenas de Levy, envolve a presidente Dilma Rousseff, outros ministros e os parlamentares. "Trabalhar com Câmara e Senado neste ano está sendo muito difícil", afirmou. 

Ajuste mais difícil. Na avaliação do economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks, o rebaixamento não só acelera a fuga de capital no Brasil como também torna ainda mais difícil a implementação do ajuste fiscal e a busca de um superávit primário em 2016. Isso porque o governo não terá mais o argumento de que precisa melhorar as contas públicas para evitar um novo rebaixamento. 

"A missão do Joaquim Levy (ministro da Fazenda) era evitar um segundo rebaixamento (depois do primeiro da Standard & Poor's, em setembro), mas agora que já aconteceu, ele perde o argumento que usava no Congresso para conseguir o superávit primário em 2016", disse Weeks. Além disso, observa o economista, o rebaixamento da Fitch tende a deixar o governo mais relaxado em relação à implementação do ajuste fiscal. "O rebaixamento tornou-se uma preocupação a menos", afirmou.

Com o segundo rebaixamento, Weeks sustenta que a maior preocupação do mercado, agora, não será com o rating do Brasil, mas sim com quem será o próximo ministro da Fazenda. "Em algum momento o Levy vai sair. Quem vai ser o substituto do Levy está importando mais do que os efeitos da perda do grau de investimento", declarou. O economista afirmou também que a decisão da Moody's de colocar em revisão para possível rebaixamento o rating do Brasil acelerou a perda do grau de investimento por parte da Fitch. 

Dívida pública. O rebaixamento do Brasil pela Fitch reflete a falta de perspectiva de correção fiscal de longo prazo, que requer reformas estruturais, como na Previdência Social, fim das vinculações do Orçamento e aferição da eficiência de políticas públicas, disse Marcos Lisboa, ex-Secretário de Política Econômica e atual presidente do Insper. "O País precisa de reformas estruturais para reverter a percepção de insolvência da dívida pública no futuro", destacou. 

Na avaliação de Lisboa, a correção profunda de rumos das contas públicas é imprescindível, dado que os gastos obrigatórios estão crescendo mais rápido do que as receitas do governo, fato que já ocorre há anos. "E sem mudanças estruturais, os graves problemas fiscais vão se agravar", apontou. Ele defende uma reavaliação completa e geral das políticas de despesas adotadas pelo governo, o que é fundamental para continuar programas que trazem retorno à sociedade com baixo dispêndio, como o Bolsa Família, e redimensionar iniciativas que consomem recursos públicos em grande monta, mas que não geram benefícios proporcionais à população. 

"Mudanças estruturais são essenciais para reverter essa grande crise econômica, que infelizmente ainda vai piorar  em 2016. Ela é tão grave que o Brasil  está ingressando num quadro de depressão", apontou Marcos Lisboa. 

Para o economista Thiago Biscuola, da RC Consultores, a redução da meta fiscal de 2016 de 0,7% do PIB para 0,5% do PIB foi um "banho de água fria" nas expectativas para o País. "As incertezas agora para as contas públicas ficam maiores ainda, já que a trajetória da dívidas está explosiva", disse.

Tudo o que sabemos sobre:
FitchCNIJoaquim LevyDilma Rousseff

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.