Para BCs, ainda é cedo para dizer que a crise passou

Presidentes dos Bancos Centrais temem que sensação ilusória desestimule uma reforma profunda do sistema

Jamil Chade, BASILEIA, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2009 | 00h00

Os principais bancos centrais do mundo se reúnem a partir de hoje na Basileia com o desafio de transformar as promessas de reforma do sistema financeiro em novas regulações que evitem que crises como a atual se repitam. Entre os BCs, a mensagem será clara: ainda é cedo para declarar vitória sobre a pior recessão em 60 anos, apesar dos tímidos sinais positivos em algumas áreas. O presidente do BC brasileiro, Henrique Meirelles, e autoridades de outros países emergentes apresentarão hoje propostas para uma maior regulação dos mercados. A ideia é não permitir que o esforço internacional de reforma do sistema perca força diante de alguns sinais de melhora. Meirelles quer usar o modelo de regulação brasileira para propor mecanismos parecidos no resto do mundo. Uma das ideias é garantir maior transparência no mercado de derivativos. O objetivo é criar um sistema internacional para controlar o comércio de derivativos. No Brasil, a estimativa do Banco de Compensações Internacionais (BIS) é de que o País perdeu US$ 25 bilhões nesse mercado. Por enquanto, a ideia de Meirelles é iniciar o processo com acordos bilaterais e aproveitar a reunião para estabelecer os primeiros contatos com governos interessados em facilitar a troca de informações sobre riscos de operações entre bancos e companhias. Ontem, as primeiras reuniões foram organizadas na sede do BIS entre banqueiros, economistas e o ganhador de prêmio Nobel de economia, Joseph Stiglitz.Uma das opiniões que ganham força é a de que as instituições consideradas sistêmicas terão de ser reguladas. Entre elas estariam os bancos de investimentos que, nos Estados Unidos, operaram por anos sem limitações. Outra proposta é adequar a alavancagem dos ativos ao capital das instituições.No debate ainda ficou claro que a crise surgiu do crescimento de instituições sem regulação e sem controle de riscos. Isso tudo teria sido potencializado com a política monetária americana de baixas taxas de juros por muito tempo. As propostas ainda enfrentam resistências, principalmente de governos que apontam que o pior da crise já teria passado. De outro lado, porém, os mais cautelosos alertam para o perigo de se voltar para um estado de aparente normalidade, sem ter resolvido os problemas de base. Meirelles deu um recado de prudência aos mercados em discurso em Paris no início da semana. "É importante manter os pés no chão, ter prudência e fazer movimentos com cuidado." A prudência é algo que o BIS também deve defender. Nos últimos meses, o mercado voltou a apresentar apetite ao risco. Participantes da conferência, que ocorre a portas fechadas, revelaram ao Estado o tom dos debates e a contradição de encontrarem na mesma mesa pessoas que por anos fecharam os olhos ao que ocorria nos mercados e, hoje, estão entre os que procuram soluções para um acordo sobre regulação. NOVOS RISCOSUma das principais preocupações é a sustentabilidade dos lucros dos bancos nos últimos meses. Uma das possibilidades é de que esses ganhos sejam apenas pontuais e que não reflitam ainda a limpeza dos créditos podres. Preocupa ver que mercado voltou a ter o mesmo comportamento "audacioso" do momento pré-crise. Alguns poucos sinais de melhora no cenário já foram suficientes para renovar o apetite ao risco. Há um mês, um relatório do BIS disse que o comportamento das bolsas dos países emergentes indica a volta do apetite ao risco. Segundo o documento, entre fevereiro e o fim do mês passado, o índice MSCI das bolsas de mercados emergentes aumentou em 38%, superando a média mundial em 15 pontos porcentuais. A percepção de que o pior da crise passou, porém, é questionada. No BIS, o alerta é de que a contração das economias é profunda e ainda existem riscos. A principal preocupação é ainda a queda da economia real. O Banco Mundial revelou no início da semana que a retração do PIB do planeta será maior que o que se previa em 2009. Mas os mais otimistas acham que o fundo do poço teria sido atingido e apostam em queda do ritmo do avanço da crise. Especialistas ainda alertam para outro fenômeno: o endividamento dos governos com os pacotes de relançamento das economias. A expansão do setor público criou novas preocupações sobre a volta da inflação, um aspecto que os BCs estão determinados em enfrentar.Durante o fim de semana, técnicos do G-20 (grupo dos 20 países mais industrializados) se reunirão na Basileia já pensando em uma nova coordenação de esforços para que na próxima cúpula, em setembro nos Estados Unidos, haja resultados concretos sobre como garantir uma recuperação sustentável. O G-20 também deve discutir propostas de reforma do sistema financeiro.

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