Para argentinos, recessão no Brasil estimula invasão de produtos

A chegada à Argentina do enviado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o secretário executivo do ministério de Desenvolvimento, Márcio Fortes, se dá em um momento de tensão comercial entre os dois maiores parceiros do Mercosul. As reclamações dos produtores dos setores têxtil, de calçados, suínos, avícola, entre outros, contra a suposta "invasão" da concorrência brasileira forçaram uma discussão com o governo brasileiro. O assunto começou a ser levantado pela imprensa argentina em meados de maio, a partir de uma reportagem pequena num jornal de menor credibilidade, e foi aumentando até conquistar espaço em todos os jornais do país, em publicações diárias e consecutivas de denúncias dos setores mencionados, com especial destaque para o têxtil. Para responder às acusações dos empresários e fazer frente a algumas opiniões controvertidas da própria imprensa, o embaixador do Brasil, José Botafogo Gonçalves, convocou uma entrevista coletiva em julho para esclarecer o assunto e comprovar, com números, que a ?invasão? não estava ocorrendo. A presença de Márcio Fortes na Argentina está sendo vista como o início formal de uma negociação para proteger a recuperação da indústria deste país. Porém, em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, o secretário tentou tirar o peso do encontro que manterá com o secretário de Indústria argentino, Alberto Dumont, nesta quarta-feira, ao dizer que os contatos serão ?informais?, com o objetivo de recuperar os níveis normais do comércio bilateral e ?solucionar problemas pontuais?. O desespero de alguns empresários argentinos tornou-se perturbador com as notícias nada alentadoras sobre o não crescimento do Brasil, neste ano, que chegaram à Argentina. Com a recessão no Brasil, somada ao aumento das importações de alguns produtos brasileiros pela Argentina, os empresários locais passaram a acreditar em motivos lógicos para a tese da ?invasão?. Um dos argumentos é que o Brasil conta com excedentes em sua indústria por causa da recessão de seu mercado interno e necessita vendê-lo. O principal destino destes produtos seria a Argentina, pela proximidade e porque o país não impõe alíquotas às importações brasileiras. Por isso, o governo argentino quer colocar restrições às importações brasileiras para o país, por meio de quotas para determinados setores, como o têxtil. Quotas A Argentina quer que sejam estabelecidas quotas para as importações de um país sócio do Mercosul quando se detecte um aumento excessivo da entrada de determinado bem que possar afetar negativamente a economia local. Na mira, estão as exportações brasileiras. Segundo uma fonte da secretaria de Indústria, estas quotas seriam limitações quantitativas e temporárias, com prazo máximo de seis meses. A fonte afirmou que o mecanismo se dispararia automaticamente ante o aumento da entrada de um produto durante dois trimestres consecutivos. A quota seria determinada com base na média histórica de importações do produto em questão, calculadas de acordo com os movimentos dos últimos três anos. ?Entendemos que esta é a única forma para monitorar a evolução das importações que vêm do Brasil e evitar a ameaça contra a nossa indústria, já que os mecanismos de antidumping ou as salvaguardas costumam chegar depois que o estrago já foi feito?, declarou a fonte.

Agencia Estado,

23 Julho 2003 | 08h06

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