André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Para analistas, crise política ameaça ajuste fiscal

Avaliação é que denúncias na Lava Jato enfraquecem o governo e o Congresso, comprometendo a aprovação da reforma da Previdência

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2016 | 05h00

Economistas e analistas de mercado que acompanham o ajuste fiscal consideraram um importante avanço a aprovação da proposta de emenda à Constituição que cria um limite para os gastos, a chamada PEC do Teto. Mas agora há uma grande apreensão em relação à capacidade de o governo e de o próprio Congresso darem o próximo passo: aprovar a reforma da Previdência. A avaliação é que a nova onda de delações dentro da Operação Lava Jato, protagonizada pelos executivos da Odebrecht, tende a enfraquecer a base aliada, contaminar a discussão sobre a Previdência, desidratando ou até mesmo impedindo a reforma. 

A mensagem central da aprovação da PEC é que o governo conseguiu dar um passo à frente. “Depois de todo o retrocesso que a gente observou com a chamada contabilidade criativa, sobretudo com as pedaladas fiscais, agora há uma luz no fim do túnel”, diz Felipe Salto, diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI). Salto destaca que o teto tem um grande mérito: “Coloca o reequilíbrio das contas públicas no topo da agenda econômica.” 

Mas tanto Salto como os demais economistas lembram que a proposta é rígida, mas “não para de pé” sem a reforma da Previdência. Os gastos previdenciários crescem, em média, 4% acima da inflação todos os anos. Ou seja, se não forem controlados, vão explodir as contas públicas - a maior parte do Orçamento irá para a Previdência.

A Bovespa passou a manhã majoritariamente em queda, mas engatou alta de mais de 1% no começo da tarde. Os ganhos, contudo, começaram a esmorecer após a aprovação da PEC do Teto por causa do placar. O Ibovespa, principal índice da Bolsa paulista, fechou em alta de 0,17%. Os investidores já davam como certa a aprovação da PEC, mas ficaram insatisfeitos com o resultado por acreditarem que o governo precisará reorganizar a base para a votação da reforma da Previdência.

Risco. Apresentada também como PEC, a reforma da Previdência já está tramitando. As medidas por si só são consideradas polêmicas e tendem a enfrentar resistência da população. Agora, porém, observam os economistas, há outro elemento que vai pesar contra: o acirramento da crise política depois do vazamento da primeira das 77 delações da Odebrecht, grupo investigado na Lava Jato. 

“A gente pode defender a reforma da Previdência com unhas e dentes, mas o fato é que ela já está contaminada pelo agravamento da crise política”, diz Mônica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional. 

Ela conta ter passado o final de semana lendo a delação que vazou. “Por mais que o pessoal tente desclassificá-la, ela narra, com detalhes, como funcionou o balcão de negócios dentro do Senado e compromete o círculo político do presidente. Vai ter efeitos”, diz Mônica. Para ela, os oito votos a menos que a PEC do Teto recebeu entre a segunda e a primeira votação no Senado são o indício disso.

O economista Nelson Marconi, professor da Fundação Getúlio Vargas, concorda: “Você já não sabe o que vai acontecer no ano que vem, nem com o governo, nem com a reforma”, diz ele. Marconi é a favor do corte de gastos, mas sempre foi contrário à PEC do Teto. “Considero a proposta inviável porque, nos vários cálculos que fiz, impõe um aperto muito grande: mesmo com a reforma da Previdência, não vai durar nem dez anos”, diz. O cenário sem a reforma, para ele, é sinistro: “Será o caos se, ainda por cima, não aprovarem a reforma da Previdência.” / COLABORARAM EDUARDO RODRIGUES E ISABELA BONFIM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.