Para Blair, fim do euro seria um 'desastre'

Em debate em São Paulo, Clinton diz que o Brasil é sua maior aposta entre emergentes

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2012 | 03h07

O ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair acredita que a manutenção do euro vai exigir medidas difíceis na Europa. Ontem, ele participou do Itaú BBA + Perspectiva, em São Paulo, ao lado dos ex-presidentes do Brasil Fernando Henrique Cardoso e dos Estados Unidos Bill Clinton. Os três falaram a uma plateia composta de CEOs da América Latina.

"Perder a moeda única seria um desastre", disse Blair. "Independentemente do que ocorrer, vai haver uma reconstrução fiscal da Europa. Em outras palavras, se a moeda única for mantida, vão existir implicações profundas nas políticas fiscais e bancárias (da região)", afirmou.

O ex-primeiro-ministro também acredita que o Reino Unido deve participar dos debates sobre o euro, apesar de não adotar a moeda única. "Eu acredito que podemos sobreviver a esta crise, mas acho que ela exige grandes decisões e requer urgência", afirmou Blair, que disse entender a situação da chanceler da Alemanha, Angela Merkel.

A economia alemã ainda apresenta bons indicadores e Merkel costuma ser dura ao exigir que os países em crise da Europa cumpram com os planos de austeridade propostos.

Na avaliação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, se houver uma liderança expressiva na região, será possível abrir uma janela de oportunidades e "impor regras fiscais comuns". FHC lembrou que durante a sua presidência, num encontro em Buenos Aires, o ex-presidente da Argentina Carlos Menem chegou a propor a adoção de uma moeda única na região. "Bem, eu estava lá, não muito confortável em dizer não ao presidente. Então, eu disse: 'Mas você se lembra o que aconteceu na Europa?'", disse FHC em referência ao Tratado de Maastricht, criado em 1992 e que, entre outras coisas, pregava a estabilidade econômica da região. "Eles (europeus) tinham algumas metas em políticas fiscais e outras precondições para ter uma moeda única."

Em relação aos Estados Unidos - que ainda enfrentam dificuldades para acelerar a economia -, o ex-presidente Bill Clinton, cujo mandato foi de 1993 a 2001, acredita que "todo o sucesso tem uma tendência a se transformar em bolha". Para ele, todos os mercados, ao longo da história, tiveram uma tendência de "autodestruição", e é obrigação dos governos evitar que isso ocorra. No caso da economia americana, ele lembra que o crescimento do país foi proveniente do crédito para habitação e de gastos e financiamentos com consumo.

"As pessoas mantiveram o crescimento da economia com consumo, mas basicamente estourando os seus limites no cartão de crédito e assumindo dívidas que não tinham a esperança de pagar", afirmou.

Para o ex-presidente brasileiro, o sistema econômico precisa de mais regulação, mas "o Estado não pode ser usado como um instrumento para parar a iniciativa nos mercados". "Hoje em dia, é fácil defender mais Estado. Ok, mais, mais, mais Estado, vamos para a China. Eu não vejo qualquer um de nós aqui vivendo muito confortável na China", disse Fernando Henrique.

Apesar da crise internacional, Clinton lembra que o capitalismo foi responsável por remover da pobreza boa parte da população mundial nos últimos 25 anos. Na sua fala, o ex-presidente elogiou o Brasil. Para ele, o País foi o único dos que integram o Bric - também formado por Rússia, Índia e China - que conseguiu, na última década, ter um crescimento econômico e uma redução na desigualdade.

"Eu acho que é uma crise do capitalismo, mas ainda é o melhor sistema que temos", afirmou o ex-presidente americano, que elogiou os programas de transferência de renda do Brasil. No encontro de ontem, Clinton chegou a afirmar que, se tivesse de apostar em algum país, escolheria o Brasil.

Fundamentos. Em relação ao desempenho da economia brasileira, FHC disse que começa a existir a deterioração de alguns fundamentos econômicos criados na década de 90 e no início da década passada. "A todo instante, a gente vê que existem mecanismos pelos quais na hora de se fazer a contabilidade o que é dívida não vira dívida", disse o tucano sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal, criada no seu segundo mandato.

Para FHC, por exemplo, todo o País queria a redução da taxa de juros. Mas, segundo ele, a expansão maior do crédito público do que da iniciativa privada é um risco. "Eu tenho medo que essa falta de preocupação com o rigor fiscal e com a questão de ampliar tanto o crédito não termine por criar condições negativas para a economia."

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