Para analistas, programa lembra a era Mantega

Ao orientar os bancos públicos a liberarem crédito mais barato para empresas em dificuldades, o governo retoma no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff práticas da gestão petista capitaneadas pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega que pensava-se terem sido erradicadas com a chegada de Joaquim Levy ao comando da equipe econômica. Esse é o entendimento de Mansueto Almeida, especialista em finanças públicas e colaborador de Aécio Neves na campanha presidencial de 2014 e do também especialista em contas públicas da Tendências Consultoria Integrada, Fabio Klein.

Karla Spotorno e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2015 | 02h03

No total, serão repassados às empresas pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal R$ 8,1 bilhões provenientes principalmente do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FST) e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviços (FGTS). Segundo Klein, se por um lado a medida não impacta negativamente o ajuste fiscal, por não entrar na conta do resultado primário, introduz mais incertezas com relação aos rumos da economia, expõe ainda mais a fraqueza do governo, que não consegue resistir às pressões do setor empresarial mais organizado, e não vai, pela magnitude da crise econômica, garantir a manutenção do emprego.

"O governo está resgatando práticas do ex-ministro Guido Mantega", disse Klein. Segundo ele, a medida emite sinais contraditórios e cria confusão na cabeça dos empresários, investidores e população de modo geral. Se, por um lado, há medidas econômicas mais ortodoxas, como elevação de juros, realinhamento de preços relativos, por outro há também medidas como as anunciadas na terça-feira e ontem, a recente redução da meta de superávit primário, a elevação de 30% para 35% do comprometimento da renda com empréstimo consignado e o lançamento do Plano de Proteção ao Emprego (PPE).

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'Esse é um movimento com efeito limitado. Gera mais um efeito político, de o governo mostrar que está ajudando, do que um efeito prático' - Mansueto Almeida, economista
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"Esse é um movimento com efeito limitado. Gera mais um efeito político, de o governo mostrar que está ajudando, do que um efeito prático", diz Mansueto Almeida, para quem, apesar de a taxa de juros ser baixa e, portanto, convidativa, a empresa que tomar o crédito terá de se comprometer com as condições de empréstimo. Uma delas é não demitir. Por si, essa condição desabilitará muitas empresas para tomar o crédito, na avaliação do economista.

Problemas futuros. Klein acrescenta que, dado o tamanho da crise econômica, em vez de aliviar o caixa das empresas, o governo pode estar empurrando para frente um problema que se mostrará mais danoso no futuro. Isso porque, segundo ele, nada garante que, por força da crise, as empresas não se verão obrigadas a demitir após a vigência da medida - e, nesses casos, também acabam sendo desembolsados recursos do FGTS e do FAT.

Almeida observa que muitas companhias, especialmente, no setor automotivo - o primeiro beneficiado por essa nova orientação do governo - enfrentam o desafio de repensar a sua estrutura e, portanto, de demitir. "Assim, a iniciativa do governo terá um efeito limitado. É possível imaginar que a demanda não será gigantesca", disse.

Ainda na avaliação de Almeida, a medida anticíclica anunciada pela Caixa e pelo Banco do Brasil também terá efeito limitado porque será insustentável para os bancos emprestarem a taxas tão baixas. "Se o programa der muito certo, eles terão de parar de conceder crédito em algum momento (por falta de recursos baratos). Porque não acredito que o Tesouro vá transferir recursos para os bancos", ponderou o economista.

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