Para analistas, governo criou ruído desnecessário nas tarifas

A avaliação quase consensual hoje no mercado financeiro sobre a confusão envolvendo os reajustes das empresas de telefonia fixa é de que o governo acabou criando um ruído político desproporcional ao tamanho do fato. E que ainda há alguma lenha para essa fogueira, sobretudo consideradas as declarações feitas hoje pelo ministro das Comunicações, Miro Teixeira, de que o Ministério Público questionará os reajustes anunciados ontem pela Anatel. "O Executivo administrou de maneira muito ruim esse episódio, causando um desgaste maior do que deveria ter tido?, avalia o analista político Christopher Garman, da Tendências Consultoria. ?Uma vez que a negociação de sua preferência com as teles não deu certo, ele deveria declarar publicamente a sua insatisfação com o grau dos aumentos, mas deixando claro que o respeito aos contratos será mantido."Para ele, a forma como foi feita a divulgação ontem dos reajustes deu margem à interpretações das mais diversas sobre a relação entre o Executivo, a Anatel e as empresas, inclusive a de que o governo realmente brigará por mudanças nas regras. Garman defende ainda que a afirmação feita hoje pelo ministro Miro Teixeira de que o Ministério Público questionará os reajustes apenas amplia esse desgaste. "O Ministério Público, como órgão independente, pode perfeitamente questionar os reajustes. Mas não é um ministro quem deve anunciar isso", critica o analista. "O ministro está extrapolando as suas reações."ConfusãoPara o economista chefe do Unibanco, Alexandre Schwartsman, a confusão envolvendo os reajustes das teles acaba sendo um "péssimo" sinal em termos de segurança para o ambiente regulatório no País. "Se o governo quer mudar o modelo das agências reguladoras, tudo bem, mas que o faça de maneira adequada e às claras, enviando um projeto de lei complementar nesse sentido ao Congresso", critica Schwartsman. "No final das contas, fica uma impressão de que o Executivo está jogando para a platéia, criando um lado ´bonzinho´ e outro ´mal´, o que não tem absolutamente nenhuma consequência prática", acrescenta. Para o economista chefe do Crédit Lyonnais, Dalton Gardiman, os fatos acabam apenas amplificando as incertezas já existentes sobre a condução da política microeconômica no País, justamente num momento em que o nível de investimentos diretos estrangeiros encontram-se em níveis baixíssimos - em parte por uma realidade global, em parte por conta desse tipo de incerteza doméstica. "A última coisa que precisávamos para tratar essa fadiga dos investimentos diretos é esse tipo de incerteza. Honestamente, não sei quem ganha", diz Gardiman. Saldo positivo Excluídos os ruídos negativos que inevitavelmente surgirão com a confusão em torno dos reajustes das teles, os analistas consultados pela Agência Estado também destacam algumas lições positivas do fato. Uma delas é a percepção cada vez mais clara de que, a cada ruído político e econômico envolvendo o governo e que tenha repercussão no mercado financeiro, as questões são rapidamente explicadas, suavizadas ou mesmo desmentidas pelos ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e da Casa Civil, José Dirceu. O primeiro apagando os incêndios na área econômica. O segundo, na política. A outra lição é de que, até prova em contrário (afinal, a confusão não terminou) prevaleceu a regra e o respeito aos contratos firmados com as empresas de telefonia fixa. "A decisão final da Anatel demonstra que o poder regulatório no Brasil tem um quadro institucional mais sólido do que supunham alguns analistas", diz o analista político da Tendências Consultoria, Christopher Garman.Outra boa notícia dessa confusão toda, destaca o economista chefe do Unibanco, Alexandre Schwartsman, está no fato de que a concentração do reajuste em 2003 facilita a vida da política monetária do Banco Central, claramente focada para as metas de 2004. "Isso acaba só facilitando a vida do BC, que há tempos anda mirando seus objetivos no ano que vem", diz Schwartsman. Mesmo a preocupação com a inércia inflacionária - demonstrada hoje pelo próprio presidente do BC, Henrique Meirelles - estaria dissipada em função do momento em que os reajustes foram anunciados e poderão ser aplicados (vale lembrar que as teles têma autorização para os aumentos, mas não necessariamente os aplicarão no porcentual autorizado). "Se isso tivesse ocorrido em março ou abril, seria uma coisa muito mais complicada, pois a inflação estava em trajetória de alta e superando para cima todas as expectativas do mercado. Hoje ocorre justamente o contrário: as pessoas estão conscientes de que a inflação está caindo de maneira consistente", explica Dalton Gardiman, economista chefe do Crédit Lyonnais.Os analistas também avaliam que o desgaste político dos fatos não deve afetar de maneira significativa a percepção positiva sobre os fundamentos macroeconômicos no Brasil por parte dos agentes financeiros internacionais. "É preciso lembrar que o estrangeiro vê o País em ´big picture´, em que os fundamentos macro como o fiscal e o monetário continuam reforçando essa percepção positiva", diz Gardiman. "Além disso, era impossível esperar que não haveria algum tipo de desgaste para o governo Lula. Está na conta", reforça Schwartsman. » Senador convocará Anatel para explicar reajuste de tarifas » "Reajuste de tarifa é manifestação de herança", diz Dirceu » Miro afirma que reajuste foi rendição da Anatel » Ministério Público estuda ação contra aumento, diz Miro » Impacto de reajuste deve ser menor que 1%, diz Meirelles » Genoíno nega constrangimento com reajuste de telefones » BrT e Telemar publicam novas tabelas de preços » Presidente da Anatel diz que não afrontou Lula » Governo respeitará os contratos com as teles, diz Palocci » Lula pede a Anatel que só conceda reajuste após negociação » Telefônica antecipa à Agência Estado que aumento será de 28,7%, de uma só vez

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