André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Para analistas, risco é de descrédito para declarações do BC

Avaliação do mercado financeiro é que decisão de manter a Selic, após sinais concretos de elevação, minam a credibilidade do banco

MATEUS FAGUNDES, ANDRÉ ÍTALO ROCHA E RICARDO LEOPOLDO, O Estado de S. Paulo

20 de janeiro de 2016 | 22h02

SÃO PAULO - Para o mercado financeiro, a súbita mudança de rumo do Banco Central em relação aos juros - até a terça-feira, todos os sinais apresentados era de que haveria uma elevação da Selic - deixou no ar a impressão de que houve ingerência política na decisão. Por isso, analistas avaliam que será difícil recuperar a confiança nos próximos comunicados feitos pelo banco. 

“Se a manutenção da Selic fosse uma decisão independente, não seria ruim. Mas ela veio depois de uma comunicação desastrosa de Tombini sobre o FMI, quando ele praticamente telegrafou a decisão de hoje”, disse Adriano Gomes, professor de finanças da ESPM e sócio da Méthode Consultoria. Ele fez referência ao comunicado do presidente do BC, Alexandre Tombini, na terça-feira, dizendo que a forte deterioração nas expectativas do Fundo Monetário Internacional para a economia brasileira seria levada em conta na reunião do Copom.

De acordo com Gomes, a forma como a decisão sobre juros foi tomada só confirmou o temor dos mercados em relação à falta de independência da instituição. “Além disso, aumenta a antipatia do mercado com Tombini, já que ele mudou a comunicação do BC entre a última reunião e esta. Há o risco de todas as declarações da autoridade monetária caírem em descrédito”, disse.

Para Luiza Sampaio Loss, economista-chefe da Somma Investimentos, se o Banco Central tivesse elevado a Selic em 0,25 ponto porcentual, a sua credibilidade teria sido menos afetada. “Depois da mudança de sinalização nesta semana, de elevação da taxa básica para manutenção, uma alta de 0,25 ponto porcentual mostraria que o BC não está tão ‘dovish’ (suave) nem tão ‘hawkish’ (agressivo)”, disse.

Segundo ela, com a manutenção da Selic em 14,25%, o Copom perde credibilidade na sua comunicação para as próximas reuniões e reforça a percepção de que está sem prazo para convergir à inflação para o centro da meta, de 4,5%. “Antes, eles falavam em convergir a inflação para a meta em 2016, depois passaram para 2017 e agora nem falam mais em 2017. Parece que não tem prazo para atingir a meta”, afirmou.

De acordo com o economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, o mais provável agora é que o Banco Central deixe a Selic estável também na próxima reunião do Copom, nos dias 1.º e 2 de março, pois o cenário externo não deverá mudar até lá. “As dúvidas com o crescimento global, com impactos nos preços de commodities, foram determinantes para o BC manter os juros em 14,25%”, comentou. “Como as circunstâncias apresentam muitas incertezas, o BC deve ter uma postura mais neutra possível.”

Na avaliação de Kawall, a participação do presidente do BC, Alexandre Tombini, na última reunião do BIS deve ter colaborado para que ele adotasse a decisão de não alterar a taxa Selic.

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