DIDA SAMPAIO/ESTADAO
DIDA SAMPAIO/ESTADAO

Para analistas, Selic estável e dólar ajudam a combater a inflação

Com relatório de inflação e discurso de presidente do BC, leitura do mercado é de que desvalorização da moeda vai ajudar a reduzir alta de preços

Gustavo Porto, Francisco Carlos de Assis, Ricardo Leopoldo, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2016 | 23h43

A fala do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, após o relatório trimestral da autoridade monetária mostrar inflação ainda resistente reforçou a avaliação de analistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de informações da Agência Estado, de que a instituição deve apostar numa taxa básica de juros (Selic) estável, ao menos até outubro, e ainda na desvalorização do dólar para combater a alta de preços. O mercado financeiro fez a mesma leitura e entre o final de manhã e o começo da tarde desta terça-feira, 28, os juros futuros de curto prazo subiram, enquanto o dólar à vista atingiu as mínimas durante a negociação em quase um ano, ou desde 23 de julho de 2015.

Para o ex-diretor de Política Monetária do BC Carlos Thadeu de Freitas, Ilan reiterou no discurso o compromisso de buscar o centro da meta de inflação, em 4,5% ao ano, já em 2017. Além disso, segundo o economista, Ilan sinalizou, de forma indireta, que a Selic não encontrará muito espaço para cair.

Thadeu de Freitas acrescentou que o presidente do BC mostra uma postura diferente na comparação com o antecessor dele, Alexandre Tombini. "Isso é importante, porque a comunicação do Tombini era muito volátil, típica de um presidente do BC que era mais suscetível a pressões políticas do que Ilan aparentemente parece ser", observou. "No fim da semana passada, o presidente Michel Temer disse em entrevista que gostaria que a taxa de juros caísse de forma responsável. Mas taxa de juro não é conversa para presidente da República, é assunto do Banco Central", emendou.

Para Thadeu de Freitas, se Ilan não desse o recado de austeridade monetária para o mercado, poderia passar a impressão de que voltaria atrás e cederia às pressões políticas. Por outro lado, o presidente do BC ainda corre o risco de ver o discurso ser desmontado pela necessidade de voltar atrás forçado pela pressão de uma economia anêmica, na avaliação do ex-diretor do BC.

Carlos Kawall, economista-chefe do banco Safra, elogiou a coerência de Ilan e a transparência do presidente do BC no discurso de hoje. "O pronunciamento (...) foi muito coerente com seu discurso de posse, no qual também destacou a importância da comunicação e da transparência nas ações do BC", apontou. "Seus comentários também foram importantes ao reafirmar que voltou a atuação do tripé macroeconômico", disse, referindo-se à inflação na meta, câmbio flutuante e administração fiscal austera.

O economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, avaliou que a postura de Ilan e da autoridade monetária no relatório reforçam a aposta de que inflação no curto prazo tem controle ligado ao dólar e aos juros. "A apreciação recente do real ante o dólar não é um assunto desconfortável para atual diretoria do BC, coisa que na anterior era", disse. "Além disso, a Selic em 14,25% ao ano e as taxas reais de juros do Brasil em 8,27% ao ano implicam em um fluxo de liquidez (internacional) ainda grande para o Brasil".

Segundo o economista, o fluxo cambial positivo conta também com a entrada de dólares via um saldo vigoroso da balança comercial brasileira. "Ele (Ilan) nunca vai admitir isso, mas sinto que a postura é de tentar resolver (inflação) no dólar, porque a questão fiscal não vai ser resolvida agora", argumentou.

Pra Alberto Ramos, diretor de pesquisas para a América Latina do banco Goldman Sachs, as ações de hoje mostram que o BC deve manter os juros em 14,25% por mais alguns meses para desinflacionar a economia, pois o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e as expectativas de mercado para o indicador estão elevadas no curto prazo. "O BC tem um foco nítido para levar a inflação à meta de 4,5% no próximo ano. Esta é uma postura prudente e saudável, pois o Copom só deverá reduzir a Selic quando não houver riscos para atingir esse objetivo em 2017", apontou.

Na avaliação de Ramos, o BC poderá começar um ciclo de distensão da política monetária ao final deste ano, especialmente com o auxílio de alguns fatores, como o câmbio em apreciação, na direção de R$ 3,00, e uma possíval surpresa positiva de redução da inflação nos próximos meses.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.