Bryan R. Smith/AFP - 18/03/2020
Bryan R. Smith/AFP - 18/03/2020

Para analistas, recessão global está cada vez mais próxima

Banco JP Morgan prevê queda de 1,1% na economia mundial este ano por conta do coronavírus

Luciana Dyniewicz, Renée Pereira e Iander Porcella, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2020 | 08h07

Diante da paralisação das atividades econômicas por causa da pandemia do coronavírus, bancos e consultorias já consideram a possibilidade de haver uma recessão global neste ano. O JP Morgan passou a prever, na quarta-feira, 18, um PIB global de -1,1% em 2020, além de uma recessão de 1,5% para os Estados Unidos. Caso esse cenário se confirme, será o pior resultado da economia mundial desde 2009, quando recuou 1,7%. 

Segundo economistas ouvidos pelo Estado, neste primeiro trimestre, o resultado da economia mundial deve sofrer forte impacto negativo da China. No segundo trimestre, será a vez de Estados Unidos e Europa, que foram atingidos pelo vírus posteriormente, puxarem os números para baixo. 

O Wells Fargo, quarto maior banco americano, ainda projeta crescimento para a economia mundial, mas revisou seu número para 1%. A consultoria brasileira MB Associados tem como estimativa uma alta de 1,7%. “Um PIB global abaixo de 3%, em geral, já é considerado recessivo. Inferior a 2,5% causa muita preocupação”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB.

Em situações normais, um crescimento da economia global abaixo dos 3% é tido como ruim porque a China costuma distorcer os dados, puxando-os para cima com seus crescimentos superiores a 6%. Normalmente, um PIB global inferior a 3% indica que vários países estão se retraindo e que a economia está abaixo do seu potencial (ritmo de crescimento em que não gera pressão inflacionária), se aproximando de uma recessão, segundo os economistas. 

Os dados divulgados nesta semana por Pequim reforçaram a teoria de que a economia mundial vai desacelerar bruscamente em decorrência do coronavírus. Responsável por cerca de 20% do PIB global, a China informou que sua produção industrial caiu 13,5% no primeiro bimestre na comparação com o mesmo período de 2019 (primeira retração em 30 anos) e que as vendas no varejo recuaram 20,5%. 

“Os dados da China são uma boa indicação do que tende a acontecer com as outras economias”, diz o estrategista-chefe do BTG Pactual Wealth Management, João Scandiuzzi. Antes do coronavírus, o BTG previa que o PIB chinês cresceria 5,9% neste ano. Agora, a estimativa é de 3,2%.

Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV/Ibre), Livio Ribeiro afirma que existe uma “probabilidade elevadíssima de recessão global” neste ano, tanto por causa da queda de demanda gerada pelo confinamento das pessoas em suas casas como pela desorganização que ocorrerá nas cadeias industriais globais. “O debate agora já é mais se o formato do choque será em V (com uma recuperação rápida) ou em U (retomada lenta)”, acrescenta.

Segundo o economista-chefe do banco BV (antigo Banco Votorantim), Roberto Padovani, se o período de paralisação das atividades nos Estados Unidos for superior a um mês, a crise deve começar a se agravar e, aí, seria mais provável uma recuperação em U. “As empresas americanas estão muito alavancadas e agora sofrem com problema de liquidez. Elas não têm receita para sustentar seus caixas.”

Para Scandiuzzi, do BTG, uma forma de tentar mitigar a crise - e acalmar o mercado - seria adotar medidas que façam justamente a liquidez chegar ao empresário. “Os Bancos Centrais teriam de assumir o risco do crédito privado, risco que os bancos privados não querem assumir agora”, diz. “Está faltando garantia de que a liquidez que os BCs estão colocando chegará à economia real.”

No último domingo, por exemplo, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) anunciou um corte da taxa básica de juros de um intervalo entre 1% e 1,25% ao ano para entre zero e 0,25%. Apesar da medida, as Bolsas em Nova York continuaram em queda.

Na avaliação da economista, Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria Integrada, apesar de o conjunto de medidas anunciadas pelo Fed ser consistente, os investidores interpretaram o pacote como um atestado da gravidade da crise além das expectativa. “A interpretação é que o cenário está complicado e que o efeito (do coronavírus) na economia será muito pior.”  

No mercado interno, medidas para aumentar a liquidez são importantes, especialmente para pequenas e médias empresas. O objetivo é evitar que “um monte de companhias morra”. Segundo ela, isso é necessário porque o Brasil vem de uma crise muito severa com uma série de empresas ainda ensaiando uma reação. “Não estou falando de linhas de crédito subsidiadas, mas um programa que use a estrutura de bancos como Banco do Brasil, Caixa e BNDES.”

De qualquer forma, essas medidas apenas vão suavizar a aversão ao risco dos investidores. “Continuaremos ligados ao contexto internacional. Não vamos descolar.” 

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